O Cavaleiro das Trevas: Parte 1 – Crítica

Pode-se dizer que nove a cada dez fãs de quadrinhos adoram ver seu personagem transposto para outras mídias, seja cinema, animações, games, romances ou qualquer outra linguagem. Os motivos para essa paixão variam desde o mais puro fetiche, até o desejo do fã de ver seu personagem crescer e se expandir pelo mundo, ganhando cada vez mais notoriedade e conquistando uma base de admiradores que não seria possível caso ele estivesse restrito aos quadrinhos.

Dito isso, cabe lembrar que HQs diferem das demais mídias por terem qualidades intrínsecas ao gênero, as quais não podem ser reproduzidas em nenhum outro lugar. Assim, sempre que uma adaptação é bem sucedida, ela promove as alterações necessárias para que o personagem funcione fora dos quadrinhos. Muitas vezes, essas alterações são berrantes, como o corte de uniformes dos X-Men nos longas de Singer ou os lançadores de teia orgânicos do Aranha na trilogia de Raimi; noutras, são mais sutis como as liberdades que Chris Nolan tomou na origem de Batman. é importante lembrar que existe ritmo em todas as linguagens artísticas – e esse ritmo é diferente para cada uma. Compreender isso é vital para criar bons produtos derivados. Logo, para que funcionem, essas alterações precisam ser feitas. Fora isso, vale lembrar que elas dependem de uma visão correta dos envolvidos, em especial o diretor. Não adianta simplesmente promover uma alteração pelo bem do roteiro, metragem, coesão ou do que quer que seja; do contrário, atrocidades como Quarteto Fantástico e Lanterna Verde podem acontecer.

O que nos leva a um ponto em questão: filmar uma história praticamente quadro a quadro pode não ser a melhor solução para uma animação. É o que fica claro quando se assiste a O Cavaleiro das Trevas Parte 1, desenho animado que se presta a adaptar a maior história do Homem-Morcego de todos os tempos. A animação é ruim? Não, longe disso! Ela é divertidíssima. Então, qual o problema?

Digamos que o problema é o mesmo que Alan Moore nos alertava anos atrás , quando afirmava que Watchmen não podia ser filmado. Ainda que o filme resultante fosse bom, ele deixaria muuuuuito a desejar ao original e, se não for para apresentar nada de novo, se não for para contribuir de alguma forma e, pior, se o resultado for denegrir a obra original, então para que fazê-lo? Apenas pelo dinheiro? Ora, há muitas formas de ganhar dinheiro, certo? Então um filme deveria trazer algo mais a uma mitologia já estabelecida, ele deveria jogar no mesmo time e ser um contribuidor, como foi o caso dos filmes de Nolan, o Superman de Donner, os X-Men de Synger ou o Homem de Ferro de Favreau. Em todos esses casos, há uma enorme contribuição para os personagens como um todo, e não uma mera transposição para as telas, visando cifrões. Que, infelizmente, é exatamente o que o expectador irá encontrar ao assistir este desenho. Não há nada de novo, e o que era bom, ficou mediano. Só isso.

Desapontado? Pois é, eu também fiquei.

Vejam bem, tudo aquilo que tornou o quadrinho icônico não está presente aqui; a narrativa gráfica inovadora não pode ser reproduzida, assim como a arte de Frank e Klaus, apesar da tentativa de emulá-la. O clima de Guerra Fria e paranoia que existia na época de lançamento da HQ não faz sentido para as gerações mais novas, e passa despercebido na animação. Na verdade, um monte de coisa fica desencontrado. A passagem do tempo não é detalhada adequadamente; tudo parece acontecer rápido demais. E, apesar de tudo ser seguido praticamente cena a cena em relação ao original, quadro a quadro, o tempo todo fica uma sensação de que algo está faltando (a ação dos noticiários conduzindo a história não fica tão legal na tevê quanto nos quadrinhos).

Há outros problemas também, sendo o principal, a opção que os produtores fizeram de eliminar a narração do Batman. Assim, frases icônicas, as melhores de todo o quadrinho, ficaram de fora. Eles (os produtores) poderiam ter dado um clima noir ao desenho, incluindo uma bela narração em off, estilo Blade Runner, mas não seguiram esse caminho. Resultado: a psique do Batman  não pode ser tão bem explorada quanto na HQ; a dualidade dele com o Morcego não fica tão clara (na HQ ele é praticamente esquizofrênico). Outras partes ficam bem pobres também; na luta contra o líder mutante, Batman “explica” os golpes para ele, como o corte com a faca da mão na testa (que faz sangrar) e o ataque ao deltoide (que paralisa o músculo). O efeito fica meio bobo em tela. A segunda luta, a propósito, mostra o Homem-Morcego aplicando golpes de jiu-jitsu, quebrando braço e joelho do oponente. Bem legal.

Outra opção incompreensível da animação foi literalmente cortar as cenas mais icônicas. Por exemplo, quando Batman surge pela primeira vez na HQ, dando um salto no vazio e mencionando que a chuva batiza seu peito, esse momento não existe na animação. Sim, ele aparece pulando, mas não aquela cena! Aliás, todas as cenas de página inteira, que são as mais marcantes, foram cortadas. Por exemplo, quando Robin abraça Bruce Wayne todo ferido na batcaverna ou quando Batman segura o corpo do general enrolado na bandeira americana. Fiquei esperando essas imagens e, quando elas não vieram…

O desenho mostra mais sangue que os filmes e a trilha sonora faz uma ligeira ponte com a trilogia de Nolan (uma tentativa da Warner de mostrar unidade?), mas era preciso mais. Era preciso algo que arrebetasse a boca do balão, que não foi o caso. O Cavaleiro das Trevas – Parte 1 é uma diversão, não vai nada além disso. É um produto fraco para uma HQ que é considerado um dos marcos da produção mundial.

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  1. A princípio não era complacente com adaptações desse modo, mas é muito ingenuidade acreditar nisto, principalmente se tratando de um personagem em alta e com os direitos pertencentes a Warner, então viva com isso, e exija algo no mínimo respeitável. Até porque o próprio quadrinho também é algo comercial, logo esse que foi feito pra tirar o batman da sarjeta nos anos 80. Não quero tirar o valor artístico do quadrinho, isso é uma heresia . O problema de fazer crítica analisando tudo em comparação com o produto original é esse. Sabe porque a animação não é tão original e impactante? PORQUE A PROPOSTA ORIGINAL JÁ EXISTE, HÁ 26 ANOS! Achei uma animação muito boa e muito respeitosa ao material original. Propõe coisas novas, como a falta de medo de colocar violência, a forma de filmagem contribuindo na narrativa sem deixar algo moroso, por conta do dinamismo e certos movimentos de câmera na hora da ação (nas lutas corpo a corpo, por exemplo). A narração é eliminada porque cinema é diferente, existe algo chamado linguagem cinematográfica. Isso é evidente na cena em que ele aparece pela primeira vez , perseguindo alguns ladrões de bancos. Ele não precisa de dizer que necessita subir a batcorda com duas mãos, pois a cenas esta em MOVIMENTO, a dificuldade pode ser mostrada com este artifício. Isso é feito pra o filme não ficar chato, como nas milhares de câmeras lentas de Watchmen (o filme é claro). A DC animações ta de parabéns pela qualidade e pela coragem de fazer algo assim, principalmente em duas partes. A formula é essa, pegou “Ano Um” e aprimorou algo que merecia de mais cuidado.

    • Arthur, leia a crítica de novo. Eu fui o primeiro a dizer que as linguagens são diferentes. Também não disse que era uma adaptação ruim, apenas uma revisitada fraca para um material que é considerado o melhor do Morcego. Sobre a narração, sinto muito, mas discordo 100% de você. Claro que ele não precisava dizer que estava subindo as cordas com as duas mãos, pô. Mas que tal “A chuva é um batismo em meu peito. Eu nasci outra vez”, ou então “A dor que já dura 3 dias arranha minhas costas. Eu espano o pó das articulações e subo”. Cara, na boa, teria ficado sensacional.
      Na versão do Blade Runner, todo mundo reclamava da narração em off por que diziam ser redundantes. Quando o diretor lançou o filme sem, ficou uma bosta. Foi essa a comparação que fiz. O Batman mal tem falas na animação, então como senti empatia por ele? Em que ponto ele estabelece um elo com o telespectador? Respeito sua opinião, mas a acho equivocada e continuo me atendo à interpretação que fiz.

      • Como eu tinha dito, não sou originalmente conivente com esse tipo de adaptação, acho que sempre vai ser difícil, quase impossível trazer uma proposta quase que literal em movimento. Até porque o material original nunca vai ser superado por um derivado. Mas dentro do que me foi oferecido, me agradou muito. Fiquei surpreso também com o cuidado com a versão brasileira que possui a dublagem de Marcio Seixas, o dublador da grande Série Animada, além da volta do dublador do Alfred e do Gordon. Saudosismo puro pra mim. Achava que essa animação deixaria a desejar e me surpreendeu, até porque não tinha gostando tanto de “Ano Um”. Mas acredito que a tua expectativa fosse diferente da minha. Não concordo com tudo o que tu disse, mas de qualquer forma, obrigado por ter respondido, não são todos os sites que fazem isso. Abraço.

        • Que é isso Arthur. Nós sempre respondemos a todo mundo. Não vi a versão dublada, mas outra coisa que me incomodou na original, foi a voz do Líder Mutante… Sério que você não curtiu Ano Um? Eu achei melhor do que essa. Um abraço.

  2. Eu ainda não assisti, mas confessor que quando adquiri o filme, era justamente o que eu esperava dele, uma diversão mediana. Mas fico triste pelo corte de certas cenas fantásticas citadas. O Pipoca e Nanquim podia (não sei se vocês já fizeram isso algum dia) fazer uma lista para nos indicar algumas boas animações relacionadas com quadrinhos.

    • Rodrigo19 de novembro de 2010Maravilha! Depois de 15 anos, voaterli a um ver show do Ozzy!!! Melhor que isso sf3 se o Black Sabbath original se reunir novamente e decidir passar por aqui.

  3. Estou com a animação aqui e anida não tive a oportunidade de assisti-lo, depois de ler a crítica fiquei um pouco desanimado, pena que os produtores não quiseram inovar e o deixaram um filme mais burocrático… Será que tem aquelas idéias fascistas do Frank Miller?

  4. Alexandre, adoro o trabalho de crítica de vocês. Eu não vejo desenho há muito tempo, mas vou abrir um tempinho pra ver o morcegão. É o único herói que eu gosto de verdade. Aliás, tem como eu pegar umas dicas com você por e-mail depois? abraços.

    • Cabral,

      Não sou especialista em desenho. Na verdade, de toda essa última leva, Batman Ano Um foi o único que vi (e achei bem superior ao Cavaleiro das Trevas). Mas o Bruno é um grande fã de animações e poderia dar várias dicas. No mais, obrigado pelos elogios.

      • Obrigado, Alexandre! Vou pedir as dicas pro Bruno também.

        Abraços e força pra mais trabalho!

  5. Ótimo post, Callari. Parabéns.

    Ainda não vi a animação, porém seus comentários foram um balde de água fria, já que estava com grandes expectativas por esta adaptação.
    Esperava algo como aquela sequência curta presente em um episódio do clássico desenho do morcegão, em que um trecho de Cavaleiro das Trevas é adaptado com grande fidelidade (inclusive no traço e nas cores).

    Pra quem quiser conferir: http://www.youtube.com/watch?v=qRpY37QNlx8

  6. Cara achei a anmação muito boa..éclaro que não podemos comparar por ser midias diferentes…concorco com o alexandre na falta de narração por parte do batman…mas assim pensando que os produtores tentaram inovar eu dou crédito a eles…

    O que mais me chamou atenção na animação foram o audio tanto dublado quanto original e os efietos sonoros…na parte da luta contra o lider mutante as porradas e o som dos ossos quebrando me lembraram muito a luta do batman contra o bane(1º) as porradas secas comendo solta..achei divertidissimo…

    Mesmo tendo ido assistir com o pe atras achei a animação muito boa e naum vejo a hora da segunda parte!!Ver o escoteiro ser surrado não vai ter preço!!

    Ah ia esquecendo algo que me desagradou que o alexandre citou foi a passagem de tempo e em alguns momentos a animação parecer ser corrida..mais da para relevar por ser o batman e ser cavaleiro das trevas!!

  7. achei bem legal a crítica de vcs.

    mas o q mais achei foi que faltou “frank miller” nessa anima, tanto nos diálogos como na narrativa gráfica , que mesmo reproduzindo as cenas com certa fidelidade elas perderam muito do impacto na animação (na hq o batman parece um demônio, um lobo sedento por sangue….na animação ele é mais paradão, não de estar velho mas de ser bobo…….faltou aquele “peso”, aquele clima noir das hqs do frank miller…….

    enfim me lembrou mais um episódio longo daquele desenho do batman da década de 90 q um trabalho do que o cavaleiro das trevas mesmo……. acho que um erro da warner é sempre querer seguir aquele estilinho limpo e quadrado do bruce timm em todas as animas…… os caras deviam desapegar dessa receitinha dos anos 90 e inovar em alguma coisa……

  8. Eu acho que a animação funciona bastante. Acabei de assistir e gostei muito, fiquei até arrepiado em alguns momentos! Fazia um tempinho que eu não via uma animação tão climática. É do mesmo nível que Liga da Justiça – Ponto de Ignição.