O Gabinete do Dr. Caligari – O Primeiro Grande Filme de Terror da História

Recentemente fui convidado para apresentar e mediar o Festival de Filmes de Terror Vertigo, do SESC Araraquara. A película que abria a mostra era O Gabinete do Dr. Caligari – uma escolha para lá de acertada.

O filme data de 1920 e foi dirigido pelo alemão Robert Wiene, tendo inaugurado no cinema o expressionismo alemão, um movimento bastante forte durante década de 20 do século XX (e se estendeu por todas as linguagens artísticas daquele país) e que tem por característica fundamental a expressão dos sentimentos e emoções do autor, sem necessariamente um vínculo com o real e o verossímil. Características periféricas do movimento incluem um retorno ao gótico e o soturno, e a crítica ao racionalismo.

O Gabinete do Dr. Caligari é um filme poderoso, que faz com que você feche os olhos para seus defeitos e se mesmerize com as qualidades que ele impõe. Mesmo tendo quase um século de existência, ainda é capaz de impressionar os expectadores, e deixa uma sensação ao término da exibição de que você acabou de assistir a um lampejo de genialidade, cada vez mais raro no cinema atual.

Vamos começar dando uma breve passada história: o doutor Caligari do título é um médico que viaja cidade após cidade procurando feiras para exibir um tipo de aberração, o sonâmbulo Cesare (em uma interpretação marcante de Conrad Veidt) que é descrito como um homem que está dormindo há 23 anos. Durante a primeira noite de exibição em uma cidadezinha da fronteira, Caligari desperta Cesare, que prevê inesperadamente que um dos espectadores irá morrer na próxima noite. Quando a previsão se confirma, Caligari e Cesare tornam-se os principais suspeitos.

É impressionante, contudo, a quantidade de informação adicionou que este filme (mudo) adiciona à trama principal, principalmente se levarmos em consideração sua curta duração – a versão mais conhecida tem apenas 51 minutos, apesar de existir também uma versão francesa bastante famosa com 78. O roteiro é, portanto, uma das grandes armas desta produção, imprimindo inclusive reviravoltas na trama, flashbacks e um final absolutamente sensacional que provavelmente é um dos primeiros finais surpreendentes da história do cinema, virando o entendimento do espectador de cabeça para baixo e escancarando a fonte de onde cineastas como M. Night Shyamalan beberam.

As atuações também são impecáveis. Há algo de muito reconfortante em assistir a um filme mudo – e eu não consigo dizer o que é. Talvez seja o fato de que as pessoas, em geral, falam demais, ou então a recompensadora experiência de ver a trilha sonora em um filme mudo assumir papéis que vão além de criar impacto e clima em um filme, e atuar sobremaneira como se fosse um personagem invisível. Filmes como O Gabinete do Dr. Caligari vem de uma época em que um pianista tocava ao vivo nos cinemas durante a projeção, muitas vezes acompanhado de cordas e, em geral improvisando de acordo com o sentimento que o filme lhe passava. Dá para imaginar que experiência era essa de ir ao cinema naquela época – escutando música diretamente evocada pelos sentimentos mais genuínos de um artista sendo impressionado pela película em tempo real? Bem, a despeito das apresentações ao vivo, há uma partitura escrita para Caligari – e ela foi gravada anos depois e incluída nas cópias do filme, tendo sido inclusive remasterizada em DVDs recentes.

A trilha, sinistra como as imagens, é apreciada com todo seu brilhantismo quando não há uma única fala e é ela quem conduz a atenção do expectador, ora sendo seu cúmplice, ora ludibriando suas emoções de forma marota.

Tornando a falar sobre os atores, que recursos geniais eles encontravam para se expressar, quando não dispunham da fala. Para quem pensa que os atores de filmes mudos precisavam ser necessariamente caricatos para poderem se comunicar com o público, é hora de repensar seus conceitos. A nossa ideia estereotipada de atuação caricata hoje em nada se assemelha com a genialidade de vários dos atores do cinema mudo (inclusive o maior de todos, Charlie Chaplin).

Mas é no seu visual, na entorpecedora fotografia, que Caligari encontra seus maiores méritos. Mesmo o mais distraído dos expectadores irá reparar no cubismo dos cenários, uma possível influência direta das obras de Pablo Picasso – e antes que alguém levante a mão e questione sobre o baixo orçamento do filme, eu já respondo dizendo: Sim, é verdade, Robert Wiene tinha muito pouco dinheiro para a produção. Mas ele poderia ter buscado infinitas soluções para seus problemas. A opção dele por aquele visual específico, aquela determinada representação da realidade, não foi aleatória. O resultado é uma aula de originalidade, estética e criatividade, que merece ser vista e revista.

Robert Wiene morreu aos 65, em 1938, tendo dirigido 49 filmes, porém nenhum outro se aproximou do brilhantismo de O Gabinete do Dr. Caligari. Trata-se de uma obra imortal do cinema, que influenciou gerações durante décadas, e ainda hoje permanece contemporânea. Um filme que merece ser visto e revisto e descoberto pelas novas gerações.

Título Original: Kabinett des Dr. Caligari

Gênero: Terror

País: Alemanha

Ano de produção: 1919

Direção: Robert Wiene

Elenco:

Werner Krauß – Dr. Caligare
Conrad Veidt – Cesare
Friedrich Feher – Francis
Lil Dagover – Jane
Hans H.Twardowski – Alan
Rudolf Lettinger – Dr. Olson
Rudolf Klein-Rogge – Criminoso

Deixe uma resposta

  1. Adoro esse filme! Com certeza uma obra de referência, obrigatório assistir.

    E como eu sempre gosto de citar Kingdom Come… o Cesare aparece lá.

  2. Boa escolha, rapaziada! É um dos meus filmes prediletos, desconfio que sem aqueles cenários distorcidos muitas animações de tv desse e do século passado não teriam em que se inspirar…

  3. Verdade Merka, e o seria o coitado do Tim Burton então? o cara bebe total na fonte Robert Wiene.

  4. Bem, terei que assistir esse filme em breve. Sempre ouvi falar sobre, mas essa primeira crítica que leio.

    Provavelmente entrará no meu hall, junto com Nosferato.

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