The Man from Earth – Crítica

A julgar pela capa, The Man from Earth (idem, 2007) parece um típico sci-fi, mas não é. É um deliciosíssimo trabalho construído sobre uma ideia originalíssima, da qual subtraem-se diversas análises. É um filme para pensar, mas nem por isso difícil de entender. Este longa é dotado de uma ideia muito simples, da qual muitas pessoas também já devem tê-la imaginado, mas a construção dos diálogos e as conexões das ideias propostas nessa envolvente história são sua maior virtude.

The Man from Earth encaixa-se naquele modelo de filme que se passa num ambiente só, que acabam por exigir do diretor e roteirista muito mais agilidade do que o normal, já que a possibilidade do filme se tornar monótono são elevadíssimas. Nesses filmes, em geral, o espectador não tem muita coisa para se identificar, senão somente a ideia desenvolvida, que, obrigatoriamente, tem que se mostrar inovadora. Pois bem, uma vez que esse risco é habilmente driblado, já se tem meio caminho andado para agradar o público, basta sua narrativa manter um ritmo linear evolutivo no contexto do problema e história de seus personagens. E este longa consegue tudo isso. Esses filmes possuem essa peculiaridade de alternar com o público uma carga maior de adrenalina e tensão da trama, onde a possibilidade de envolvimento é bem maior. A exemplo, tem o recente Enterrado Vivo (Buried, 2010), e os mais antigos Jogos Mortais (Saw, 2004), O Cubo (The Cube, 1997),  Ponto de Mutação (Mindwalk, 1990), Janela Secreta (Rear Window, 1954) e Festim Diabólico (Rope, 1948); muito ou pouco, a trama destes filmes fundamentam-se num local específico que geralmente serve apenas como pano de fundo para a história.

Em The Man from Earth, a história é ousada: John Oldman (David Lee Smith) é um professor universitário, e está de malas prontas para mudar-se da cidade e largar seu atual emprego. Para sua despedida, convida seus colegas professores para um encontro em sua residência. Naquela noite qualquer, tudo não passaria de apenas um dia fadado à sua singela confraternização se John não decidisse revelar um detalhe de sua vida para os demais: que possui 14.000 anos de idade. Uma vez feita essa revelação, o filme adota uma linha investigativa e desmembra-se com uma característica clara de entrevista.

Este tom de entrevista que o longa adota intercala duas necessidades básicas: responder às imediatas dúvidas dos demais colegas de John e as mesmas incertezas presentes nos espectadores. Com a justificativa de que queria se mostrar transparente com os demais colegas antes de sua viagem de despedida, esse é o motivo que impulsiona-o a revelar sua verdadeira identidade. John troca de cidade e amigos a cada dez anos, para que seus colegas não percebam a sua incapacidade de envelhecimento da pele.

Assim, as inúmeras explicações de Oldman (percebeu o trocadilho?) revelam como ele viveu na pré-história, como desenvolveu-se nos grupos primatas, como acompanhou a evolução da humanidade, sua relação com os maiores pensadores e filósofos, as invenções humanas e sua relação com familiares e a perda de todos aqueles que possuía admiração. Após estas repostas emergenciais, se observa uma tendência de impor a dúvida ao espectador sobre todas as afirmações feitas por ele, onde começa-se a perceber os pontos de maior genialidade da trama. Seguindo uma iniciação explicativa científica sobre os fatos, os diálogos se alteram e evoluem para um patamar religioso, que é obrigatório, diante da realidade revelada sobre John. Ele caracteriza, assim, sua relação com Buda, com as diversas religiões e o Cristianismo.

Outro ponto interessantíssimo do filme é a ambientação escolhida para o desenvolvimento narrativo de toda a história. Entre seus colegas professores, estão pessoas de nível profissional altíssimo, em diversas áreas: um arqueólogo, um biólogo, um psicólogo e uma religiosa devota ao Cristianismo. Essas pessoas representam um pouco da diversidade de estudos e pensamentos humanos que direcionam-se a tentar explicar e entender um ponto em comum: a história e origem humana. Nesse sentido, o trabalho do desconhecido diretor Richard Schenkman consegue não ser tendencioso, algo que poderia comprometer em muito seu trabalho. A apresentação de suas ideias de cunho científico e religioso tentam unicamente observar e apontar para uma análise investigativa sobre a história humana, apresentando através dos demais personagens, a total incapacidade de uma conclusão real sobre esta condição. As características apontam para uma total ignorância e arrogância do homem em querer garantir que sua história se passou realmente como está documentada.

A característica mais importante dessa história é construir e desconstruir suas afirmações, mostrando a capacidade que temos de pensar conforme o meio e a sociedade ao nosso redor, formulando nossas opiniões pautadas nessas análises já existentes e as defendendo como imutáveis. O que o filme consegue fazer nesse sentido é surpreendente. John transforma o pensamento de veteranos estudiosos, torna-os condicionados ao SEU pensamento, e tem a ousadia de destruir toda a história contada em apenas poucos minutos, fator que acaba revelando a fragilidade de pensamento dos seres humanos.

The Man from Earth não parece querer mais que isso. Propõe-nos uma história que, a primeira vista, parece absurda, mas convence-nos com a grandeza de sua audácia e belíssimo roteiro. Apesar do perigo de transformar tudo numa baboseira sem tamanho, convence verdadeiramente em suas intenções de mostrar-nos um ponto-de-vista diferente sobre a incerteza que os humanos possuem sobre suas origens. É profundo mesmo em seus pequenos 87 minutos de duração.

Este longa americano á uma excelente dica de filme independente, pautado na liberdade narrativa com um propósito incomum. Não tem uma produção foda (teve apenas duzentos mil dólares de investimento), nem atores de ponta, e foi disponibilizado para download gratuito na internet pelo seu próprio diretor. Uma pena que sua divulgação não tenha ocorrido na mesma proporção de seu merecimento, algo comum por aqui, e que nem possibilitou uma tradução de título no Brasil.

Minha avaliação: 10/10
Definindo-o em uma palavra: Inovador.

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Marco Aurélio é cinéfilo para si e nerd para os outros. Caiu no mundo do cinema apenas desde 2005 e não parou mais, tornando-se um colecionador assíduo. Adora um horror, do melhor ao pior, e é grande apreciador de filmes independentes e B, com a liberdade de expressão que ele mesmo acha que tem. É editor do blog Cinemarco Cineclube.

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  1. Também já assisti esse filme, achei excelente. Impressionante como o diretor consegue conduzir toda a história apenas com os diálogos dos personagens dentro de uma sala. A ideia é muito boa.

    • Renver, hoje tivemos problemas com nosso espaço de comentários, recebemos de uma só vez mais de 3000 mensagens de spam. No processo de limpeza, alguns comentários que não eram spam acabaram por ser deletados juntos. Seu comentário (acredito que era um dizendo que ia importar o filme pq gostou) deve ter sido um deles, nos desculpe, por favor. Não foi nada relacionado ao fato de vc alegar que ia baixar o filme, mesmo pq o único modo de assistir The Man From Earth no Brasil é por download, pedimos desculpas a você e a todos que tiveram mensagem excluidas nesse processo. Não deixe de comentar, por favor.

      Valeu cara!

  2. Ok blz, eu realmente fiquei pensado que era por causa do “importar”.

    Acabei de assistir, realmente o filme denso… ótimas atuações!!!

    E praticamente os caras ficam num cenário só.

    O filme não é necessariamente ateísta…mas é claramente cético quanto as doutrinas cristãs. Eu conheço gente que diz que teve a cabeça virada quando leu “Código Da Vinci” (Dan Brown) [eu sei isso é vergonhoso] se ver esse filme então vai ter a cabeça explodida.

    Agora 200 mil ese filme?! Tem alguam coisa errada… pra mim isso é superfaturamento!!!