Um Método Perigoso – Crítica

O filme Um Método Perigoso do diretor David Cronenberg estreou nos EUA no dia 3 de setembro de 2011. Por motivos que nós brasileiros nunca vamos entender a estreia no Brasil foi adiada para dia 20 de abril de 2012. No mínimo “alguém” considerou prudente que se adiasse este filme para que não “competisse” com os grandes blockbusters de verão. Quem perde com isso? Por um lado, alguns espectadores que tem que esperar um tempo desnecessário para assistir um filme. Pelo outro, a própria indústria do cinema que favorece o compartilhamento informal de filmes, vulgo pirataria. De qualquer maneira, Cronenberg merece fazer parte de um prólogo nesta resenha, pois no subsolo da sétima arte este diretor sempre esbanjou coragem e talento.

Em 1975, Cronenberg dirigiu um clássico dos anos setenta sobre zumbis: Calafrios (Shivers), em que um parasita fálico, transforma seus hospedeiros em zumbis tarados por sexo. O diretor também perambulou por alguns programas de TV americanos, trabalhando principalmente em episódios de seriados de terror. Em 2002 dirigiu Spider, em que se arrisca pelo campo da psicopatologia, já mostrando seu interesse por temas relacionados à Psicanálise. Estrelando Viggo Mortensen, Senhores do Crime (Eastern Promisses – 2007) é um ótimo filme sobre a máfia russa, brutal e inteligente. Em Um Método Perigoso, o diretor decide voltar a trabalhar com Viggo Mortensen, em um roteiro que fala de psicopatologias e sexualidade.

Mudando de assunto, e retomando outro, Um Método Perigoso tem como argumento a instigante história da Psicanálise, que está na moda há um pouco mais de um século. O filme conta alguns episódios sobre o encontro de Sigmund Freud e Carl Gustav Jung, assim como trata da personalidade de Sabina Spielrein como pivô deste encontro – dinâmica expressa tanto no enredo, quanto no pôster do filme em que vemos a figura de Sabina (Keira Knightley) ao centro, ligando os rostos de Jung (Michael Fassbender) e Freud (Viggo Mortensen). O que há de novo, além de ser o grande atrativo do filme, é exatamente a retratação dos encontros e desencontros de Freud e Jung. O tratamento e a relação amorosa entre Jung e Sabina já foram retratados uma vez no filme Jornada da Alma (Prendimi L’Anima – 2003), e a “invenção” da Psicanálise e a história de Freud já foi mostrada em Freud Além da Alma (Freud – 1962) e Segredos de Uma Alma (Geheimnisse Einer Seele – 1926), do diretor alemão G.W. Pabst. A frequência da palavra “alma” nestes filmes se dá por que uma das traduções de Psique é exatamente “alma”.

O filme trata da problemática relação que C. G. Jung manteve com Sabina, já que esta era sua paciente. Um pouco de história da Psicanálise se faz aqui necessária. Sigmund Freud era um neurologista que se especializou no tratamento da Histeria. Esta patologia produzia nos doentes muitos sintomas psíquicos e somáticos (crise de pânico, alucinações, delírios, paralisias corporais, convulsões, entre outras) que os médicos não conseguiam apontar uma causa orgânica. Freud, no início de seus estudos sobre esta patologia, hipnotizava suas pacientes para, através da sugestão, retirar os sintomas que os perturbavam. Ele começou a substituir o método hipnótico por um que ele nomeou de Método de Associação de Livre. Esse método, em resumo, consiste que o paciente fale qualquer ideia, ou associação que venha a sua mente durante o tratamento, para que o médico possa interpretar estas informações trabalhando para a amenização dos sintomas patológicos. Freud assim inventava a Psicanálise, que transformou e reverberou profundamente na cultura humana geral, comparando suas descobertas às de Copérnico e Darwin.

O nome do filme trata de um artigo de Freud intitulado Observações Sobre o Amor Tranferencial (Novas Recomendações Sobre a Técnica da Psicanálise III) escrito em 1914 e publicado em 1915. Neste curto texto (nos parâmetros de Freud) o psicanalista desenvolve indicações sobre a questão do envolvimento amoroso entre analistas e analisando, de maneira quase provocativa para Jung, que manteve relações com Sabina durante o atendimento da mesma de 1904 a 1911. Freud neste texto compara o trabalho do analista à manipulação de substancias explosivas realizada por químicos, ou seja, os psicanalistas “manuseiam” conteúdos da intimidade de seus pacientes que precisam de um extremo rigor técnico para que não “explodam” na mão do analista. Freud assim, dois anos após o escândalo entre Sabina e Jung, teoriza que o envolvimento afetivo/sexual entre analista e paciente não traz beneficio algum para o tratamento e, portanto, não pode ser considerado nunca como método de tratamento.

O filme trata do erro de técnico de Jung ao arriscar-se neste método perigoso. Porém o filme traz diversos dados retirados das cartas publicadas de Freud e Jung, que apresentam algumas indicações do conflito entre os dois. O longa aborda diversas divergências entre ambos, mas foca-se na diferença étnica e de idade dos dois. Freud é apresentado como um senhor de idade, judeu, inflexível, que está extremamente preocupado com o futuro de sua ciência, assim como se preocupa em protegê-la do rótulo de misticismo. Já Jung é retratado como um jovem, ariano, mimado, que está preocupadíssimo com o seu próprio futuro, pois quer ser famoso e livre em suas ideias, não se limitando ao rigor e se atrevendo a pesquisar o misticismo e além. Tenho que confessar que para um estudioso da área, fiquei extremamente satisfeito com estas representações, ela conciliam em perfeição com a imagem que tenho de ambos, quando os leio.

Keira Knightley está ótima no papel de Sabina durante as crises histéricas. Ela representa muito bem os trejeitos descritos nos artigos científicos destas pacientes. Seu papel cai um pouco quando Sabina se forma em medicina, já que a atriz volta à interpretação de sempre, que pode ser vista em Orgulho e Preconceito e em outros filmes de época realizados pela mesma. Interpretando Jung, Fassbender está bom o suficiente, já que para mim Jung era um pouco sem graça mesmo. Um suíço, protestante que vive na hipocrisia. O papel do ator ganha muita profundidade e destaque nos minutos finais durante a “depressão” de Jung, após a briga com Freud. Viggo Mortensen está impressionante. O ator já tem seu status de inesquecível após o show de atuação que deu em O Senhor dos Anéis. Assumir para si a responsabilidade de interpretar Aragorn e fazer o que fez já seria de ótimo tamanho para qualquer ator, mas assumir a personagem de Freud e fazê-lo como fez, somente adiciona mais dignidade a este ator que merece, sim, destaque, já sendo (em minha opinião) o melhor da atualidade. Para quem conhece os vídeos de Freud, suas fotos, biografias, falas e citações, a interpretação é de tirar o fôlego. Mortensen fez renascer Freud de uma maneira que nem Montgomery Clift (Freud Além da Alma) conseguiu.

As referências para os eternos estudantes da área psi são inúmeras, no filme temos as 13 horas do primeiro encontro, o psicogauvonômetro, o teste de associação de palavras, Ferenczi, Otto Gross, a teorização da pulsão de morte e muitas outras; é um prato cheio. Para os espectadores leigos nestas questões, é uma ótima oportunidade para assistir a um bom filme sobre eventos reais do início do século passado, além de servir de referência para Jung e Freud. Ambos os pensadores são muito famosos. A maneira de se pensar o homem moderno é influência direta do discurso Freudiano e Junguiano. Para dar um exemplo, todos os conflitos de infância dos heróis, que são “causa” para o caráter deles quando adultos, são referências claras à teorização de Freud. É simples perceber isso quando notamos que a maioria dos heróis de quadrinhos surge após 1900, depois que Freud publicou o A Interpretação dos Sonhos. No próprio quadrinho Arkhan Asylum há uma imagem de Jung nas primeiras páginas como se este fosse o mentor do Dr. Amadeus Arkhan, fundador do manicômio de Gothan City. Os próprios vilões de Batman são criados e compostos nas premissas junguianas de imagens arquetípicas. Tanto no filme Batman Begins quanto no Batman Eternamente o nome e a teoria arquetípica de Jung são citados.

Assim me despeço, agradecendo a oportunidade me oferecida por Daniel Lopes, Bruno Zago e Alexandre Callari de escrever para este site que tanto admiro – o Pipoca e Nanquim. Deixo assim minha indicação para os interessados: quem estuda ou trabalha na área psi tem a obrigação de assistir esse filme. Para todos os outros deixo a dica de um ótimo filme, bem roteirizado, com ótimas atuações e um tanto quanto fidedigno.

 

Deixe uma resposta

  1. Que bom que filmes recentes como “Quando Nietzshe chorou” e “Viagem pela alma” estão abordando as grandes mentes que fundaram a psicologia na virada do século XIX para o XX. Estou ansioso para ver este filme!

    • J. Fernandes,
      Se não me engano em “quando Nietzsche chorou” também tem o Freud.
      Cara, até que existem bastante filmes sobre os pensadores modernos, o problema é a qualidade destes, sempre é uma tristeza.

      Esse vale a pena!

  2. Olá, Diego. Boa tarde.

    Dica de filme muitíssimo interessante assim como a abordagem do conteúdo e sua citação sobre a criação dos heróis e vilões baseadas na psicologia.
    A construção do texto está ótima. A tal introdução que você deu tanto para o diretor quanto para os atores ficou impecável para quem já os conhecem e para leigos (como eu), pois gera mais dicas de bons filmes. Por exemplo, eu não conhecia o Shivers e estou muito interessado em assistir, assim também como não vi este em que o Virgo interpreta um integrante da mafia Russa, um outro assunto que eu passei a venerar após assistir a fantástica trilogia do The Godfather, não só a mafia italiana, mas sim a mafia em geral (italiana, russa e irlandesa). São dicas que eu irei apreciar bastante, tenho total certeza, já adianto.
    O que me entristeceu foi essa demora na estréia. Lançar dia 20 de abril um filme do ano anterior, essas coisas me entristecem. Mas graças a internet, felizmente ou não, verei esse filme antes do dia 20 de abril.

    Obrigado pela dica de filme e texto compartilhado.
    Aquele abraço!

    • Sérgio, obrigado pelo seu comentário!
      Me incentiva a continuar escrevendo sobre filmes!
      Quanto ao Shivers e Senhores do Crime pode ver sem medo! Você vai gostar!

      Abraço!