The Evil Dead – A Morte do Demônio em Páginas Surreais

Em 1981 foi lançado um modesto filme de horror, de orçamento singelo e produção bastante humilde, cuja simplicidade na execução tornou-o um dos maiores clássicos do gênero em todos os tempos. Estamos falando, como não poderia deixar de ser, de The Evil Dead – A morte do demônio.

Escrito e dirigido por Sam Raimi (diretor responsável pela trilogia Homem-Aranha nos cinemas), o projeto foi adiante graças à coprodução e o protagonismo de seu grande amigo dos tempos de faculdade, o ator Bruce Campbell. Juntos, Raimi e Campbell deram vida a um macabro conto que mistura terror, ocultismo e humor negro.

Nos bosques em algum lugar do Teneessee, cinco amigos vão passar um final de semana em uma velha cabana isolada, local que abriga, segundo as lendas locais, acontecimentos estranhos e macabros. Uma vez lá dentro e logo na primeira noite do grupo, esses fatos sobrenaturais começam a surgir com a descoberta de um arcaico livro dos mortos – o Nacheron De’manto, ou Necronomicon – cujas passagens escritas dão vida a entidades e espíritos malignos que adormeciam nos arredores.

Essa é a história clássica, os fãs do bom horror trash já conhecem de cor. Fora as duas sequências realizadas (Evil Dead 2 e Army of Darkness), a franquia conseguiu extrapolar os limites das câmeras e foi parar nas histórias em quadrinhos.

A primeira delas foi uma adaptação do terceiro filme, Army of Darkness, numa minissérie publicada pela Dark Horse Comics em 1992 e escrita pelo próprio Sam Raimi. Em 2004, a editora Dynamite Entertaiment deu prosseguimento na história no ponto em que parou na terceira película e tratou de lançar algumas minisséries e crossovers com outros famosos personagens, como Darkman (outra criação de Sam Raimi, no filme homônimo), Drácula, Frankestein, Múmia, Lobisomem, Freddy Krueger, Jason e até os Zumbis Marvel.

Não restam dúvidas de que a imagem icônica do herói canastrão Ash Williams é a do posudo machão portando uma espingarda numa mão e, na outra, uma motosserra elétrica que substitui seu membro amputado. O tom humorístico é sempre ressaltado nas aventuras do personagem, cuja versão comentada tornou-se a definitiva identidade visual da série cinematográfica.

Mas o que aqui nos interessa é o início, aquele primeiro filme com um tom mais assustador e que, de longe, foi o melhor de todos.

Quase trinta anos depois, a mesma Dark Horse Comics lançou no mercado americano uma adaptação desse longa metragem, em quatro edições, condensadas posteriormente em um volume único.

Eis o ponto mais interessante: não se trata somente de uma transposição do que foi visto nas telas para as páginas dos quadrinhos, senão que também acrescenta cenas inéditas passadas antes, durante e após os terríveis eventos, ocasionando numa verdadeira expansão do conto original. Algumas mudanças também tiveram vez: no filme clássico, Cheryl é irmã de Ash, mas aqui esse parentesco não existe e a personagem é apenas uma amiga de Linda, par romântico do herói.

Outras diferenças encontram-se no visual das mulheres, completamente diferente do que foi apresentado no filme. Aquela moda mais recatada dos anos 1980 não encontra espaço aqui, fazendo as personagens parecerem oriundas de tempos mais modernos.

Em uma das cenas mais toscas e incômodas do filme, Cheryl é atacada e subjugada por vários galhos no bosque amaldiçoado. Uma vez ao chão, uma das ramificações é introduzida à força em sua vagina, fazendo-a ter uma dúbia reação que mistura prazer e pavor. Nos quadrinhos, esse momento é retratado em duas páginas que, certamente, fará o regozijo de alguns fetichistas (e quem sabe sadomasoquistas) de plantão.

Durante o jantar em sua primeira noite, o grupo descobre um alçapão no chão que leva a um porão. Lá embaixo, existem vários objetos esquisitos, do livro feito de pele humana e escrito a sangue até uma adaga personalizada. E o gravador portátil. Ao ouvir o relato gravado do pesquisador e professor que ocupou o local anteriormente, alguns desenhos mostram quem ele era e sua luta contra a esposa possuída.

Estando a maior parte do filme preso no porão do casebre, o demônio que tomou conta do corpo de Cheryl, na versão quadrinizada, trava alguns diálogos com outras entidades do local e muitas cenas originais são mostradas pelo seu ponto de vista.

Scotty, amigo de Ash, desmembra e enterra sua namorada. Na tela, ele sai em busca de alguma saída do local e, minutos após, retorna muito ferido. Aqui, é mostrado como isso aconteceu e quem foi o responsável: uma versão “maligna” dele mesmo. Quem se lembrou, novamente, do terceiro filme da trilogia… É isso mesmo…

A arte é o grande destaque da HQ. Apenas o protagonista manteve-se fiel em aparência, mas nem por isso os desenhos não merecem elogios. Um traçado multicolorido, fosco, com cores digitais chapadas, dá aquele clima surreal ao momento vivido dentro da cabana. Muitas cenas originais são retratadas até mesmo no ângulo da câmera, gerando aquela sensação de familiaridade e déja vu. E há maravilhosas splash pages, uma constante positiva nesse trabalho de adaptação.

Como grande ponto baixo, talvez a ausência de continuidade entre as cenas. A narrativa peca quando, reiteradas vezes, não apresenta uma sequência lógica nos quadrinhos, como se o artista John Bolton estivesse mais concentrado em fazer belos painéis coloridos e lúgubres do que propriamente estabelecer uma linearidade para a história. Por sinal, uma curiosidade sobre o desenhista: ele também fez a arte da minissérie que adaptou Army of Darkness em 1992, roteirizada por Sam Raimi e Ivan Raimi.

Graças à agradável narrativa em primeira pessoa, onde o enredo flui numa tacada só, vale mencionar uma característica de Ash que, ou não existia ou estava bastante implícita no filme e que, nesta HQ, ganha força: seu humor pastelão, tão exacerbado no filme Army of Darkness. O cara vendo seus amigos caírem, sua namorada virando uma espécie de “puta histérica dos infernos”, como ele mesmo diz, e o mesmo só lamenta a perda de oportunidade em dar umazinha.

Palavras finais aos fãs e leitores deste clássico do cinema B: vale cada centavo. Diversão pura e simples revisitar essa inóspita cabana de madeira e rever, ainda que rapidamente, demônios maquiados e feitos de borracha, tinta e látex barato.

Ao menos no papel, os “efeitos especiais” estão bem atuais.

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André Craveiro é advogado, portador de veia cinéfila, excelente palato musical e apurado interesse por livros de qualidade (romances, poemas, doutrina, filosofia, contos, entre outros) e histórias em quadrinhos. Colaborador assíduo do Universo HQ e do Pipoca & Nanquim, é apaixonado pela cultura pop em geral, mas não sabe nada de Star Trek… Afinal, o que significa aquele gesto simbólico na forma de um “V” duplo, feito com a mão?

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  1. Bolton é foda. Ele desenha prá cacete!!! Fiquei com muita vontade de ler. Só que… – sei que serei apedrejado – acho Evil Dead um saco.

  2. Taí um artista que merece uma matéria sobre sua arte, Alexandre. O que acha?

    E ainda pude ver algumas artes dele para a primeira minissérie de 1992, de Army of Darkness, e arrisco a dizer que ficou ainda MELHOR do que essa adaptação – que já ficou foda!

  3. Alexandre, sempre tomando pedrada quando da a sua opinião!

    Mas sei lá, vc viu o primeiro filme? A cena da mulher possuida pelo 'demônio' esta tentando sair do porão, onde esta trancada é de dar medo em qualquer um. (da muito nervoso que ela tira o sorriso do rosto!)

    Ou tambem a cena em que outra mulher é estuprada pelas arvores, que é engraçada de tão mal feita que foi feita.

    Para mim, o filme é bom justamente por juntar cenas arrepiantes com cenas cômicas.
    Ps: o meu DVD, origina, é uma bela porcaria, não tem legenda e nem dublagem na hora do "Necronomicom" (que esta num gravador no filme). Este DVD deveria ser para os Fãs, e deveria ter sido feito com mais carinho.

  4. Caio,

    Assisti sim, claro. Inclusive apresentei sua continuação no festival de cinema de terror do SESC, Vertigo. Na verdade, acho que já vi a filmografia completa de Sam Haimmi e não gosto de quasa nada do que ele fez – o estilo dele não bate com meu gosto pessoal. Mas o cara merece respeito, afinal tornou-se um ícone tremendamente cultuado por um nicho, o que significa que ele pode não ter apelo para mim, mas tem para bastante gente.

    Quanto aos DVDs, é vergonhoso o que acontece neste país. Lá fora qualquer filminho de quinta ganha extras e capricho. Aqui é essa pobreza do cacete!

  5. Thiago, muito legal essa animação de 60 segundos! Resume toda a (simples) história desse clássico.