Resposta à crítica: “O Frustrante Superman”

Neste últimos 5 anos como colunista aqui no Pipoca e Nanquim pude ver de tudo na sessão de “comentários”. Nas colunas, textos, artigos e notícias de nossa página recebemos pouquissímos comentários – em comparação com nosso canal do Youtube, por exemplo. Há diversos textos, tanto meus, quanto de outros colegas, que ao longos dos anos, apesar de uma visitação alta, não recebem comentário algum. É uma coisa com a qual a gente se acostuma, não dá para ficar esperando que os leitores  sempre tenham algo a dizer sobre o que acabaram de ler, ou mesmo que tenham, não dá para esperar que tenham paciência de elaborar algum tipo de comentário. Enquanto leitor, eu mesmo raras vezes deixei comentários em blogs, ou páginas de alguém que produziu um texto que acabei por ler. Nada anormal até aqui.

Apesar de ser um dado corriqueiro da atividade do escritor/colunista/crítico de sites – claro com algumas exceções -, com frequência esse “silêncio” dos leitores nos colocam em dúvida sobre os efeitos de nossos textos. Particularmente, muitas vezes, começo a sentir que estou realizando um compêndio de artigos, jogados às nuvens, para somente satisfazer certo desejo de expor e manter exposta minhas ideias – de maneira bem narcísica. Quando este “silêncio” incomoda, entendo isso como um bom sinal, pois indica que não sou regido apenas pelo narcisismo, mas também em certa busca por encontrar pessoas na outra ponta de meus textos – leitores.

Quando encontramos alguém na outra ponta, na maioria das vezes, esse alguém tem a forma bizarra de uma crítica violentamente indiferente. Nos dias atuais essa forma ganhou na internet o nome de “hater” – são comentários que buscam destruir ou neutralizar o conteúdo oferecido disparador deste “ódinho” – no meu caso, os textos. A estratégia não é atacar o argumento do artigo, ou trazer a tona inconsistências do que foi lido, mas por outro lado e na maioria das vezes atacar o autor. Com frequência não passam de 10 palavras articuladas em ofensas ou ridicularizações públicas do que foi lido. Nem preciso indicar como este tipo de forma-comentário afeta quem escreve.

Porém, algumas vezes somos surpreendidos por certos leitores e certos comentários, que considero exceção. Algumas pessoas, dedicam tempo para leitura e compreensão, assim como dedicam tempo para construir uma argumentação que fale sobre sua experiência de leitura, os pontos que concordou e os que discordou, enquanto constrói seu próprio argumento através de uma espécie de interlocução com o texto inicialmente lido. Esse tipo de comentário é muito raro, mas quando surge têm a potência de dar sentido à uma atividade que constantemente parece sofrer de sua escassez.  

Géssica da Rosa, uma leitora do Pipoca e Nanquim recentemente me enviou um comentário sobre um dos meus textos mais criticados: O Frustrante Superman. Neste artigo, argumento levantando a hipótese de a “frustração” poderia ser entendida como uma qualidade estética das narrativas do personagem Superman. Fui atacado de todos os lados: aqueles que acharam que eu havia chamado o filme Homem de Aço de “frustrante” me atacaram dizendo que eu não havia entendido o filme e que estava “falando merda”; do outro lado aqueles que acharam que o artigo elogiava o filme, me atacaram dizendo que eu era um “DCnauta” e que também estava “falando merda”.

Resolvi então postar a resposta de Géssica. Em primeiro lugar, porque acho que ela deve ser lida. De alguma maneira, dá sequencia aos meus argumentos do texto inicial, porém com várias ressalvas e críticas pertinentes, que fazem avançar esta discussão. Em segundo lugar, para reconhecer o trabalho investido por ela na resposta, na construção da argumentação e por não simplesmente sair alvejando comentários maldosos por aí!

Resposta à: O Frustrante Superman, de Diego Penha.

Olá! Li tua crítica de 2013 sobre o filme Man Of Steel no blog Pipoca e Nanquim. Até tentei postar o comentário lá, mas, talvez porque tenha ficado um tanto extenso, não consegui. Bem… achei que seria válido compartilhar por aqui então.

Concordo quando dizes que neste filme “o Superman não é o Superman”. E por isso Man Of Steel foi o filme do herói que mais me decepcionou. Mesmo na faceta Superman que, em princípio, uma história sobre ele deveria manter, ainda que não seja a única imagem que define o personagem (Clark Kent/Kal-El/Superman), esse é o aspecto que não aparece no filme. Talvez o intuito do filme tenha sido apresentar a terceira face do herói, Kal-El. Se era essa a intenção, tampouco acho que isso foi suficientemente explorado no filme (na minha percepção, a série Smallville traz isso de modo muito mais coeso), o que só piora a imagem e ideia que o filme me apresentou.

Quando dizes “É muito difícil afirmarmos que este personagem é Kal-El, antes de ser Superman ou Clark Kent, pois esta é a luta subjetiva que o próprio personagem enfrenta durante toda a sua “carreira”.”, esse é o aspecto que mais me atrai na história do Superman: a dialética ou contradição entre essas três imagens. E é disso que senti falta em Man Of Steel (fazendo-o ficar no último lugar da minha lista de filmes do herói), o que para mim descaracterizou completamente o personagem, tornando ele outra coisa à qual eu nunca esperava.

Quando assisti Superman Returns e, inevitavelmente, comparei com Superman e Superman II, me agradou muito a possibilidade da paternidade do Superman, como alguém que deixa um legado, assim como Jor-El, e pode “pendurar a capa” futuramente, ainda que seja praticamente invulnerável. Talvez pela concepção que sempre tive do personagem como um alienígena “demasiadamente humano”. Bem, só posso dizer isso com base no conhecimento que tenho do herói a partir do cinema e da televisão. Não li os quadrinhos, talvez um dia eu o faça, mas acho um tanto confusa a organização dos volumes e nem sei por onde começar (se puderes me dar alguma dica, ficaria muito agradecida). Minha história com o personagem se deu basicamente através do cinema, de brincadeiras com bonequinhos de um primo que, quando brincávamos, Superman era sempre o meu preferido, e na minha adolescência com o seriado Smallville.

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Sobre a questão da frustração, até ler teu texto eu não tinha pensado nesse aspecto como algo transversal em todo e qualquer produto relacionado ao personagem. Na verdade, resolvi ler a tua crítica porque o título me sugeriu a ideia de alguém que tenha detestado tanto Man Of Steel como eu detestei, se comparado aos que citei anteriormente (que são meus favoritos da série cinematográfica). Mas tua escrita trouxe uma visão muito mais interessante e complexa, que me fez perceber que sim, ele é um herói frustrante. Em Smallville, foram inúmeras as vezes que me senti assim, completamente sem compreender algumas coisas. Por exemplo: afinal, qual era o medo dele, o que o impedia de revelar suas habilidades ao que a série mostra como o seu grande amor juvenil, a Lana Lang? No segundo filme, a mesma sensação: por que diabos ele apaga da memória de Lois Lane o fato dela (re)conhecer as faces do herói, Superman/Clark Kent/Kal-El? Bom, aqui estou me restringindo aos aspectos afetivos das obras, é claro, mas que sempre me pareceram como elo central na relação super herói-humanidade.

Sobre a morte de Jonathan Kent: esse é outro ponto sobre o qual não tinha pensado. O clichê óbvio da morte do centro moral do personagem ou ainda a ideia de sacrifício, como tu sugeres no trecho em parênteses (“Clark sabe que pode salvá-lo, mas finalmente entende o sermão de Jonathan que é: “para ser o deus que você poder ser, terá que aprender a decepcionar os humanos”. Ou seja, terá de se privar dos benefícios de seu poder, e está fadado a viver uma mentira, tanto como Clark, quanto Supeman, quanto Kal-El. Não há lugar para um deus na terra.”) me parece explicar muito dessa frustração que tu referes como intrínseca ao personagem. O fato de não haver mais lugar para ele na cultura pop atual, como tu dizes, não estaria relacionado à questão da humanidade estar cada vez mais intolerável à frustração, como parte dos processos subjetivos?

Lanças questionamentos muito pertinentes (“O quanto este homem de aço pode aguentar? O quão humano ele pode ser? Na morte de Jonathan vemos que o homem de aço tem muito pouco de humano e muito mais de frustração.”), mas permita-me discordar da última frase: “tem muito pouco de humano e muito mais de frustração”. Explico: acho que justamente por ser tão frustrante, ele talvez seja o herói mais humano que tivemos. Aquele que tem de lidar com suas contradições e ainda assim ter força para assumir seu papel (ingrato, talvez) de salvador de uma humanidade interesseira e que só aceita sua diferença extraterrestre porque sua força a beneficia. Enfim, parabéns pelo texto!

Géssica da Rosa – 21/02/2016

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  1. Bom texto de ambos. Agora ler o seu texto sobre o filme, e fazer as devidas reflexões. Provavelmente se eu me aprofundar nos aspectos do Ka-el no aspecto televisivo e de leituras, com um pouco de bagagem simples que tenho, verei mais nuances dos altos e baixos nessas artes. Abraço