SEM PERDÃO – CRÍTICA

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Pois é, foi necessário um diretor dinamarquês migrar para os EUA para reensinar os norte-americanos a fazer um longa-metragem de um gênero que eles próprios criaram e consagraram: o filme policial de ação. Niels Arden Oplev não é estranho a grandes filmes; ele foi responsável pela versão sueca do best seller Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2009), além de ter dirigido os dois primeiros episódios da série de televisão Millenium, também baseada no rico universo criado por Stieg Larsson. Em seu país, além de outros trabalhos na tevê, ele foi responsável por dois excelentes filmes, Drømmen (2006) e To Verdener (2008), ambos inéditos no Brasil. Embora já tivesse dirigido alguns episódios da série Unforgetable, a estreia de Niels nos EUA nas telonas foi com este excelente Sem Perdão, de 2013. E ele não decepciona.

Pra começo de conversa, Niels escolheu o elenco certo. Retomou a parceria com Noomi Rapace, a Lisbeth Salander dos filmes e da série baseados na Trilogia Millenium produzidos na Dinamarca, e trouxe como “mocinho” o misto de brucutu/picareta/canastrão/galã Colin Farrell que, na verdade, quando é bem dirigido, consegue entregar belas performances, como em Tigerland – A Caminho da Guerra (2000) e Por um Fio (2002). O casal é a alma do filme, mas ainda há a presença dos sempre competentes Terrence Howard, Dominic Cooper e uma ponta de F. Murray Abraham.

O enredo é relativamente simples e não faz mistério do que está acontecendo (já nos primeiros minutos, o espectador é colocado a par da maior parte dos fatos), de modo que o que importa, é o desenrolar deles – e nisso o diretor Niels é brilhante. Farrell faz o papel de Victor, um mafioso calado e taciturno que é um dos capangas do chefão Alphonse (Howard), que por sua vez, responde diretamente à máfia italiana. Victor conhece sua vizinha de frente, uma mulher linda chamada Beatrice (Rapace), mas que teve o rosto arruinado por um acidente de carro causado por um motorista bêbado. Descobrimos que o inquérito do caso dela foi uma furada e que o responsável, um verdadeiro cretino, passou apenas três semanas preso.

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Victor e Beatrice, ambos vivendo uma vida vazia e carente, começam a se envolver, mas já no primeiro encontro, a moça mostra a Victor um vídeo que ela filmou dele assassinando um homem em seu apartamento. Na verdade, ela não tem interesse em entregá-lo à polícia e o objetivo de sua chantagem é que ele mate o homem que destruiu seu rosto. O que ela não sabe é que o sujeito que Victor tinha matado era um tal de Paul, um membro de sua própria gangue. Paul descobrira que Victor era, na verdade, uma vítima de um antigo esquema de Alphonse, que culminou tragicamente na morte de sua mulher e filha. Nos últimos 14 meses, Victor havia se infiltrado na gangue de Alphonse para destruí-la de dentro para fora, ou seja, o buraco onde Beatrice está se metendo é bem mais embaixo do que ela pensa.

Mas é aí que o filme começa a ficar interessante de fato, pois ele se apoia em duas tramas paralelas: a primeira, o incomum desenvolvimento da relação entre Victor e Beatrice, ambos marcados pelas chagas da vida, sedentos de vingança e desiludidos com o futuro; a segunda, o cerco que vai se fechando em volta de Victor enquanto ele planeja um esquema impressionante e intrincado para derrubar o império de Alphonse. Claro que certas concessões precisam ser feitas pelo espectador para aceitar o pleno desenrolar dos acontecimentos, mas desde quando filmes de ação precisam ser verossímeis?

O interessante é que o diretor coloca o espectador numa sinuca de bico sem que ele próprio perceba. Cada vez que Colin e Noomi aparecem juntos, o longa se torna quase um romance, e você se vê torcendo para saber o que acontecerá e dando murros no sofá cada vez que um dos personagens pisa na bola com o outro. O problema é que, conforme as investigações da gangue se aproximam de Victor, o espectador também fica ávido para saber no que aquilo tudo resultará. Sendo assim, a ansiedade é criada no desenrolar de ambas as tramas e as perguntas ficam coçando dentro da cabeça: No final das contas, os dois encontrarão o amor? A vingança valerá a pena? Será que Victor terá coragem de matar seu único amigo de verdade dentro do grupo, Darcy (Dominic Cooper), que nem fazia parte da gangue quando a tragédia com sua família aconteceu?

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E assim, Niels desenvolve um drama interessante, centrado nos personagens, repleto de bons diálogos e sacadas de roteiro, que se passa em apenas alguns poucos dias. E o mesmo tempo, cria um violento filme de vingança que oferece alguns questionamentos ao espectador sobre a validade de tudo aquilo, mas o deixa tirar suas próprias conclusões. E faz tudo isso, entregando ao menos três boas sequências de ação à moda antiga, sendo que a última, é uma aula para os atuais diretores norte-americanos que fazem tudo a toque de caixa e que, por algum motivo que me falha a compreensão, decidiram que câmera tremida e cortes vertiginosos constituem bons elementos para aventura. É irritante ver filmes de ação consagrados como a série Velozes e Furiosos, em que o espectador não consegue assistir uma única sequência que não esteja mutilada por uma dúzia de câmeras, e nem consegue ver uma cena de luta ou tiroteio num plano aberto ou sem que a imagem fique sacudindo como se um terremoto tivesse ocorrido no dia da filmagem. Mas Niels faz o oposto dessa tendência e, felizmente, recupera o estilo de filmar de caras consagrados como John McTiernam (Duro de Matar e Predador) e Richard Donner (Máquina Mortífera), em que realmente vemos a ação acontecendo. Dizer mais estragaria as boas surpresas que o filme traz.

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Um último comentário precisa ser dito sobre o casal central. Noomi Rapace ainda não alcançou o patamar que pode atingir como atriz dramática, mas ela está caminhando. Seus trabalhos na Noruega superam (e muito) a atuação em inglês. Sua Lisbeth Salander é excelente e rivaliza com a boa performance de Rooney Mara na versão norte-americana de 2011, mas Noomi coleciona principalmente  grandes trabalhos em sua língua materna, como o ousado Daisy Diamond, drama de 2007 em que faz o papel de uma aspirante a atriz que, tomada por uma depressão pós-parto, assassina o filho num ato de desespero. Noomi também foge ao estereótipo convencional da maioria das atrizes da atualidade. Em vez de seios siliconados, seu busto é pequeno e discreto. Em vez do corpo esquálido de top model, seu físico é malhado, com costas largas e braços e pernas torneados quase como os de uma competidora de fitness. Ela foi a única unanimidade do insosso Prometheus (2012) e não se importou de tirar a camisa no clipe dos Rolling Stones, Doom and Gloom – e parecia estar se divertindo horrores com aquilo.

Espontânea e nem um pouco deslumbrada com o glamour de Hollywood, ela faz um par perfeito com o bad boy irlandês Farrell, que desde que surgiu quebrou várias convenções entre os astros “certinhos” de Hollywood, mas sem fazer besteiras como o também astro Christian Bale, com quem ele contracenou em O Novo Mundo (2005) e que acabou até sendo preso numa controversa situação. Farrell sofreu com a escolha de alguns papéis desde que chamou a atenção em Tigerland, mas quem poderia imaginar que o épico Alexandre (2004) seria um desastre tão grande? Seja como for, ocasionalmente ele entrega bons desempenhos, como é o caso desta produção. Fica, portanto, a dica para um filme que passou relativamente despercebido, mas que provavelmente agradará os fãs do gênero.

 

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