Homenagem póstuma – Uma Chance Para Leila Lopes

Leila Lopes, Miss Universo.

A linda Leila Lopes é a nova Miss Universo. Para os brasileiros essa frase lembra três coisas: o absurdo segundo lugar de Natalia Guimarães, as duas polegadas a mais da lendária Marta Roche e, finalmente, a professorinha da novela Renascer, interpretada pela finada Leila Lopes.

A atriz foi encontrada morta na madrugada do dia 03 de dezembro de 2009, em seu apartamento no Morumbi, Zona Sul de São Paulo. Ao lado do corpo foram encontrados comprimidos antidepressivos. Provavelmente, uma overdose.

Em 2008, Leila Lopes lançou o filme pornográfico Pecados e Tentações, realizado pela Brasileirinhas, produtora especializada em introduzir celebridades no mundo do sexo explícito. Apesar de sofrer pesadas críticas a sua forma física e inibido desempenho sexual, o filme foi um sucesso. Mas também transformou-se em piada nacional, em função da insistência da protagonista em defendê-lo como um drama familiar que apenas por acaso contêm cenas de sexo. Na época, fiquei pensando se seria possível realizar uma resenha crítica séria do filme, a partir dos critérios exigidos pela protagonista.

Como homenagem póstuma a nossa Leila brazuca, vai abaixo minha tentativa; estendo essa homenagem a muito viva “morena de Angola”, como diria Chico Buarque, Leila Lopes. Pax, Leilas, Pax.

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Recentemente, tem acorrido um fenômeno curioso: diversas estrelas, ou quase-estrelas, ou ex-estrelas, do mundo “artístico” brasileiro estão aderindo à indústria pornográfica. A lista é extensa e promete aumentar (existem bolsas de apostas para saber quem é a próxima). Vai de veteranas célebres como Gretchen e Rita Cadilac, até semi-veteranas semi-esquecidas como Regininha Poltergeist. Dentre os homens, Alexandre Frota reina absoluto, sem grande concorrência. Uma das mais recentes debutantes no gênero é Leila Lopes, lembrada pelo papel de professora na novela global Renascer, de Benedito Rui Barbosa, exibida entre 08 de março e 13 de novembro de 1993. O título do filme que estrela é Pecados & Tentações.

Capa do filme Pecados e Tentação estrelado por Leila Lopes, a atriz.

É curioso observar o tom moralista do discurso desses “artistas”. Ao contrário dos desconhecidos, as celebridades tentam desesperadamente justificar sua nova atividade.  Gretchen, por exemplo, afirma que não fez um filme meramente pornográfico, fez um filme para família, uma vez que só contracenou com seu noivo. Seu objetivo seria, num esforço de utilidade pública, mostrar para as pessoas maduras que ainda podem viver a vida. Do mesmo modo, certa Vivi Fernandes, obscura ex-bailarina do Gugu Liberato transformada em estrela do ramo, também só aceita atuar com o namorado.

Com Leila Lopes não é diferente. Em diversas entrevistas de divulgação, ela afirma que elaborou uma lista de exigências à produtora Brasileirinhas para aceitar fazer o longa. Em primeiro lugar, deveria ser um filme de época, baseado na célebre série de crônicas A Vida Como Ela É, de Nelson Rodrigues. Só dividiria cena com um único parceiro e teria direito de escolhê-lo. Seu objetivo seria realizar um trabalho de refinado erotismo, onde as cenas picantes se justificariam pela trama intricada e profunda. Tudo visando preservar sua imagem artística.

Não deu certo. Leila Lopes foi bombardeada de críticas. Foi chamada de hipócrita, oportunista, decadente, remendada, esticada etc. Tornou-se uma piada nacional, com direito a ser ridicularizada no youtube, com a divulgação de um vídeo surreal onde narra suas aventuras místicas (Berenice, segura!).

Diante do massacre, pensei: “Quem não tiver pecados que atire a primeira pedra”. Decidi dar uma chance para Leila Lopes. Assistir “Pecados & Tentações” despido (porém vestido) de preconceitos. Não cair na tentação grosseira de julgar as cenas explícitas por seu valor, digamos, ginecológico. Tentar ver a produção em função dos critérios apontados por ela: roteiro, produção, interpretação etc.

O enredo do filme não é nenhum primor de originalidade, mas é promissor. Conta a história de Marlene, uma famosa atriz de cinema que, após dois anos no exterior, retorna a casa dos pais, onde também moram sua irmã mais nova, Ruth, e o marido Maneco. Hospedado na residência está Bentinho, seu primo seminarista, que se tornará objeto de desejo da prima rica e famosa. O jovem seminarista tenta estoicamente resistir aos avanços da libertina, mas acaba cedendo a luxúria. Depois de deflorar o inocente priminho, a atriz planeja seduzir o cunhado. Fim. Trama tipicamente rodrigueano, com toques de Tieta do Agreste. Nas mãos de um bom diretor, devidamente roteirizada e com interpretes seguros, poderia até render um drama erótico interessante. Um filme com sexo, não um filme de sexo.

Não se pode negar que existem precedentes. Obras respeitáveis já tiveram censura 18 anos. E não me refiro aos clássicos pornográficos como Garganta Profunda (que chegou a figurar no Caso Watergate), Atrás da Porta Verde e O Diabo na Carne de Miss Jones. Falo de filmes do circuito artístico. Existe no mínimo uma obra-prima: O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima. Mas também Diabo no Corpo, de Marco Bellocchio, e Ken Park, de Larry Clark. O lendário Calígula de Tinto Brass não conta porque, apesar de ter no elenco grandes atores como Malcolm McDowell, Helen Mirren, Peter O’toole e John Gielgud, foi seqüestrado pelo produtor Bob Guccione, fundador da revista Penthouse, que enxertou diversas cenas aleatórias de sexo na montagem final, contra a vontade do diretor. Em todo caso, não faltam exemplos bem-sucedidos da equação sexo explícito + roteiro coerente = bom filme.

É o caso de Pecados & Tentações? Infelizmente, para Leila Lopes, diria que não. Apesar de minha boa vontade e espírito tolerante, o filme é inapelavelmente ruim. É ruim apesar do sexo, não em função dele. O roteiro é primário, não explora a carga dramática das situações, se resumindo a desenrolar a ação esquematicamente. Um exemplo disso é a quase nula resistência apresentada por Bentinho aos avanços de Marlene. Ele diz “não, não, sim, sim” e acabou. Em poucos segundos já está rolando no chão, “conhecendo biblicamente” a prima. J. Gaspar é um diretor de mão pesada. Não sabe conduzir a marcação do elenco no cenário ou trabalhar o ritmo das falas. Seus atores estão sempre trombando em cena. Trombam nos objetos cenográficos, tropeçam nos diálogos e esbarram entre si. As cenas dramáticas parecem um misto de novela mexicana e teatro amador.

A principal linha de defesa de Leila Lopes é afirmar que se trata de um filme de época, contando com vestuário, veículos, cenários e objetos de cena condizentes. Contudo, a tentativa de criar uma atmosfera de época, anos 50, soa artificial e cafona. Nada parece deliberadamente antigo, parece simplesmente velho. De fato, surgem aqui e ali algumas relíquias, mas a direção de arte não foi das mais atentas. O anacronismo salta aos olhos. Os esforços de colocar em cena alguns espartilhos e uma máquina de escrever não são suficientes para esconder as placas de transito atuais e a moderníssima roupa intima exibida pelo protagonista masculino.

O elenco, aliás, merece uma análise detida. A primeiro que deve ser analisada é a estrela em pessoa. Leila Lopes tem repetido continuamente que não é uma atriz pornô, é uma atriz. Considerando sua (s) performance (s), não acho que seja nem uma coisa nem outra. Seu grande problema é sua voz. De tom infantil e anasalado, com uma atuação mecânica, não convence em momento algum. Fazendo biquinhos de mulher fatal, tentando parecer sedutora e libertina, revelá-se uma amante desinteressante, fria. Inexplicavelmente, parece ter piorado com a experiência. Aliás, para fazer justiça à Leila Lopes, não creio que sua tão criticada forma física e, aparente, excesso de intervenções cirúrgicas, seja um mal. Afinal, sua personagem é uma atriz veterana de sucesso. Uma viúva negra, ou loba, colecionadora, e devoradora, de homens. Nada mais natural do que exibir um rosto devidamente recauchutado, como é comum em estrelas que tentam prolongar a carreira. Ademais, Leila Lopes não é nenhuma idosa. É bem verdade que a novela Renascer foi exibida há quinze anos, mas apenas a obsessão contemporânea pela primeira juventude explica tal preconceito contra uma mulher que deveria estar em torno dos quarenta anos apenas (mais tarde se descobriu que Leila Lopes diminuía em dez anos sua idade. O que não pesa contra o argumento).

Com relação ao elenco de apoio, ele pode ser dividido em dois grupos: ativos e passivos. Antes que essa afirmação produza mal-entendidos, explico que refiro-me aos atores que não participam de cenas explícitas e aos que participam de cenas explícitas. O casal de idosos que interpretam os pais de Marlene, seu Bezerra e dona Malvina, obviamente, mas nem tanto, são do grupo passivo e passa despercebido, de tão insossos. Assim como a empregada da casa. Foram, provavelmente, recrutados em alguma agência de figuração.

O elenco ativo se caracteriza pelo colorido de suas presenças cênicas. Não falo dos diferentes nuances interpretativos que emprestaram aos personagens, mas das imensas tatuagens que exibem nos braços, nos ombros, nas pernas etc, etc, etc. Dragões e estrelas pouco condizentes com os tipos burgueses e felizes, ao estilo de Tolstoy, que deviam representar. Também não ajudam o pouco convincente linguajar empolado, volta e meia deixando escapar uma gíria, e as marcas de biquíni fio-dental. O excesso de caretas, caras e bocas, sobretudo do interprete de Maneco, Victor Gaúcho, não deixa dúvidas de que os atores não estudaram Stanislavsky suficientemente. Do famoso “método” de Lee Strasberg só ficaram com as duas primeiras sílabas da palavra.

Leila Lopes afirma que escolheu a dedo (???!!!) seu companheiro de cena, em função de sua aparência comum, capaz de convencer como um tímido e virgem seminarista. Na posição (???!!!) de crítico, garanto-me o direito de não comentar esse aspecto da produção, levando-se em conta que o nome artístico do citado cavalheiro é Carlão Bazuca. Um ator cognominado “Bazuca” está além de qualquer filosofia.

Considero que o grande “pecado” de Leila Lopes aconteceu quando permitiu que Tamiry Chiavari fosse escalada para o papel de Ruth, a irmã ciumenta e desconfiada de Marlene. Ela obscurece a protagonista. É mais bonita, mais carismática, mais liberal, mais profissional e, acreditem, interpreta melhor do que Leila Lopes. Se Marlene vai roubar o marido de Ruth, certamente Tamiry Chiavari roubou o filme de Leila Lopes.

Enfim, Pecados & Tentações não cumpre o que prometeu. Não para o público que recebeu exatamente o que queria, realizar o fetiche de ver a professorinha de Renascer em cenas intimas, mas para sua própria protagonista, que foi frustrada em suas altas pretensões artísticas, por uma direção capenga, roteiro esquemático e produção mambembe. Desculpe, Leila, eu tentei!

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Ademir Luiz é doutor em História. Professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG). Autor do romance “Hirudo Medicinallis”. Correio eletrônico: [email protected]

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  1. Não tenho nada contra o gênero. Muito pelo contrário, mas infelizmente, por mais irônico que pareça, o Brasil ainda não aprendeu a fazer filmes pornográficos de qualidade. Bom o texto…

  2. kkkkk esse texto me surpreendeu, confesso que comecei a le-lô por curiosidade e acabei adorando, informativo, engraçado e pra lá de inusitado.
    Confesso que assisti Pecados e Tentações, achei uma porcaria, mas não achei a Leila tão baranga. huahuahahua.

  3. Eu adoro filmes pornográficos. Uma indústria que é o sub-gênero mais rico do cinema não deve ser menosprezada em função de moralismo babaca. Se ninguém assistisse, não existiriam filmes pornôs. Eles não só existem como movimentam uma fábula no mundo todo!

  4. Cara, o texto é cômico. Tem muita qualidade e é escrito com propriedade como tds os seus outros textos. Entretanto torna-se cômico pelo objeto da análise. Eu assisti o filme e nem as cenas de sexo o salvam.

  5. Fico triste porque foi uma das ultimas tentativas dela de salvar a carreira. Acho que a professsorinha que tanto marcou a carreira dela teve que se despir de todo o seu orgulho pra utilizar um filme erotico como escada para um novo patamar. E ver tudo isso se tornar uma piada certamente afetou de maneira irreversivel a saudosa Leila Lopes.
    Não assisti ao filme, não me interesso, mas me solidarizo com casos como esses, de pessoas que por algum motivo acabam no fundo do poço e não encontram ajuda pra sair de lá.
    Triste lembrar de suas ultimas palavras, onde dizia que não tinha mais forças para lutar por algo que não saberia se teria.
    Sinto muito por ela, muito mesmo

  6. Até hoje penso que a nossa hipocrisia foi cúmplice, senão maior culpada, do triste fim de Leila Lopes. Em tempos de Sasha Grey, quem somos nós para rebaixarmos tanto uma pessoa pelas suas escolhas, sejam elas boas ou más? Não seria a pornografia mais “sincera”que os emulacros sexuais do cotidiano da cultura pop? Enfim, essa jovem merecia continuar vivendo e sem se sentir culpada pelas suas escolhas. PAX!