M, o Vampiro de Dusseldorf

Colaboradora: Ana Karla Pereira.

Da vanguarda:

A vanguarda expressionista ou simplesmente expressionismo surgiu na Alemanha nas primeiras décadas do século XX, muito influenciada pelo momento histórico: as vésperas da primeira grande guerra e em plena postura imperialista do estado alemão. Isso, aliado ao repúdio à sociedade ditada pela burguesia, nobreza e a arte academicista dão origem ao movimento, que por seu caráter de negação das classes sociais, liga-se rapidamente a margem da mesma, a chamada escória – prostitutas, ladrões, mendigos e loucos. O expressionismo veio a politizar-se no período de revoluções sociais ao lado da camada operária.

O movimento impressionista contribuiu muito na nova estética pictórica proposta por esta vanguarda, tanto que a pintura expressionista nos parece um impressionismo exacerbado, com um tratar mais violento nas cores e formas buscando chocar ao primeiro olhar do observador, fazer com que esse busque a expressão do artista que está posta de forma quase que obscena na obra. Porém ao contrário de outras vanguardas que ficam restritas as artes plásticas o movimento possui representantes em quase todas as formas de expressão artística, como por exemplo, a criação da musica atonal e dodecafônica de Arnold Schönberg – ainda hoje de árdua assimilação. E também em sua forma mais famosa, o cinema.

Foi uma das primeiras vanguardas a assimilar a sétima arte, talvez por esse motivo e por sua produção inovadora, no meio e na estética, seja uma de suas maiores contribuições para as artes. Os primeiros filmes datam do início do século XX na Dinamarca e já tratavam de temas próprios do expressionismo como angústia, desespero e morbidez; entretanto foi na Alemanha que atingiu o auge de seu desenvolvimento. Nesse país, técnicas teatrais de atuação, iluminação, fotografia e ambientação foram incorporadas ao cinema; algumas das grandes obras cinematográficas nasceram sob esses preceitos como Nosferatu de F. W. Murnau em 1922 e O Gabinete do Dr. Caligaris em 1920 de Robert Wiene, filmes que colocaram a Alemanha como uma das primeiras nações a produzir e exportar cinema. A estética expressionista consagrou-se posteriormente, de forma menos criativa e inovadora, nos gênero “filmes de terror”.

Do diretor:

Um dos maiores diretores da história da sétima arte surge sob esse contexto: Fritz Lang. Nascido em Viena em 1876, mudou-se para Munique em 1911 onde estudaria pintura e escultura; casou-se em 1921 com a roteirista Thea Von Harbou e essa parceria rendeu-lhe seus primeiros filmes. Lang é mundialmente conhecido, não apenas por não se sujeitar, mas desafiar ás vontades de Hitler, o que motivou seu exílio nos Estados Unidos, onde morreu aos 85 anos em 1976.  Possui filmes bem inseridos na estética como M, o vampiro de Dusseldorf de 1931 e a trilogia sobre Dr. Mabuse (Dr. Mabuse, o jogador de 1922; O testamento do Dr. Mabuse de 1933 e Os Mil Olhos do Dr. Mabuse, 1960) e filmes futuristas como Metrópolis de 1927, porém é considerado um remanescente, pois a estética expressionista perpassa por toda sua produção.

Do filme:

Sendo um dos primeiros filmes falados a ser produzido no país M, o vampiro de Duseldorf é um marco do cinema alemão, e também é uma das primeiras películas do expressionismo a não tratar do sobrenatural ou da psicanálise e sim de um tema bastante polemico para a época, o infanticídio.

O filme nos mostra, logo de início, uma cidade que está em pânico devido ao desaparecimento de crianças. Percebemos isso na expressão preocupada das mães, no cuidado redobrado com os pequenos e pelos muitos cartazes espalhados na cidade prometendo recompensas a quem fornecer alguma informação sobre o assassino, cuja primeira aparição se dá de uma forma muito particular da estética expressionista, a projeção de sombras. Vemos a sombra de um homem, que sabemos ser o assassino, projetada de forma muito clara tendo como anteparo o cartaz destacando a palavra Mörder – assassino em alemão – o que sintetiza o medo que todos sentem dele, uma sobreposição entre o poder do temido sobre os amedrontados. Associada a essa imagem, ouvimos o assoviar da canção In the Hall of the Mountain King, que será a marca da aparição do assassino por metade da projeção, ao ouvimos o assobio da música sabemos que ele está próximo. Uma trilha que curiosamente foi amplamente utilizada em desenhos animados.

Iluminação e fotografia são intensamente exploradas como ferramenta expressiva, com grandes contrastes entre luz e sombra e a criação de perspectivas que nos mostram os sentimentos das personagens, como na cena da escadaria que forma um grande abismo quando a mãe aflita chama a filha que não retornou da escola e que o expectador sabe que nunca voltará. As marcas dessa ausência são reafirmadas em planos onde, num grande contraste de luzes, vemos a mãe em prantos na penumbra e o prato iluminado sobre a mesa marcando a ausência da menina, esse novo seqüestro serve como estopim a paranóia da população e polícia.

Os moradores da cidade caem em si, dão-se conta de que o assassino está entre eles e é um deles, por isso passam a acusar-se mutuamente; daí o nome do filme, que vem da palavra Mörder. M, o psicopata encoberto pelo anonimato da cidade, caminhando pelas ruas como um cidadão comum.  Porém o assassino sabe de sua doença e entra em contato com os jornais para pedir auxílio, o que fornece alguns indícios para que a polícia tente, de forma pouco eficiente, sair em seu encalço. As autoridades passam, numa tentativa desesperada, a cercear todas as atividades ilegais, o que causa uma reação de criminosos, pois isso vem atravancando-lhe os “negócios”.

Para resolver o problema os criminosos organizam-se espalhando vigilantes mendigos pela cidade, para espanto do expectador, o assassino é identificado por um mendigo cego que vende balões, que relaciona o assovio da música que ouvira no dia do desaparecimento da ultima vítima. O assassino é seguido pelos vigias a serviço do crime e marcado com a letra M, enquanto andava com sua indefesa próxima vitima e é ela que o alerta sobre homens que o seguem.

Paralelamente, a investigação policial chega à casa do assassino e nesse momento descobrimos quem ele é; o ex-interno de uma clinica psiquiátrica Hans Beckert, pois para a polícia sua identidade de cidadão é importante. Porém, ele já está sendo perseguido pelos criminosos e num ato impensado esconde-se no interior de um edifício comercial ficando trancado ao fim do expediente, entretanto os perseguidores aguardaram o momento propício para pegá-lo. A organização criminosa invade o prédio a procura do homem marcado pelo M, arrombando desde os depósitos de carvão até salas com sofisticados alarmes. Quando o depósito onde Hans se esconde é descoberto, um dos vigias do edifício consegue acionar a polícia que demorará cerca de cinco minutos para chegar, os ladrões sabem disso, então rapidamente arrombam violentamente a ultima porta e levam consigo o assassino. Entretanto esquecem um de seus homens que entrara pelo teto de uma sala e ele será pego pela polícia.

Ponto a ser observado nesse momento da projeção, além da música assoviada pelo assassino não há trilha sonora, todo o clima das cenas é dado apenas pela iluminação, enquadramentos e atuação. Longos takes mudos precedem cenas muito barulhentas, exemplo disso, a chegada dos ladrões ao prédio e sua saída levando seu prisioneiro se passa sem som e logo após a chegada da polícia ao local é marcada pela volta estrondosa dos sons da sirene; demonstrando o antagonismo entre o trabalho eficiente e silencioso dos criminosos com o estrondoso e de pouco resultado trabalho policial.

O delegado não entende como um lugar com tantos objetos de valor fora vasculhado e nada ser roubado, nesse momento vemos uma das construções mais interessantes do cinema, pois enquanto o inquérito policial nos fala do arrombamento, imagens do mesmo aparecem na tela, sob as páginas do livro de registros. O assaltante que fora esquecido e levado pela polícia é pressionado a contar o porquê de nada ter sido roubado. Depois de muitas ameaças, ele conta ao delegado o que buscavam e levaram do edifício.

Enquanto isso o assassino é levado para uma antiga fábrica onde será julgado por seus crimes, será julgado pela escoria da sociedade: mendigos, prostitutas e outros assassinos decidiram seu destino. O tribunal, com “advogado” de defesa, promotores, “júri” e “juiz” é iniciado e essa cena também é amplamente marcada por contrastes de iluminação e pela atuação singular de Peter Lorre (o assassino). Em um expressivo monólogo ele primeiro exige e depois suplica para ser entregue as autoridades, conta sobre sua necessidade de matar e sobre os fantasmas que o assombram, um discurso que transita entre raiva, angústia, desespero e medo, que de forma convincente e comovente nos obriga a considerar sua situação. Entretanto, Hans é condenado à morte, pois mesmo os assassinos não conseguem vê-lo como doente ou como um deles, julgam que a única forma de impedir que mais mortes ocorram é matando o assassino. O que é impedido, no ultimo instante, pela chegada da polícia ao local.

A película propõe reflexões que são discutidas ainda hoje, como a eficiência da policia e das instituições que tratam doentes mentais e expõe o medo que a sociedade sente de um de seus produtos, o assassino em série. M, o vampiro de Dusseldorf é um filme singular, perturbador, pois coloca a figura do assassino de forma dialética, assim como as principais características da vanguarda são dialéticas, fazendo aflorar o que há de belo e feio, de claro e escuro inserido em apenas uma concepção de obra de arte.

Ana Karla Olimpio Pereira é estudante de Arquitetura e Urbanismo na Universidade de São Paulo e cinéfila. Confira outros textos da autora aqui.

Bibliografia:

http://www.urutagua.uem.br//010/10silva.htm 
http://www.cineplayers.com/critica.php?id=1

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  1. Texto excelente! Fritz Lange é um dos maiores mestres do cinema. Só de ouvir alguém assoviar “In the Hall of the Mountain King” eu já tenho calafrios, rs…

  2. Parabenz Ana fiquei louco pra baixar esse filme, gostei da ideia de criminosos resolverem o problema e da critica a policia.Queria saber onde voces do PN acham esses filmes estrangeiros.

  3. uma das grandes obras do mestre Fritz Lang junto de Metrópolis e Retrato de mulher disponivel no youtube

  4. O expressionismo alemão influenciou o cinema mundial principalmente os filmes noir norte-americanos.
    este filme do mestre Fritz Lang esta entre seus melhores trabalhos junto de Um retrato de mulher e Metrópolis
    pra quem quiser conferir está disponivel no you tube

  5. Vale comentar que há uma excelente adaptação deste filme para quadrinhos pelo genial Jon J. Muth.
    É um trabalho lindo, confiram.