O Último Samurai – Crítica

Sempre quando acredito que um filme vale a pena ser assistido diversas vezes me desligo dos bens econômicos e me vínculo aos bens reflexivos-materiais. Alguns destes filmes eu re-assisto inúmeras vezes. Chego ao absurdo de vê-los uma vez por ano, ou até uma vez por mês. O Último Samurai se encaixa na segunda descrição.

Por muito tempo evitei afirmar onde estava a beleza do filme. Os temas budistas e transcendentais me chamavam a atenção, juntamente com a imagem mítica que nos é mostrada, como suvenir japonês em relação a sua cultura. Mas me recusava em aceitar que era somente isso que me fascina, posto que não era. O cenário do tema já por si só é muito complexo, relações entre Japão e EUA ainda são muito complicadas. Agente esquece-se do que representa isso, mas a rivalidade entre eles quase extinguiu uma população inteira. Porém, tais reflexões ainda eram muito obvias e clichês para que eu me satisfizesse. As minhas leituras de Joseph Campbell e o filme Cartas de Iwo Jima, por exemplo, tratam destes temas e estes sim tocam nestes assuntos de maneira original. O Último Samurai de modo latente trata de um assunto muito mais profundo. Algo que fica totalmente obscuro, já que é muito primitivo na existência humana. É um filme sobre linguagem.

Segundo Jacques Lacan, é a linguagem que insere o humano na cultura, ou seja, a linguagem estrutura o humano como um ser de cultura. Mas realmente há diferenças avassaladoras entre a linguagem ocidental e a linguagem oriental. Tal diferença é tão clara que se torna ofuscante, apesar de obvia (como nos mostra os diferentes alfabetos) a diferença é translucida e quase totalmente imperceptível. Mistério esse causado exatamente pela profundidade deste tema. A linguagem é de tão difícil compreensão que se torna uma tarefa árdua compreender suas problemáticas.

O filme inicia com uma das mais complexas formas de linguagem: o sonho. Nela está o âmago do filme, “o outro que adentra meu discurso não é humano, e sim animal, porém raro e único como um tigre branco.” Nathan Algren é um veterano que perde sua humanidade durante os massacres indígenas que testemunhou durante a conquista do oeste americano. Como homem vindo do oriente americano percebe ao destruir homens que destrói, ao mesmo tempo, o discurso que os circunda. Algren é um portador da linguagem, mantém em seu caderno o máximo de informação que conseguir da cultura que desparece. Mas o que resta são apenas pistas do que já existiu, pois ele mesmo as identifica a partir de sua linguagem, que entorpece a essência do já existiu na cultura do outro. Quando volta ao EUA, Nathan perde sua plenitude. Seu discurso é acometido pelo vazio e pela repetição. O vazio é preenchido por bebidas alcoólicas e sombras do passado que o perseguem como fantasmas. A linguagem que sai de seus lábios não têm mais sentido, já que possuem qualquer sentido, a realidade se torna tão ambígua quanto suas palavras. A poesia ocidental é sarcástica e depreciativa. Não há fé nas palavras, mas a incerteza presente nelas favorece todos os lados de uma mesa redonda, onde se sentam traseiros amaciados com Whisky. Em uma mesa desta, Nathan conhece a palavra ‘Samurai’, e ela lhe é traduzida como ‘guerreiro’. O discurso de uma cultura é intraduzível para outra, muito ou tudo se perde (quando em meio aos Samurais, Algren se apropria do significado do termo como ‘servir’).

Algren parte para alto-mar, retorna ao grande significante da humanidade: navega para se encontrar no desconhecido, no outro lado do mundo. Se trocamos a palavra ‘mar’ por ‘linguagem’ (ou Inconsciente)  trazemos um interessante significante para a fala da personagem durante sua viagem: “Existe algum conforto no vazio do mar/linguagem/inconsciente. Nenhum passado, nenhum futuro. E então ao mesmo tempo, estou confrontado pela difícil verdade das presentes circunstâncias. Aparentemente, esse é o único trabalho no qual eu me adapto. Estou cercado pelas ironias da minha vida.” – o trabalho de ser um sujeito cultural, de se manter no campo simbólico. Tarefa que para o personagem tornou-se impossível nos EUA, pois este Outro não fornecia mais sentido ao seu discurso e assim sua essência humana ficou sem sentido.

Simon Grahan recepciona Nathan no Japão. Como o próprio intitula ambos “amigos linguistas”, senhores portadores discurso. Grahan conta de início a contradição que pode se encontrar no Oriente. Onde era um lugar muito silencioso agora é barulhento, outro tipo de linguagem impera. O antigo e o novo estão em guerra pela alma (linguagem/discurso) do Japão. Simon está no mesmo limbo de Algren, entende-se como veículo da linguagem, porém vazio de sentido: “Eu tinha uma infeliz tendência em falar a verdade em um país onde ninguém jamais fala o que pensa. Então agora, eu posso traduzir exatamente as mentiras das outras pessoas.” A sua interpretação do discurso japonês é ludibriada pelo abismo ilimitado que existe entre a cultura oriental e ocidental.

Ao conhecer o Imperador, Nathan se depara e descobre a semântica japonesa. A fala não significa nada, pois significa tudo, a palavra é lei e não pode ser retirada, há honra. A linguagem corporal diz absolutamente tudo sobre suas intenções. A fala e as palavras do Imperador são sagradas, não precisam ser pronunciadas em vão. Nathan recebe a missão de conquistar um país, sem que o sentido de seu discurso seja sentido e registrado nos homens que ele terá que treinar. Nosso herói, ainda não encontrou seu significante.

Quando cai nas mãos de seus inimigos samurais, Algren é deslocado para um lugar de silêncio. Lugar do não-som que é discurso. O americano se depara com o reflexo do seu vazio, a cultura samurai é constituída por uma linguagem que dá espaço para o vazio. O não pensar, não compreender, não se preocupar, não razão pode existir e Nathan sente-se confortado por isso. Até a cronologia se perde, “dia desconhecido, mês desconhecido”, Kairos é acolhido e a beleza pode ser ampliada para tudo que existe. Não se procura mais a certeza e sim o ilimitado, pois nele que está à beleza do vazio. Aprende a cultura samurai no silêncio.

Katsumoto é o novo par de Algren, e entre eles há apenas linguagem. O significante é hipervalorizado pelo Samurai, enquanto o americano hipervaloriza o significado. E nestas atemporais conversas está a tom e o sabor do filme. Katsumoto que re-estabelece a plenitude no discurso de Algren. Realizando o trabalho de um analista, devolve para Nathan a possibilidade de simbolizar suas estruturas. O capitão americano re-nomeia o mundo (arroz, fogo), aprende a língua de novo, aprende a humanidade de novo. Volta a constituir-se como homem detentor da fala e do nome. O seu significante agora é o silêncio e é assim que Algren conversa agora. Observamos isso na forte cena em que o capitão faz as malas enquanto é provocado por Custer.

Quando o discurso do imperador se omite, Algren sente-se apto a defender a cultura da qual ele pertence agora. Luta por ela e morre por ela. Quando Katsumoto morre, quem morre é o Outro/Algren que existia apenas na relação entre eles. Algren sobrevive como Katsumoto e nada do que sobrou é do antigo ocidental. Assim Nathan não pode falar da morte de Katsumoto para o imperador, pois quem morre é o ocidente e quem vive é o Samurai.

Imperador: “Me diga como ele morreu.”

Algren : “Vou lhe dizer como ele viveu.”

E o imperador tem voz outra vez.

O filme é recheado de figuras de linguagem maravilhosa, poesia sublime, imagens inesquecíveis, musicas transcendentais, metáforas imortais. É um filme sobre a linguagem, não resta dúvida. Mas o que ele tem de mais impressionante é como nos comove pelo silêncio. É no vazio que está a imensidão do filme. No homem que aceita o vazio como constitutivo de sua linguagem, por consequência de sua cultura e por fim de si mesmo.

  1. Tudo lindo, tudo maravilhoso…não fosse o personagem do Tom Cruise, completamente equivocado e o final piegas.

    • Marshall!!

      Sabe que muitas vezes me irrito com as atuações do Tom Cruise. Alias peguei realmente aversão dele depois de ver aquela entrevista que ele deu na Oprah, que ele sobe no sofá.

      Mas quando o começo a comparar com outros “grandes” atores contemporaneos, tipo Nicholas Cage, até que vejo algum valor nele.

      Já o fim piegas… sou muito à favor.. desde que seja bem feito!!!

      De qualquer maneira, valeu pelo comentário!!!

      abraço!

  2. O filme é mto bom mesmo, sempre assisto quando posso, a única parte que não gosto é como retrataram as habilidades marciais do Nathan, no primeiro combate ele acaba com alguns samurais, depois quando é preso, ele não sabe usar mais nada das técnicas de sabre de cavalria que aprendeu no exército..pode ser poético.. mas parece que o “ocidental” não sabia artes marciais..

    • Olá Bruno!!

      Eu sempre pensei que mais do que “desaprender” as técnicas de sabre… o Algren na realidade perde a vontade de viver ou lutar. Por isso identifico que a questão da linguagem é tão importante, somente pelo viés da linguagem é que impomos sentido as coisas. Assim, a personagem encontra um novo sentido em lutar, recomeçando do zero.

      Mas valeu pelo comentário!

      Se puder comente de novo!!

      Abraço!

  3. Eu gostei muito desse filme. Adoro a cultura japonesa e ver um ocidental imerso nessa cultura, tendo que aprender a viver num outro mundo é estranho e curioso.
    nota: as montanhas japonesas são belíssimas!

    • Concordo com você Esley!!!!

      cara se você curte estes temas de “troca de culturas” assista: Dança com Lobos e Inimigo Meu…. para mim junto com o Ultimo samurai são meus preferidos!!

      Abraço!

  4. Muito boa a resenha do filme, que é indecente de bom.
    Mas ler “Agente esquece-se”, no segundo parágrafo foi de doer e cortar o coração.

  5. Parabéns pela resenha, me identifiquei muito quando você disse sobre os filmes que você assiste anualmente, “O Ultimo Samurai” está na minha lista também. Uma indicação para resenha, “A fonte da vida”, um filme bastante onírico e transcendental.

  6. Excelente Diego! Sou muito fã de psicanálise tbm e gostei muito já de cara quando vc citou Lacan! hahaha, me fez continuar lendo! Realmente sempre vejo esse filme e ele é relamente sobre a linguagem!!! legal mesmo! abração

    • Oba Vicente!!!!

      Ótimo saber que temos leitores amistosos à psicanálise no site também!

      Volte mais!!! Sempre que tenho insigths, dou algumas pitadinhas de Lacan ou Freud nos comentários!!

      Abraço!!!