Homem de Aço – Potência não é nada sem controle

[SPOILERS! Artigo recomendo para aqueles que já assistiram ao filme.] 

Em 1996 o superatleta olímpico Carl Lewis estrelou um comercial da marca de pneus Pirelli onde aparecia o slogan “Power is nothing without control” (Potência não é nada sem controle). A frase entrou imediatamente no imaginário coletivo, vendendo a ideia de que a alta tecnologia não serve de muita coisa, e pode ser até perigosa, se não for usada com parcimônia, cuidado e, quem sabe, talento. O recém-lançado filme “O Homem de Aço”, nova versão cinematográfica da saga do Super-Homem, é um exemplo educativo dessa noção. Sobrou potência, faltou controle.

“O Homem de Aço” está sendo vendido como um “Super-Homem para as novas gerações”. Na verdade, não representa tanta novidade. O personagem se recicla continuamente desde a sua primeira aparição. Ainda em 1964, o semiólogo e romancista italiano Umberto Eco publicou no livro “Apocalípticos e integrados” um ensaio sobre o mito do Super-Homem, onde observou que Ele: “só se sustenta como mito se o leitor perder o controle das relações temporais e renunciar a raciocinar com base nelas, abandonando-se assim, ao fluxo incontrolável das estórias que lhe são contadas e mantendo-se a ilusão de um contínuo presente” (p. 260).

O personagem foi concebido como um vilão no melhor estilo criatura de Frankenstein pela dupla de adolescentes judeus Jerry Siegel e Joe Shuster no começo da década de 1930. Em sua gênese o Super-Homem era um moderno Prometeu ou um golem. Foi transformado num vigilante uniformizado para ser publicado no primeiro número da revista “Action Comics” em 1938, tornando-se um dos maiores sucessos comerciais da Era de Ouro dos Quadrinhos (1933 – 1954). Teve a origem reformulada no ano seguinte, quando começou a ser publicado em tiras de jornal. Nasceu aqui a relação simbólica com Moisés que, posteriormente, evoluiria para Cristo. Aprendeu a voar em 1941. Ganhou programas de rádio e seriados de cinema que adaptaram bastante o personagem de HQ. Virou um fanfarrão na Era de Prata (1956 – 1970), em função da auto-regulamentação que as editoras criaram para suavizar o conteúdo publicado. Na Era de Bronze (1970 – 1985) torna-se o escoteiro azul ultrapoderoso que sedimentou definitivamente sua imagem popular.

Após o evento cataclísmico Crise nas Infinitas Terras (1985 – 1986), que zerou a cronologia dos personagens da editora DC Comics, o quadrinista canadense John Byrne reformulou o herói, tornando-o mais realista e menos poderoso. Infelizmente, destruíram o trabalho brilhante de Byrne nos anos seguinte, onde péssimos roteiristas e editores desesperados com a baixa nas vendas o mataram e ressuscitaram, dividiram-no em dois, tornaram-no uma criatura elétrica etc.

A origem de Byrne era considerada oficial até 2004, quando foi lançada a série em doze edições “O legados das estrelas”, escrita por Mark Waid e desenhada por Leinil Francis Yu. Alguns anos depois, entre 2009 e 2010, a DC encomendou para dupla Geoff Johns e Gary Frank uma nova origem, que deveria ser a definitiva. Apesar das pretensões, “Origem Secreta” só durou um ano no topo, pois a editora decidiu reformular seu universo mais uma vez. Com o ambicioso projeto “Novos 52”, o roteirista Grant Morrison revisou mais uma vez o personagem. Nesse meio tempo, foi lançado o romance gráfico “Terra Um”, escrito por J. Michael Straczinski e desenhada por Shane Davis, que se passa em um universo paralelo, também concebido para apresentar personagens clássicos para novos leitores.

Paralelamente a sua trajetória nos quadrinhos, sua mídia original, o Super-Homem continuamente ganhou versões “atualizadas” na TV, no cinema e em games. Quatro projetos ganham destaque, para o bem e para o mal. O primeiro foi a quadrilogia clássica de filmes estrelada por Christopher Reeve, lançada entre 1978 e 1987. Em seguida veio o seriado de TV “Lois & Clark” (1993-1997), baseado numa dinâmica de comédia romântica e onde os personagens se casaram, provocando também o matrimonio nos quadrinhos. Depois a série “Smallville” (2001-2011), mostrando os anos de formação do herói, que, tendo começado muito bem, terminou como uma piada de mau gosto. Por último, o fraco filme “Superman – O Retorno”, de 2006, dirigido por Bryan Singer, no qual o canastrão Brandon Routh tenta desastrosamente imitar Reeve.

O filme de Singer foi, merecidamente, fracasso de público e crítica, mas levantou uma questão interessante: “o mundo precisa do Super-Homem?”. Esse teria sido o título da reportagem pela qual Lois Lane ganhou o Prémio Pulitzer. A pergunta foi pouco explorada no enredo do filme, mas revela-se ainda mais relevante para o mundo real. Com tantas reformulações para as novas gerações, quase sempre descartadas rapidamente e com méritos artísticos questionáveis, o personagem Super-Homem ainda é relevante?

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O principal desafio do filme “O Homem de Aço” é, mais uma vez, mostrar que sim. Que o mito, que a figura icônica de botas vermelhas, S no peito e capa, é imortal, a despeito de qualquer decisão artística equivocada que se tome. Quanto a isso parece que a equipe de produção foi bem-sucedida. O filme é um imenso sucesso.

O que é compreensível, uma vez que foram tomadas precauções para que o longa apresentasse todos os ingredientes necessários para agradar os jovens que formam a maioria dos frequentadores das salas de cinema na atualidade. Os produtores aprenderam com os erros do passado. Diferente de “Superman – O Retorno”, onde se privilegiou a relação romântica entre Lois Lane e o herói, sendo excessivamente reverente aos filmes com Reeve, aqui o foco está na aventura. Cenas de ação se sucedem, costuradas por flashbacks do passado do protagonista, nem sempre de forma orgânica na narrativa. Paradoxalmente, esse foi o grande erro e o grande acerto do filme. Garantiu o seu sucesso popular, sacrificando muito de sua estrutura dramática.

É importante que o espectador mais velho, entre seus trinta e quarenta anos, se dispa de preconceitos. É um equivoco entrar na sala escura com a convicção de que jamais vai haver um filme do Super-Homem com a qualidade do de 1978, dirigido por Richard Donner, onde Reeve encarna o Super-Homem definitivo. Não adianta reclamar da velocidade acelerada da ação, da paleta de cores escura e dos pulos narrativos. Seu ritmo e a identidade visual foi concebida para jovens que jogam vídeo game. Gostando ou não, desde a ficção científica “Matrix” (1999), o cinema blockbuster contemporâneo é isso. Resta saber se tal estética foi bem empregada nesse caso em particular. O importante é tentar perceber se a mais recente reformulação do Homem do Aço funciona enquanto cinema.

A linha de frente da produção é composta por um trio controverso. O produtor Christopher Nolan, o roteirista David S. Goyer e o diretor Zack Snyder. É duvidoso o quanto o consagrado Nolan realmente interferiu no filme. Com certeza foi responsável por cooptar o maestro alemão Hans Zimmer para compor a trilha sonora, que se não é marcante não chega a comprometer. Em todo caso, é importante lembrar que após entregar um filme brilhante sobre Batman, o “Begins” (2005), e uma obra-prima, “O Cavaleiro das Trevas” (2008), Nolan dirigiu o lamentável “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” (2012), onde o visual espetacular tenta inutilmente disfarçar um péssimo roteiro e uma montagem quase amadora.

O quadrinista Goyer tornou-se piada no meio cinematográfico após a direção canhestra e os diálogos tolos de “Blade: Trinity”, de 2004. Trabalhou com Nolan no bom roteiro de “Batman Begins”, mas assina o texto de “O Homem de Aço” sozinho. Acredito que nesse caso faltou a ajuda do parceiro para dar o salto de “narrativa de quadrinhos” para “narrativa de cinema”.

Snyder é um caso de “ame” ou “odeie”. Diretor de bons filmes como “Madrugada dos mortos” e “300”, ganhou muitos detratores com a polêmica adaptação do romance gráfico “Watchmen”, do mito Alan Moore, que dirigiu em 2009. Sua fama piorou com a aventura alucinógena e fetichista “Sucker Punch”, de 2011, transformando-o na encarnação viva do chamado “cineasta massa véi”. Resumidamente, “massa véi” seria qualquer obra que se preocupa mais com o visual do que com o conteúdo. No cinema de entretenimento contemporâneo é sinônimo de explosões, tiros, destruição em massa e excesso de efeitos especiais. Todo orquestrado para que o expectador fique de queixo caído e exclame “massaaa véiii”, para logo em seguida esquecer o que provocou tal catarse, na expectativa da próxima, da próxima e da próxima cena estrondosa, formando um circulo vicioso. Curiosamente, Snyder optou por usar o recurso de câmara na mão nesse projeto. Acredito que por dois motivos: primeiro para fugir e diferencia-se dos enquadramentos detalhadamente compostos que marcaram a estética dos filmes anteriores do personagem. Segundo, para fortalecer o clima realista, reproduzindo uma estética documental. A cena com o urso polar, realmente extraída de um documentário, é sintomática. Uma proposta interessante.

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Observando atentamente, “O Homem de Aço” é uma junção dos três estilos. Possui a fotografia muito bem cuidada e o tom sério e solene atrapalhado por um roteiro cheio de furos de “O Cavaleiro das Trevas Ressurge”. Apresenta os diálogos fraquíssimos, mais HQ da Era de Prata do que cinema, de “Blade: Trinity”. Possui momentos grandiosos como “Watchmen” (a cena na refinaria de petróleo é um exemplo), mas também os exageros de “Sucker Punch”. Tudo isso acrescido por uma característica nova: a emulação do estilo do cineasta Terrence Malick, diretor de “Árvore da vida” e “Além da linha vermelha”, nas cenas de infância e juventude de Clark Kent. Essas sequências em particular são responsáveis pelos aspectos líricos do filme, que tem seduzido alguns críticos e parte do público adulto. Contudo, para qualquer cinéfilo mais experiente, acho difícil elas não parecerem descontextualizadas e, sobretudo, artificiais e pasteurizadas. Bonitas, mas sem identidade, como um cartão postal vendido em banca de jornal. Como resultado da equação, “O Homem de Aço” pode até ser um filme empolgante e eficiente para seu público alvo, mas, definitivamente, não funciona como Cinema com C maiúsculo.

Não que “O Homem de Aço” seja um desastre quase completo, como foi “Superman – O Retorno”. Da mesma forma que “O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, possui qualidades, mas o acumulo de pequenos problemas mina o conjunto da estrutura. O todo é muito pior do que as partes.

Começando pela risível cena de abertura, ambientada em uma sala de parto improvisada no planeta Klypton: um close canhestro em Lara dando a luz a seu iluminado filho. Entendo qual a intenção: mostrar que Kal-El, o Super-Homem, foi o primeiro klyptoniano nascido de modo natural em gerações. Mas precisava ser de maneira tão mal dirigida e interpretada? Qual o sentido dramático de abrir o filme com essa cena em particular? Super-Homem não é Conan, cuja mitologia prevê que nasceu em campo de batalha, sendo, portanto, razoável que tal episódio seja destacado.

Toda construção de Klypton é um passo atrás. Desde a década de 1970 o trabalho coletivo de diversos autores tem trabalhado de modo a apresentá-la como uma sociedade distópica, ultra-burocratizada, fria e decadente pela própria grandeza alcançada. Interpretando livremente, uma metáfora de Roma nos tempos que antecederam sua desagregação. Algo próximo do que George Lucas fez em “THX-1138”, de 1971. Essa sofisticada concepção de ficção científica foi substituída por uma obvia concessão ao “massa véi”, fazendo de Klypton uma mistura da Segunda Trilogia de “Star Wars”, Flash Gordon, He-Man, o “Avatar” de James Cameron, vulgarizações de conceitos de John Byrne e uma micro pitada de “Admirável Mundo Novo”, de Huxley, para disfarçar. É, em muitos sentidos, um retorno as aventuras juvenis de ficção cientifica do início do século XX, que inspiraram a Klypton original de Siegel e Shuster. E isso não é um elogio. Perdeu-se aqui décadas de desenvolvimento de conceitos em nome de alguns minutos de adrenalina.

Jor-El, o pai biológico do protagonista, foi o personagem mais prejudicado por essa opção de transformar seu planeta em um cenário de vídeo game. De um aristocrático cientista ele se tornou uma espécie de “faz tudo”. É um gênio da raça, mas também é um lutador invencível, um atleta soberbo, esposo exemplar, patriota abnegado, meio Mestre dos Magos meio Obi-wan Kenobi. Além de tudo é hipster: todos no planeta possuem naves, só ele cavalga em uma criatura alada, ao estilo Pandora. Deve ser o equivalente klyptoniano de ser ciclista. Jor-El é um personagem “canivete-suíço”, que por querer ser tudo, torna-se vazio, apesar dos esforços do ator Russell Crowe, visivelmente constrangido em ter que dar voz aos diálogos clichê de Goyer.

Em compensação, Jonathan Kent, o pai terrestre do protagonista, interpretado por Kevin Costner, possui os melhores diálogos do filme e, por extensão, entrega a melhor atuação. Carrega uma dignidade que faltou a Jor-El, em sua onipresença fantasmagórica que beira ao irritante. Porém, infelizmente, Jonathan Kent é o único personagem terrestre bem desenvolvido. A palavra de ordem aqui é desperdício. Martha Kent, mãe terrestre de Clark, é uma sombra, sem ter muito que fazer em cena. O desprezo para com essa personagem é tanto que rende uma cena constrangedora. Quando Clark retorna após anos de ausência, anunciando que desvendou o mistério de sua origem, ela sequer pergunta qual segredo é esse que custou a vida de seu marido. Ficam sentados na escada da cozinha falando e olhando para o nada.

Coadjuvantes importantes como Pete Ross e Lana Lang, fundamentais na mitologia do personagem, apenas passeiam pela tela, praticamente misturados com os figurantes. O fotografo Jimmy Olsen, melhor amigo de Clark em todas as versões relevantes, sequer aparece. O editor Perry White, interpretado por Laurence Fishburne, tem participação discreta, que não soma muito. Em compensação aparece um estranho padre que ninguém sabe quem é, nem de onde veio nem para onde vai, mas que parece ser uma referência ao padre Leone, seu confessor na saga “Pelo amanhã”, de Brian Azarello e Jim Lee. No filme o clérigo ficou um bug narrativo.

Lois Lane é sempre um caso especial. A escolha de Amy Adams para o papel foi feliz, embora seus cabelos ruivos provoquem desnecessária confusão com a persona da tradicionalmente ruiva Lana Lang (a oriental de “Smallville” foi uma feliz exceção). Em “O Homem de Aço”, Lois Lane aparece como uma repórter que realmente investiga e descobre. O que é muito bom. Porém, por preguiça ou desleixo de Goyer, é usada em diversos momentos como uma espécie de “deus ex machina” do roteiro. Sua simples presença resolve de maneira pouco convincente situações extremas do enredo. Por que uma jornalista é aceita, contra a vontade do exército norte-americano, numa operação secreta do governo? Por que os invasores alienígenas exigem que ela suba na nave junto com o fugitivo que procuraram por toda galáxia? Será que Lois emana algum tipo de feromônio raro que atrai klyptoniano? São incongruências que atrapalham o bom trabalho de Adams. Outro ponto baixo é a falta de química entre a atriz e Henry Cavill, o interprete do protagonista. Em momento algum o interesse romântico entre os dois é convincente. A cena de beijo, por exemplo, parece totalmente artificial. Dá a impressão que foi inclusa somente porque os produtores acharam que deveria ter uma cena romântica para agradar a plateia feminina que acompanhou os maridos, noivos, amigos e namorados ao cinema. Afinal, uma cidade em escombros, cheia de pessoas mortas, pode ser considerado um cenário inspirador para um casal apaixonado?

O ator britânico Henry Cavill revelou-se um Super-Homem digno. É um ator mediano, mas esforçado e comprometido com o personagem. Sabe-se que fez testes para James Bond, Batman e o Super-Homem de Singer. Foi recusado em todos os testes justamente em função da beleza estilo “Colírio da Semana da Capricho”. Para sua sorte, quando Zack Snyder assumiu o projeto, os valores de escalação de elenco mudaram. Sua beleza genérica, sem traços de exotismo que pudessem sugerir origens alienígenas, tornou-se passaporte para garantir o papel. Mas têm porte e, embora não transmita toda a nobreza e integridades necessárias, dá mostras de que pode evoluir como interprete. Infelizmente, assim como seu antecessor Brandon Routh, Cavill “não sabe voar”. Não é fluido e elegante quando está no ar, apenas estende os braços e vai. Sempre em altíssima velocidade (o que é culpa do diretor, não dele). Na curta cena onde plana a meio metro do chão, antes de atacar o vilão Zod, chega a ser cômico ver o grandalhão Cavill levitando estático, como se fosse uma marionete de madeira.

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O uniforme precisa ser levado para Edna Moda, a costureira fashion de “Os Incríveis”, dar uns retoques. A explicação para essa “armadura da esperança” estar guardada dentro de uma nave enterrada há 20 mil anos (e ter barbeador acoplado), além de ser composta de músculos pré-moldados (Cavill malhou bastante e não precisava de disfarces à lá Michael Keaton), é pouco convincente, mas com boa vontade pode ser ignorada. No geral o uniforme ficou bom e a opção por excluir a lendária, porém datada, cueca vermelha foi acertada. Por uma questão de elegância, espero que retirem os tufos de pelos escapando da placa peitoral. Qual a necessidade desse visual caminhoneiro? Mostrar virilidade? Também tive a sensação de que a capa era muito longa. Não parecia prática, considerando que se trata de um traje de combate. As sequências onde a barra da capa fica imunda após uma pequena caminhada no deserto e na qual parece sobrar tecido para todos os lados quando o herói se senta para ser interrogado dão mostrar de que uma tesoura ali seria bem-vinda.

Quanto aos inimigos do herói, lembraram-me vilões de anime. A inspiração para a chegada e o ultimato ao planeta vieram da HQ “Terra Um”, mas poderia ser de Dragon Ball Z. Com a diferença que os vilões de Dragon Ball costumam ser mais eficientes. O tão festejado exercito do General Zod mais parece uma armada Brancaleone. Possuem os poderes, o equipamento, o fator surpresa, mas nada do que planejam dá certo. O Golpe de Estado que tentaram dar em Klypton foi sufocado por um único cientista e duas naves de patrulha do bairro. E o pior: depois de descobrirem que ganhavam grandes poderes na Terra, o tal grande plano malévolo era justamente klyptoformar o planeta, perdendo assim esses poderes e ainda, provavelmente, ao atravessar o núcleo do globo, provocar os mesmos efeitos naturais que destruíram Klypton! Afinal, o parteiro Jor-El não informou no início do filme que o Klypton iria explodir justamente porque esgotaram seu núcleo?!

Os defensores do filme falam orgulhosos que reconheceram uma porção de “easter eggs” espalhados pelo longa, como o caminhão da LexCorp e o satélite da Wayne Enterprise, mas se esquecem que se nesse universo existe Lex Luthor e Bruce Wayne também existe a Tropa dos Lanternas Verdes, Thanagarianos e um certo Caçador de Marte. Portanto, ao invadir planeta alheia, talvez fosse uma boa ideia manter alguns poderes, só por precaução. Não é o que acontece: esse General Zod é o pior estrategista do universo DC. Todo potência e zero controle. Talvez perca para os burocratas klyptonianos que aprovaram o projeto de uma Zona Fantasma faraônica que liberta seus prisioneiros se, por acaso, faltar luz.

Apesar de motivações mais bem definidas do que a versão de 1980, o Zod interpretado por Michael Shannon mais parece um vilão de 007 dos anos de 1960. Captura o herói, revela o plano, deixa-o em uma armadilha pretensamente mortal da qual o herói escapa e, finalmente, morre no duelo final. Vivia se pavoneando de ser um soldado perfeito, com controle total dos sentidos e com “movimentos friamente calculados?”, mas nem sequer conseguiu escapar de uma chave de braço aplicada por um garoto de fazenda que nunca brigou na escola. Um incompetente desse quilate merece mesmo apanhar de duas gerações da Casa de El, pai Jor e filho Kal.

Quase metade do filme é o confronto entre o Super-Homem e os invasores klyptonianos. O herói foi bem-sucedido porque, mesmo sendo inexperiente, teve a seu favor a inoperância dos vilões e a mão pesado do diretor. A somatória dos dois fatores gerou o principal problema do filme: a total falta de dramaturgia nas cenas de combate. Toda luta memorável da história do cinema teve dramaturgia, da mais simples a mais complexa: Luke Skywalker contra Darth Vader em “O Império Contra-Ataca”, Bruce Lee contra Chuck Norris em “O voo do dragão”, Neo contra o Agente Smith em “Matrix” etc. Uma ação levava a uma reação que levava a outra ação que levava a outra reação, tudo sendo construído para aproveitar a trajetória dramática dos personagens que o levaram até aquele ponto de confronto. Em “O Homem de Aço” não existe nada disso. É apenas barulho, destruição e “massa véi”. Apesar de grandiosas, essas sequências são totalmente despersonalizadas e, justamente por isso, monótonas e repetitivas. Poderia ser o Lanterna Verde lutando contra o Sinestro ou o Capitão Marvel lutando contra o Adão Negro que não faria nenhuma diferença. São apenas figuras poderosas se batendo e mais nada.

Parece que a principal preocupação do diretor foi mostrar a destruição de que eles são capazes. E inadvertidamente faz isso ser um ponto obscuro na construção psicológica do protagonista, sobretudo considerando que a invasão alienígena foi um problema que ele próprio provocou. O herói deveria ter a dignidade de pelo menos tentar resolver o problema da maneira mais limpa possível. Qualquer pessoa minimamente sensata vai se perguntar: por que o abnegado Super-Homem não levou o combate para o deserto (no mar poderia gerar tsunamis)? Até o infantilizado Goku faz isso. Zod o estava caçando. Onde fosse, Zod seguiria. Mas não, preferiu matar milhares de pessoas e destruir bilhões de dólares em propriedade. A falta de inteligência estratégica, nessa reformulação para as novas gerações, deve fazer parte do DNA dos kryptonianos.

A grande polêmica do filme é quando o Super-Homem mata Zod, quebrando seu pescoço. Muitas fãs vociferaram indignados que “o Super-Homem não mata”. Entendo e concordo com as manifestações contrárias, mas admito que não me incomodei tanto. Mais do que o assassinato em si, irritei-me com sua encenação abaixo da crítica. Deveria ser um drama shakespeariano e foi uma novela mexicana, com direito a gritinho desesperado (Noooooooo!!), a mais popular muleta dramática de Hollywood. Por acaso os klyptonianos, tão poderosos e resistentes, possuem pescoço de galinha? O calcanhar dos klyptonianos fica no pescoço? Ou talvez um pescoço klyptoniano, para outro klyptoniano, equivale a um simples pescoço? Equação confusa que indica que o Super-Homem precisa aprender krav maga para quando for enfrentar o Bizarro na parte dois ou três da franquia? Seja como for, na falta de klyptonita, fica a dica, senhor Luthor.

Em compensação a cena final é leve, divertida, pisca para a plateia e aponta para boas possibilidades futuras. Porém, sempre um porém, denúncia como é falsa a sensação de que o roteiro se preocupou em desenvolver bem o personagem principal. Como o hipster cliclista Clark Kent, que aparentemente nunca estudou jornalismo nem coisa alguma, sequer escreveu no fanzine da escola, só teve subempregos usando identidades falsas, conseguiu o cargo de correspondente estrangeiro do maior jornal de Metrópole? Aliás, como Kent pretende manter sua identidade secreta se todos os moradores de Smallville, que o conhecem desde criança, o viram voando e lutando? Será que os militares, que estavam lá durante o combate, não chegariam numa informação tão óbvia, sem precisar usar satélites espiões? Depois dizem que o filme preza pelo realismo…

É provável que os admiradores da obra de Snyder resmunguem que “talvez o diretor só não quis mostrar isso”. Seria possível e aceitável tal justificativa se a estrutura dramática do enredo não estivesse organizada na forma de saltos temporais que revelam todos os aspectos fundamentais, inclusive os mundanos, da trajetória do protagonista. Acredito que ter passado quatro ou cinco anos nunca faculdade seria mencionado se fosse esse o caso. É verdade que talvez se trate de preciosismo de minha parte, mas estou partindo da premissa realista com que o próprio filme se vende. Mas, como escreveu Umberto Eco no ensaio sobre o mito do Super-Homem, o personagem exige “do leitor um ator de confiança, uma ‘suspension of disbelief’ no mais grosseiro sentido do termo: decisão de aceitar o Super-Homem pelo que ele é, uma personagem de fábula, de que se fruem as contínuas variações sobre o tema” (p. 278). Pode ser que se trate de um mero problema de pretensões: talvez vir para realidade esteja além dos poderes do nosso herói, independente de qual “reformulação para nova geração” seja feita.

Como se sabe, o caminho do inferno e as ruas de Hollywood estão pavimentadas de boas intenções. Outro desserviço prestado pelo filme foi jogar na lata de lixo décadas de esforços em transformar o mito dos EUA numa figura internacional. Novamente ele é reduzido ao “Garoto Maravilha vestido de bandeira” dos gringos. O espírito multinacional de obras como “Paz na Terra”, dos artistas Paul Dini e Alex Ross, onde o herói usa seus poderes para combater as mazelas do mundo, como a fome na África, foi ignorado e até desancado. Ele gaba-se de ser mais patriota que um militar afro-americano de alta patente. Aparentemente, Clark abraçou seu lado WASP e, como é típico, entrou na redação do Diário Planeta certo que Buenos Aires é a capital do Brasil.

A despeito dos muitos problemas, é bom que “O Homem de Aço” faça sucesso, pois abre caminho para um futuro filme da Liga da Justiça. Sem contar algumas continuações mais bem escritas e sutis. Que tenham potência, mas também controle. Afinal, os atletas anabolizados podem até sair na frente, mas quem realmente faz história são àqueles que controlam suas habilidades. Ben Johnson e Carl Lewis que o digam.

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  1. Excelente artigo, muito bem escrito, fundamentado e coeso, entretanto Klypton me incomodou muito, pois acredito que sempre foi Krypton em todas as encarnações que eu conheço.

  2. Bom acho que a crítica foi bem escrita, mas representa a visão de uma pessoa que não teve boa vontade em ver um filme de super herói.
    Só faltou o cara reclamar que o superman voava. A mitologia do personagem é recheada de furos, como evitá-los sem contar a sua origem?
    Francamente, o que esperar de um filme de super herói? Claro que o filme tem seus furos, mas muita coisa pode ser interpretada para não parecer mais didatica do que já é, por exemplo em relação ao uniforme, já pensaram se o filme mostrasse o cara se vestindo, se barbeando, calçando os sapatos?
    O personagem aparecendo de uniforme representa um salto de maturidade e de evolução do mesmo jeito que foi mostrado no clássico filme do Donner.
    Na boa, dá pra perceber quando um ator não é tão bom, mas é esforçado?
    Reclamar de ação em filme baseado em HQ…Tá legal, dá próxima vai ter gente reclamando que faltou explosão nos filmes do Truffaut.

  3. Excelente Ademir! A melhor crítica que vi até agora dessa bomba. Deu nome a muitas coisas que eu senti no cinema mas a inexperiência em crítica cinematográfica não me permitiu identificar. Aos que bradam por aí “ah, mas é um filme de super-herói” tentando com isso justificar um roteiro raso, posso recomendar duas ou três HQ’s. Tb não gosto de didatismo mas jogar as coisas no colo do espectador como o filme faz o tempo todo é igualmente escroto. Compartilho com a esperança do professor de filmes mais bem escritos no futuro, mas com o sucesso comercial desse o prognóstico é sombrio…

  4. Caro Ademir Luiz, você é o tipo de cara que vai assistir um filme e fica procurando algo pra criticar… Porra cara, vá chupar uma manga!

  5. Uma coisa é certa: Amy Adams interpreta a Lois Lane mais delícia e determinada de todos os filmes já feitos.

    39 anos, hoje, aliás. Ô mulher agraciada! Não parece NADA.

  6. cara que texto longo e enfadonho
    leio superman desde os 12 anos de idade e sempre achei sua mitologia muito trash, a certa altura do campeonato me toquei que eu era fã do que o personagem poderia ser e não do que ele é ,conto nos dedos as poucas historias realmente dignas de nota do azulão e a fase do byrne não é uma delas este autor foi muito feliz na mini serie de inicio que situou o personagem e o modernizou para aquela época ,só que dai em diante ele perdeu a mão em historias fracas e infantis ,dou merito para ele só em mundo de krypton desenhada pelo mignola ,o titio chapadão alam moore mostrou varios caminhos para se fazer boas historias , a fase do jurgens é pessima ,joe kelly tem boas historias, o legado das estrelas do waid merece muito mais respeito do que tem
    no cinema o bicho é ainda mais feio voce tem os bons filmes do donner e só,mas pensa bem o que se pode fazer com um personagem que não desperta mais nenhum interesse para esta geração ? como vou convencer um moleque que gosta de videogame e personagens sangue no zóio ,como é que eu vou convence-lo de que um cara super poderoso ,trajando cueca por cima da calça e que gosta de salvar gatinhos em arvores e que se delicia em dar tapas em vilões genocidas e tranca-los em gaiolas hig tec ?
    como vou dizer para o molequinho que um deus deixa acontecer coisa como o genocidio em darfur no sudão e massacres de civis com armas quimicas na libia ?
    dificil né ,os jovens de hoje são mais espertos e informados e isso se reflete no entretenimento que é consumido por eles e nesta evolução os comics de super herois estão ficando para tras e o que mais sofre é o superman
    no cinema eles estão com um folego a mais , o super do zack snyder é defeituoso mas eficiente em criar novo interesse pelo personagem , o roteiro do goyer tenta dar um pouco de substancia para uma mitologia vazia e ultrapassada e fracassa pelo ponto de vista artistico , o nolan manteve distancia por por não sentir empatia com o personagem ,zack snyder é um pessimo diretor ,mas muito competente na parte visual e cenas de ação
    no frigir dos ovos o filme é eficiente e prazeroso de se assistir , não esperem uma obra cinematografica de respeito ,pois o material utilizado não margem para isso.

    • “O que ele poderia ser e não o que ele é? Mitologia muito trash? O material utilizado não dá margem para isso?” Tem seus furos? Tem. Mas isso não impediu o personagem de transcender os quadrinhos para ser o ícone que é, justamente por ter diversos pontos interessantes. Eu sou fã do personagem há anos, é o meu preferido e para mim ele continua sendo o diferencial no panteão de personagens classificados como “super-heróis”.

      Ele é esse diferencial por ser uma pessoa humilde, que veio de uma família adotiva de pessoas boas… trabalhadores rurais, que dão duro e sabem valorizar isso. Ele não está nessa vida porque perdeu alguém por ter sido negligente no momento em que “teve o poder e uma grande responsabilidade” e simplesmente deixou passar, ou por vingança como um “cavaleiro sombrio”, mas sim por ele ter escolhido isso.

      O que mostra o grande caráter do Superman, que poderia ter trilhado um caminho oposto mesmo tendo recebido a orientação de Jonathan e Martha Kent, porque no final da jornada o que conta mesmo é a decisão que você mesmo toma em relação ao que fazer da sua vida. Isso incomoda aqueles que dizem não gostar do personagem por ele ser “bonzinho”. Por não estar nessa por vingança ou algo do tipo. Por não ter aquela veia de “malvadão”, o anti-herói.

      E acredito que Man of Steel é um ótimo filme por buscar referências maiores sobre ele em seus próprios quadrinhos, por mostrá-lo como alguém que está em uma jornada de auto conhecimento em meio a pessoas com as quais ele se parece e até pensa de forma parecida por ser essencialmente humano, mas que ao mesmo tempo são tão diferentes dele… o que faz dele um cara solitário. Acredito que esse é outro ponto que o torna interessante, não só nesse filme, mas tabém em seu material base.

  7. Acho que muitos pontos são interessante e verdadeiros, porém a maioria é rechada de um pouco de “fanboysimo” … o flme eh fraco de roteiro e tem sim os furos em casos como jor-el, lois etc mas na critica nao consigo perceber se o autor gostou ou nao do filme no final das contas …