Mad Max – Estrada da Fúria | Crítica

Por Jefferson José.

Mad Max – Estrada da Fúria é dessas obras que marcam época. 2015 no cinema será lembrado como o ano que George Miller ignorou os conceitos de Hollywood e nos brindou com um filme subversivo, que ao mesmo tempo homenageia gêneros. Sendo que não é continuação, reboot e nem refilmagem. A experiência de um visionário diretor que soube polir o roteiro e não poluir as imagens e deixar a intensa trilha preencher nossos ouvidos. A excelência visual e delirante.

O maluco filmou a menos de 24 quadros por segundo – risos por tamanha ousadia – enquanto hoje em dia os filmes de ponta estão duplicando os ‘frame rate’. Ele nos ressalta que o melhor modo de contar uma história é ‘como ela é narrada’, o sábio Miller uniu imagens em cenários reais como se faziam antigamente com um retoque do que o ‘CGI’ pode oferecer de melhor. Nada de ambientações acinzentadas desses filmes distópicos, em Estrada da Fúria as cores são ressaltadas, o cromo é até glorificado. Miller dá aula ao criar um filme inteiro com perseguições e, magistralmente filma com planos longos e nos dá uma visão clara da geografia. Isso é ter o domínio da narrativa!

Tudo tem significados. Ele emula os faroestes com personagens carregados com metáforas, como o protagonista solitário Max Rockatansky, que ao melhor estilo Clint Eastwood omite seu nome e é de poucas palavras e viaja errante pelo deserto, ou como a rebelde guerreira (mãe) que tem a esperança de salvar o comboio de mulheres para sua própria redenção. Há o vilão imponente como um deus grego que cria sua própria prole de arianos e faz jorrar água e detém a nova religião pós-apocalíptica que venera carros e anseiam por Valhala, em contraponto ao arco do jovem seguidor que ao encontro da morte descobre seu lado nobre. Um Max atemporal que lida com as circunstâncias conforme as circunstâncias lhe são jogadas, de olhos profundos de um passado obscuro que se voltam para um futuro incerto. Esse é Max, que une conceitos do passado, presente e futuro. Talvez o único equívoco do filme seja os constantes flashbacks do personagem título, pois apenas um bastaria para revelar a trágica história de sua família.

George Miller não inventou a roda, ele guiou.

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Que o público não se vanglorie dos recentes blockbusters desconexos, que Estrada da Fúria seja um exemplo de produção por ser um filme autoral de grande orçamento e reforce que dá para criar ação com arte e, é só olhar no retrovisor que veremos vários exemplos no passado. Podemos observar na narrativa que quando é necessário um respiro nas perseguições frenéticas de Mad Max a atenção se volta para dentro dos veículos, onde os diálogos pontuais são bem escritos e desenvolvem os relacionamentos da trama enquanto pelo para-brisas vemos o caos. Não precisamos de visão externa o tempo todo pra sentir que coisas grandes estão acontecendo, que o rastro de poeira é suficiente como velocímetro.

Apreciaremos cada detalhe desse filme repetidamente, desde as pequenas coisas como a careca da Charlize Theron e a graxa no rosto, os carros caricatos e agressivos, o rufar dos tambores rumo à batalha, o guitarrista flamejante, os gestos simples e objetivos, a luta que não vemos e causa eminente espanto, as frases de efeito, o sangue, a poeira, a gasolina, o fogo… e a sagacidade de um cineasta de 70 anos!

Sim, Mad Max é como pimenta-malagueta ao causar espanto quando ingerido, um alimento exótico para homens fortes que admiram bravas mulheres. Dizer mais é ser prolixo ao tentar descrever um êxtase, é querer dar nome à uma sensação. Esse gosto que ficou na boca é suficiente para aguçar o paladar.

Testemunhem!

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  1. * frame rate

    Os ‘frame rate’ são os fotogramas sequenciais necessários para criar o movimento, cada segundo de imagem é composto geralmente por 24 ‘frames por segundo’ para que nosso cérebro reconheça uma imagem em movimento. Essa é a cadência padrão do cinema, embora o cinema atual esteja usando mais frames para melhorar o visual e para que ele acompanhe a atualização tecnológica dos cinemas, que utilizam projetores mais potentes e 3D. O que George Miller fez em Estrada da Fúria foi diminuir os ‘fotogramas por segundo’, indo ao contrário da tendencia, por isso ao começarmos ver o filme temos aquela impressão de que as cenas estão aceleradas, mas em poucos minutos nosso olho acostuma. Esse recurso deixou o filme mais rústico e ressaltou a paleta de cores dos fotogramas.

    • Obrigado pela leitura Flavio.
      Realmente essa franquia é ótima, e Estrada da Fúria chegou não somente para ser o melhor dos quatro como um dos melhores filmes de ação já criados.

  2. Um texto crítico épico para um filme épico! Vou rever Mad Max com mais informação agora. Parabéns Jefferson.

  3. Parabéns, como sempre você surpreendeu com seu texto, descreve com conhecimento, amor, suas críticas fazem com que pessoas como eu sem conhecimento na obra, passe a admirá lo e também a conhecer esse mundo da ficção. Texto muito inteligente como sempre meu amigo.

    • Obrigado pela leitura Giselle. Fico feliz que o texto tenha contribuído e que você perceba meu amor pelo cinema nas entrelinhas. É ótimo ver mulheres se interessando por Mad Max.

      Abraço.

  4. Ler sua crítica, pelo gozo que o sr. teve, faz-me pensar se não estou errado. Digo isso pela sua crítica, exuberante crítica e, ao que me parece, catártica experiência cinematográfica. Minha, pelo jeito, foi diametralmente oposto. Tirando o fato dos merecidíssimos oscares pelas incríveis caracterização dos figurinos e pelo megalomaníaco efeitos especiais, o filme foi uma bosta… acho que um pouco antes da metade já tinha começado a verificar se o filme já estava acabendo; chequei umas três, quatro vezes.

    Para mim, foi uma merda de filme onde foram gastos muito bem milhões de dolores, como posso dizer… em técnicas/categorias visuais. Por incrível que parece, o filme foi um tédio. Enfadonho e aborrecido, até.

    Inveja-me seu prolixo êxtase ao filme.
    Parabéns pela crítica.