Os Miseráveis (2012) – Comentário

A França foi o berço da revolução burguesa e mais. A própria ideia de burguesia está relacionada com existência de uma subjetividade humana que não seja coletiva e sim privatizada. A subjetividade privatizada pode ser resumida selvagemente como a fronteira psicossocial entre o homem medieval e o moderno. Resumindo séculos em palavras: o homem medieval tratava-se daquele que estava identificado com o feudo e seu lugar social. A revolução francesa marca um salto na subjetivação, além de marcar saltos econômicos, políticos e sociais. Que fique claro que se estamos falando de subjetividade estamos falando de economia, política e social.

Karl Marx em “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte” (1851/52) analisa a ilusão vivida no golpe de Estado realizado por Napoleão III e todo o enredo histórico entre os anos de 1848 e 1852, sob a perspectiva materialista dialética. Há no primeiro parágrafo do primeiro capítulo deste livro uma referência à Hegel na citação: “Todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes.”, porém Marx acrescentou sua própria formulação a esta afirmação, quando disse que na primeira vez como tragédia e na segunda como farsa. Não há mais nada sobre o que comentar aqui, além de que: Les Misérables (1962) se passa entre a revolução francesa e o 18 de Brumário, ou seja, circunscrita na análise materialista, a obra de Victor Hugo se passa entre a tragédia e a farsa.

Assim sendo, como compreender a famosa cena da barricada Rua Saint-Denis? Seria um tipo de tragédia que antecederia a farsa das revoltas contra o imperador Napoleão III, ou seria a barricada uma farsa reencenando a revolução francesa em 1789? Paradoxalmente funcionaria tanto para uma farsa como para uma tragédia e é exatamente o que acontece com o filme Les Misérables (2012). Mas antes de debandarmo-nos para essa afirmação – que secciona o filme ao meio – voltemos um pouco e olhemos para filme como um todo. Enquanto musical e adaptação cinematográfica Os Miseráveis tenta apresentar-se como tragédia.

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A última cena do filme invoca reflexões interessantes sobre um discurso tácito por trás de toda a trama. Vemos a Praça da Bastilha tomada por uma multidão de revolucionários que entoam o canto “Do You Hear The People Sing?”. Fantine está de volta, Jean Valjean, Marius e todos os outros que foram mortos durante o filme e conjunto com os que permaneceram vivos ao final. Há uma espécie de celebração paralelamente a uma enorme barricada. A música inicia-se com um rufar de tambores e prossegue em constante ascensão para enfim ganhar consistência majestosa e peso simbólico quando associada à massa de pessoas presas em frente à bastilha. O retorno dos personagens póstumos dá o tom de fim do ato – tal como teatro. Porém, inevitavelmente emplaca esta cena em um registro mais fantasioso – onírico – do que “colado” à realidade do enredo. Talvez em uma apresentação do musical em uma ópera ou teatro não dê estes indícios, já que se é comum o retorno dos atores – e não dos personagens – ao final do último ato.

Está barricada onírica e festiva do final de Os Miseráveis, ameaça ao espectador à rememoração de que no fundo, por de trás de uma força de resistência política e militante há uma orgia. Isto não infere a todo ato político uma questão sexual ou hipócrita no sentido de superficial, mas indica que um movimento de massa – qualquer – está regido por forças pulsionais que enlaçam seus integrantes. Há nos movimentos de massa e na militância generalizada – daquele que abre o seu jornal de esquerda e diz: “bom que manifestações temos para hoje?” – uma sedução sobre o ideal de um lugar revolucionário no social. Temos nesses casos um narcisismo de consumo, como se a participação ou o ato político fosse um bem que se pode possuir/colecionar. Voltando a barricada, sem perder de foco a questão do ato político: Zizek e sua última conferência em São Paulo – dia 08/03/13 – contou sobre o orgulho de ser um francês sessentista, que vivenciou as barricadas de 68. Há certo fetiche por esse tipo de atuação que de certa maneira prejudica a atuação popular política em si. O problema estar em o ato político se tratar apenas da massa e não da burocracia que envolve o dia seguinte. Nos novos ativistas há apenas a busca por novos e novos encontros em massa, em que se possa andar de bicicleta pelado, pregar o veganismo pelado, marchar pelo centro da cidade pelado, enfim pequenas orgias. É na morte do General Lamarque que encontramos a razão para a ausência de um limite entre barricada e orgia, entre ficção e fantasia.

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O filme assim pode ser divido em duas partes: Ato I – Tragédia e Ato II – Farsa. No Ato I, temos a história de Jean Valjean e seu quase existencialismo em uma interessante interpretação de Hugh Jackman. Esta personagem enquanto “herói-fora-do-seu-tempo” é preso por roubar um pão e perdoado por roubar a prataria da igreja. Jean é o homem estigmatizado por seu passado, obrigado a carregar um fardo representado no documento que o atesta como ex-criminoso. Forçado a trabalhar durante a prisão, Jean foi levado ao registro marginal, pela lógica de desumanização, na qual Javert insiste – o inspetor faz questão de por diversas vezes chamar Jean por seu registro carcerário, 24061. Com a liberdade, Jean apenas recebe o direito de viver no sentido biológico (Zoé), lhe sendo negados os direitos políticos da vida de cidadão comum (Bios). Jean assim cria uma nova personalidade política por onde se permite atuar como cidadão. Sua vida entrelaça com a de Fantine, quando já está em ascensão econômica e social, tornando-se dono de uma fábrica e prefeito da cidade de Montreuil-sur-Mer.

A jovem é funcionária da fábrica e envolve-se em uma briga com outras funcionárias. Demitida, acaba por viver nos becos da cidade e na busca desesperada por dinheiro – para sustentar sua filha – acaba por prostituir-se. Em seu declínio sócio-existencial, Fantine raspa o próprio cabelo e arranca um dente por dinheiro. Anne Hathaway interpreta esta personagem com eloquência e mais do que nunca realmente mereceu suas premiações. A personagem em oposição a Jean se desfaz de seu viver biológico em troca do viver político. O clímax do filme é exatamente a parte do enredo em que Fantine declina em sua história ao som de “I Dream a Dream” – mesmo depois de Susan Boyle, Anne conseguiu fazer de sua interpretação, única. Não seria Os Miseráveis este sonho dentro do sonho que acaba por suspender a noção de fantasia para provocar que a realidade material se encena em ficção?

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A segunda parte do filme conta a história do romance de Marius e Cosette, durante a barricada universitária e a resolução da perseguição de Jean por Javert. Mas o filme desacelera. Talvez a interpretação de Eddie Redymayne e Amanda Seyfried que não convençam, porém a convicção indica que Marius e Cosette sejam farsantes, coadjuvantes no holofote. Enjolras, Gavroche, Jean, Javert e outros são personagens tão interessantes e dramáticos que  estranham o espectador por sua não relevância na segunda parte da trama, já que se tenta dramatizar o amor facilmente resolvido de Marius e Cosette. É interessante notar que a dupla Jean-Fantine durante o Ato I, o qual considera-se  uma tragédia, estava vivendo uma farsa. Jean em sua vida nova, deixando o nome Jean Valjean para trás e Fantine escondendo de seu empregador e suas colegas de trabalho a existência de uma filha fora do casamento que precisava sustentar. Já o casal Marius-Cosette no Ato II encena uma grande farsa, romanticamente vivendo a “tragicidade” de uma revolta popular e o drama dos soldados que podem não voltar para suas amadas. É a torção que o cinema nos oferece, deslocando a temática da cena em suas consequências no espectador.

Assim, o filme tentar inflamar o espírito revolucionário de seu espectador e falha, pois é ilusório. O Ato I consegue esse movimento e investe o espectador de desejo por mudanças, convencendo-nos à causa de Enjolras e Marius. Entretanto, o Ato II em um curto-circuito estético fragiliza esta inflamação, mas não pela via trágica – que seria a ideia de passar para o espectador a sensação “que droga, malditos militares sempre destruindo os sonhos libertários dos revolucionários”, impressão muito bem estetizada em Dr. Jivago, por exemplo – e sim pela via romântica, que exagera na ambição de ser trágica. A questão é que esta barricada na Rua Saint-Denis como nos é apresentada pelo filme é uma nítida repetição distorcida da idealizada revolução francesa. Há no espectador assim como nos “construtores” deste filme um desejo pulsante de se fazer um filme sobre a revolução francesa, mas o musical era sobre outro período. O maior indício deste fato talvez seja a proliferação de críticas que enalteciam o neo-liberalismo democrático, salientando no filme referências a tríade ideológica da revolução francesa – Liberdade, Fraternidade e Igualdade. Não que esta ideologia não esteja contida no filme – e está -, porém o que deve deter nossa atenção é a exatamente o que não está no filme.

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O enredo não traz menções à revolução de 1789, o musical não o traz. Aí está a confusão entre tragédia e farsa. A morte do General Lamarque marca o fim do ideal revolucionário em farsa – já que quem na verdade participou da revolução francesa fora seu Pai. Então vemos que a omissão da tragédia de 1789 tenta deslocar para a barricada dos estudantes em Saint Denis a carga trágica do original, mas sem sucesso. A farsa se sobre sai à ambição trágica, demarcando o fim amargo do herói trágico em Jean Valjean – falso herói. Paradoxalmente Javert, que no Ato I mostra-se totalmente como não-falso, em sua identificação com a labuta ética do executor da Lei, no Ato II se esconde por trás da imagem de revolucionário e acaba por se deparar com a tragédia de sua condição.

Anne Hathaway in Les Mis

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  1. Fico triste que um filme que mexe tanto com emoções, espiritualidade e transcedência seja reduzida a uma visão materialista e reducionista como esta. Os Miseráveis, seja a obra, o musical ou o filme, trata da capacidade que a Religião tem de mudar a vida das pessoas.

    Independente do credo de cada um, é isso que a história passa. Um Jean Valjean que tinha tudo pra negar a vida, virar o Batman ou algo do tipo…e dá a volta por cima pelas mãos da Caridade de um Bispo. O próprio Victor Hugo quis passar isso, e fez questão de reconhecer os trunfos e as qualidades da Igreja Católica, mesmo sendo ateu.

    Acho que reduzir uma trama tão bonita e emocionante à mera revolução e materialismo algo extremamente errado. Independente do Credo de cada um, repito, a menção à força da Religião está ali. Quer você queira, quer não.

    • Caro Tiago,

      Obrigado pelo comentário! De fato concordo com você, este texto se trata de um recorte, subjetivamente intencionada e selvagem sobre o filme (nem estou falando do musical e do livro em si). A minha ideia ao escrevê-lo de maneira alguma impõe qual verdade está sendo dita no filme, o meu jogo interpretativo está mais relacionado à minha maneira de enxergar as dinâmicas e os deslocamentos de sentido que ocorrem tangencialmente ao filme.

      Com certeza existem muitas outras ideologias e forças por de trás da intenção do autor ou diretor de os miseráveis, mas o que me chamou a atenção neste caso foi como a estética deste filme pode servir como alegoria para um estilo de pensamento, neste caso materialista dialético – em um recorte, insisto.

      Obrigado pela leitura e pela crítica.