Sob o Domínio do Medo (2011) – Crítica

 

Uma boa surpresa essa refilmagem do excepcional Sob o Domínio do Medo (1971), do lendário diretor Sam Peckinpah. Mas antes de ir direto ao filme, cabe um pequeno preâmbulo. Os dois longas são baseados no livro do britânico Gordon Williams, The Siege of Trench’s Farm, que havia sido lançada apenas dois anos antes do filme original, em 1969. Porém, há diferenças substanciais entre o romance e suas adaptações.

Primeiro, um breve resumo da história: um casal bem sucedido da cidade grande, Amy e David, se muda para a cidade natal interiorana da mulher. Ele é um nerd de carteirinha e ela uma esposa com problemas de identidade. Lá chegando, os dois contratam um grupo de empreiteiros locais para fazer uma reforma no telhado do celeiro da casa, sendo que o líder dos pedreiros havia sido um antigo caso da esposa pós-adolescente. Desde o começo, o marido urbanoide tenta se enturmar com os locais, porém sofre com preconceito e bullying, já que eles o enxergam como um riquinho que se acha superior (embora não seja o caso). As tensões crescem até chegar a níveis impraticáveis. Ao mesmo tempo, ocorre uma trama paralela que parece sem importância, mas que irá resultar no apoteótico final. Niles, um homem com problemas mentais gosta de estar próximo das meninas da cidade, porém é perseguido pelo pai durão de uma delas, que não o quer perto de sua filha de jeito nenhum. Por conta de certas circunstâncias do roteiro (que se explicar estraga a experiência), Niles acaba sendo perseguido pelos locais e pelo pai da garota que quer matá-lo e é abrigado pela recém-chegada família. É quando começa o cerco à fazendo do título do livro.

Basicamente, a história de Gordon lida com as tensões referentes a preconceitos de várias formas. A despeito de todo o bullying sofrido pelo casal e do mote central que motiva o cerco ser o mesmo dos filmes, as diferenças com o romance não são poucas. O casal tem uma filha de oito anos no livro, a relação entre a protagonista feminina e seu antigo namoradinho (que nos longas resulta em uma tórrida cena de estupro) não ocorre, assim como a carnificina final, em que ninguém morre e todos os acusados acabam presos. No livro, o personagem Niles, o jovem com problemas mentais que é o pivô de todo o conflito, é bem mais perverso que nos filmes, tendo já cometido três assassinatos contra jovens meninas – o que explica melhor a ojeriza que toda a cidade tem contra ele.

Sam Peckinpah pegou a trama central do livro e inseriu uma série de elementos que a tornaram muito mais densa, aprofundou a psique dos personagens (em especial do casal central, David e Amy Summer, interpretados magistralmente por Dustin Hoffman e Susan George) e, na meia-hora final da película, criou uma das maiores sequências de violência bruta e tensão da história do cinema. Sam é um dos grandes gênios da sétima arte. Quem não conhece a sua obra, pode assistir sem pestanejar filmes como Cruz de Ferro, Meu Ódio Será Sua Herança, Os Implacáveis e Traga-me a Cabeça de Alfredo Garcia, mas Sob o Domínio do Medo é um dos seus melhores e mais conhecidos trabalhos.

Ele desenvolve calmamente cada personagem. Não dá pistas do que ocorrerá no final. Cria na figura de Amy uma personagem de natureza dúbia que, embora cometa atos questionáveis ao ponto de fazer o expectador torcer contra ela, não a torna maniqueísta, mas um ser humano passível de erros, dividido entre a apatia do marido CDF, um passado provinciano momentaneamente bloqueado pela fuga para a cidade grande e uma moral e ética distorcidas, que a fazem sentir-se superior aos seus pares por ter “vencido na vida”, despertando a fúria e inveja de alguns.

A personagem de Amy, interpretada na versão nova por Kate Bosworth (a Lois Lane do Superman de Bryan Singer), é a principal diferença nos dois longas. Se a Amy de Susan George fazia com que muitos simplesmente a rotulassem de vadia no final, a Amy de Kate é menos provocativa, seus problemas com o marido são menos acentuados, não é tão consensual na cena do estupro quanto sua predecessora e, em especial no final, toma um partido bem claro ao lado do marido, lutando contra seus antigos colegas, que estão dipostos a abusar de ambos desde o começo.

Mas isso de forma alguma atrapalha a nova versão, que se baseia bem mais no roteiro original escrito por Peckinpah, do que no livro. Sai Hoffman e entra o Cíclope, James Marsden. Ok, reconheço que a perda é grande, mas se alguém aí achou logo de cara que Marsden ia afundar o filme, pode repensar seus conceitos. Ele está tremendamente bem no papel do nerd que é um peixe fora d’água em uma cidadezinha pequena dominada por caipiras mal encarados e beberrões. Completam o elenco o vampirão Eric de True Blood, Alexander Skarsgård (como Charlie, o chefe dos empreiteiros), James Woods (no papel do treinador aposentado de futebol cuja filha é morta por Niles), Dominic Purcell (Jeremy Niles) e um grupo de bons coadjuvantes. A direção é de Rod Lurie (também autor do roteiro) que embora tenha poucos filmes no cartel, chegou a dirigir Robert Redford e Mark Rufallo em A Última Fortaleza, Gary Oldman, Jeff Bridges e um elenco de cair o queixo em A Conspiração, e Kate Beckinsale e Matt Dillon em Faces da Verdade. Ou seja, dá para ver que o menino sabe o que está fazendo.

E Lurie não decepciona. Apesar de mudar o final, seu roteiro traz boas surpresas, como quando ele justifica o que são os Straw Dogs do título original, e os paralelos entre o trabalho de David como roteirista, que está escrevendo sobre o cerco a Stalingrado, e a vida real. Quando chega na hora de mostrar sangue, ele também não poupa o expectador e manda ver na violência. O estupro, contudo, é mais comedido do que na versão de Peckinpah, e Susan George abusa mais da nudez do que Kate. Mas isso tudo são meros detalhes que não chegam a comprometer, mas são na verdade um reflexo do momento social vivido. Sob o Domínio do Medo se sustenta como entretenimento e também como análise comportamental do ser humano enquanto indivíduo e das pessoas em comunidades fechadas e pequenas, além de ser uma obra que toca em questões ainda hoje complicadas como preconceito e bairrismo, inveja, traição e barbárie. Fica a dica, portanto, de três grandes obras!

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  1. Ótima crítica, Alexandre! Não tinha nenhum interesse em ver esse remake, mas seu texto me motivou a ir atrás. Acho o filme original bem malucão, com uma montagem muita esquisita, meio truncada, e o comportamento dos personagens é totalmente imprevisível, inesperado, meio absurdo às vezes (principalmente na cena de estupro, em que nós ficamos indignados, mas não pelo motivo que esperaríamos), mas, ao final, é isso que torna o filme magnífico, e, na verdade, quase hiper-realista de um modo inesperado e bem pouco usual. Do Peckinpah, conhecia somente, além de “Sob domínio”, “Meu ódio será tua herança”. Vou atrás de suas demais indicações (valeu por fornecer os links para o imdb). Um abraço.

  2. Pô Callari, aí você me colocou uma baita pulga atrás da orelha… “Sob o domínio do medo”, de 1971, é simplesmente um dos meus filmes favoritos.

    Não sabia desse remake e, confesso, se soubesse, tendo esse elenco e diretor, passaria longe de vê-lo.

    Mas você me deixou instigado. Vou pensar se dou uma chance…

    • Lucas,

      Olha só, não vá com sede demais ao pote. O original continua sendo infinitamente melhor. Mas em uma época de refilmagens descartáveis, essa não é de se jogar fora.

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  4. gostei mto do filme…na verdade mostrou que o mocinho educadinho e intelectual era na verdade muito mais violento que o caipira,que todos achavam que ia maltratar o casal….;e as aparecencias enganam.