O Melhor Jogo da História – Crítica

Um filme cuja temática é esportiva possui o viés do condicionamento. Embora os elementos essenciais possam desvincular – ou apenas desviar – essa teoria, a utilização de competições esportivas como meio narrativo protagonista de uma história dramática tendem a concentrar-se num falso conforto clichê. Via de regra, essa utilização acaba funcionando por vias tortas. Este cenário se confirma, dentre outros fatores, à comparação imediata ao drama efusivamente essencial na temática esportiva que, de modo natural, põe na linha de frente sua alegria e seu contágio.

O exagero proposto no título de O Melhor Jogo da História(The Greatest Game Ever Played, 2005) faz transbordar a sensação de emoção. A direção proposta por Bill Paxton tende a uma velha narrativa, com inúmeras características que amarram o longa numa fórmula pronta de Hollywood, e muito disso se explica simplesmente pelo fato de ser produzido pela Disney. Diante disso, espera-se um trabalho extremamente acessível, com uma temática familiar e algumas lições de moral pautadas na superação de seus personagens, fatores que vêm a se confirmar futuramente. Contudo, apesar de apresentar-se tendencioso, surpreende em comoção e demonstra-se uma produção excelente, onde a ambientação ganha destaque.

O Melhor Jogo da História narra a superação de um jovem aspirante ao golf, e é inspirado em fatos reais. Francis Ouimet (em fase jovem interpretado por Matthew Knight), é de origem pobre, e sonha no esporte a sua maior felicidade. Repreendido pelo pai que julga que o filho deveria concentrar-se somente nos estudos principalmente pela elitização deste esporte, encontra sua primeira grande barreira ainda dentro de casa. Ouimet segue sua caminhada com tropeços e vitórias, mas numa linha constante de desenvolvimento de sua história. Minuto a minuto, o que se observa é um grande conforto narrativo disposto claramente a desdobrar-se num final nada inovador. Embora forçado a concluir sua história como o fato verídico ocorrido no início dos anos 1900, o filme empreende nos elementos construtivos da história a sua tentativa de dramatização à jornada do jovem garoto.

A trilha sonora serve como fator revelador desse pensamento, uma vez que utilizada de modo a possibilitar uma maior comoção ao espectador, é clássica ao extremo e não envergonha-se de sua repetida aparição, demonstrando sua clara intenção. Assim, o trabalho não se inibe em cair em mesmices e clichês, e parece dedicar-se somente a tentativa de tornar a história comovente. No entanto, cabe ao pai de Ouimet, Arthur Ouimet (Elias Koteas), dedicar-se a elevar o nível dramático da trama. Diante disso, finalizam-se todos os pontos possíveis para a construção de uma “épica” jornada esportiva que leva como carro-chefe narrativo a superação e a vontade de vencer, temática demasiadamente forçada e capaz de incomodar grande parte da plateia. Com todos os elementos citados, O Melhor Jogo da História releva-se praticamente um filme de autoajuda.

Ainda no que cabe à trama em si, o jovem rapaz ingressa no U.S. Open e dedica-se a enfrentar os dois maiores nomes do esporte na atualidade. No decorrer de sua trajetória, ingressa em sua vida um menino gordinho, de feição engraçada, com trejeitos desengonçados que possui duas funcionalidades específicas: garantir algumas risadas do público e se tornar o eterno e maior amigo do talentoso golfista.

Com tantos elementos incapazes de dar ao diretor maior liberdade narrativa, O Maior Jogo da História resume-se num trabalho limitadamente bem desenvolvido, onde as poucas possibilidades de sucesso no filme acabaram bem finalizadas. Este fator, no entanto, não é páreo para engrandecer a obra, que se limita nas pré-disposições já mencionadas. Certo de que seu público é existente, o longa direciona-se com muito mais desenvoltura a estes espectadores, mas é profundamente incapaz de cativar quem espera uma obra com algum elemento inovador.

Juntar elementos essenciais à um drama não necessariamente condiz com o atingimento automático desse objetivo. Fato é que todas as características visíveis neste filme podem tomar efeito contrário para algumas pessoas, a perceberem-se induzidas à um drama forçado, e principalmente com uma história clichê. Inspirado em um fato real, um garoto pobre, um sonho quase utópico, um pai incompreensível, grandes adversários e uma imensurável vontade de vencer. Com esse objetivo tão específico, não é irônico mencionar que esqueceram-se somente de finalizá-lo com “We Are The Champions”.

Minha avaliação: 7/10
Definindo-o em uma palavra: Acomodado.

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Marco Aurélio é cinéfilo para si e nerd para os outros. Caiu no mundo do cinema apenas desde 2005 e não parou mais, tornando-se um colecionador assíduo. Adora um horror, do melhor ao pior, e é grande apreciador de filmes independentes e B, com a liberdade de expressão que ele mesmo acha que tem. É editor do blog Cinemarco Cineclube.


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