Hitchcock e os primórdios do 3D – Disque M Para Matar
Quando se fala de Alfred Hitchcock, sempre se prossegue as palavras: Mestre do Suspense, Psicose e Pássaros. Claro que não sou negligente o suficiente para falar que apenas EU tenho clareza sobre a dimensão das obras desse diretor e de sua relevância para a arte de se fazer cinema. De fato, penso que Hitchcock, está muito bem imortalizado, e se tenho que por algum motivo uma crítica é em relação à supervalorização de uns, em contrataste ao enclausuramento de outros em curtas palavras, que tentam minimamente – e ai está o problema – significar alguém.
Seria impossível descrever aqui, toda a dimensão deste diretor e sua reverberação na história do cinema, porém, já aviso a vocês – caros leitores. Assim começo minha empreitada de enaltecer a figura de Alfred Hitchcock pela lente que um diretor sempre deve ser observado – a saber, a lente de sua câmera. De início basta que se comece com o dado de que este diretor realizou 58 filmes (longas e curtas) em sua filmografia, contingentes em 50 anos de carreira, o que dá uma média de 1,16 filmes por ano de 1926 a 1976.
Focando o filme, em 1954 o diretor já havia realizado alguns de seus maiores sucessos de público – índice sempre relevante para ele, pois estava sempre atento às reverberações de suas produções no público -, a saber, O Inquilino (1927), Chantagem e Confissão, (1929), Os 39 Degraus (1935), A Dama Oculta (1938), Rebecca, a Mulher Inesquecível (1940) e Festim Diabólico (1948). Disque M para Matar foi 39º filme do diretor e a solução do sufoco provocado pelo mal compreendido A Tortura do Silêncio (1953).
Enquanto preparava outro roteiro, que não o agradava, Hitchcock soube que a Warner Bros. havia comprado os direitos da bem-sucedida peça homônima ao filme. O diretor completou as filmagens em 36 dias, com uma nova tecnologia que estava fazendo muito sucesso naquela época – o assim chamado, 3D. Pois é, caros pipoqueiros, em 1954 já existia a tecnologia 3D – inclusive da mesma maneira como é feita hoje, com duas câmeras acopladas em profundidades diferente para trazer a ilusão de profundidade – mas, diferente do que entendemos hoje em dia como 3D, a tecnologia passava apenas de um recurso muito bem utilizado pelo diretor. Para bem utilizar as câmeras com profundidade, Hitchcock mandou instalar um fosso no estúdio para que as câmeras ficassem o mais perto o possível do chão, maximizando a ilusão.
O filme em si é bastante fiel à estrutura teatral proposta pelo enredo, de maneira que 98% do filme se ambienta em um mesmo cenário – salvo duas exceções de curta duração. Hitchcock afirmara durante as gravações que o sucesso da peça devia-se exatamente no quesito de se localizar em toda sua duração em um mesmo cômodo, além de afirmar que o próprio sentir-se-ia confortavelmente bem em gravar um filme inteiro rodado em uma cabine telefônica.
O enredo trata de um casal, que não está em seus melhores dias, já que Margot está a se relacionar com outro homem, Mark. Tony o marido de Margot, já sabe do adultério de sua esposa e decide por contratar um ex-colega de colégio para assassiná-la no que seria o plano perfeito. Trata-se de um enredo muito simples e bastante óbvio se não fosse pela genial direção, o que reafirma a atitude ativa dos cineastas frente à sua produção – tenham certeza, caros amigos, um bom cineasta não tem limites, consegue transformar qualquer ideia bizarra inter-espacial em um clássico.

A abertura do filme é genial. Acontece em menos de um minuto, sem utilizar-se de nenhum dialogo se quer, e consegue ao mesmo tempo nos situar precisamente na história – o que está por trás dela – e nos semear a posição de cúmplices extremamente necessária para a captura do espectador no enredo. Em menos de um minuto, vemos Tony e Margot, vemos a notícia de que Mark está em Londres no jornal, vemos Mark desembarcar e por fim vemos Margot e Mark beijando-se. Pronto, estamos à par de tudo o que é necessário para acompanhar a trama, e ainda sabemos do adultério e não sabemos o quanto Tony sabe – ficamos na perfeita posição de culpados. Sem desferir nenhuma palavra, Hitchcock expressa um discurso que atinge o espectador em seu âmago humano sofrível – a saber, o sentimento de culpa.
Em seguida o diretor nos “torce” e posiciona Tony como herói. Saímos da cumplicidade com o casal adultério para a cumplicidade e compaixão ao personagem traído, que é extremamente bem construído em sua simpatia e encanto em contra posição à Mark que é “convencido” demais. Margot no início é estonteante, e assim como todos na trama, sabemos que seriamos capazes de qualquer loucura por esta mulher incrível.
A estonteante habilidade de subverter o enredo de Hitchcock tem neste filme sua maestria. Lógico o enredo tem suas reviravoltas, mas todo o impacto produzido no espectador é provocado pela habilidade do diretor. A transformação do figurino de Margot acompanha a espécie de sentimento invocado por suas ações. Primeiro, vestida de branco é inocente, quando está a se relacionar com Mark é vermelho apaixonado e sedutor. Margot vai perdendo sua cor, chegando ao final do filme com alguns farrapos cinza. Tony é incrivelmente inteligente, e nos faz ficarmos frustrados quando o plano não dá certo, assim, a cada vez que a “bola de neve” cresce nos afastamos cada vez do personagem. O que nos leva a nos aproximarmos de Mark e sua incrível habilidade roteirística e do prestativo inspetor de polícia.

Hitchcock também tem seu mérito na abordagem que ofereceu à tecnologia 3D. O tipo de filmagem ressalta a ilusão – o que poderia ser um erro quando o filme que está a rodar baseia-se no critério realidade para se sustentar. Assim o diretor utiliza a profundidade para carimbar a naturalidade do cenário. Parece que estamos a espiar os atores quando um vaso se prostra em nossa visão. Não enxergamos no escuro e sempre há obstáculos há nossa visão – o que salienta a decisão do diretor de sempre reservar algo “por de trás” das projeções. Até o fim do filme não podemos “enxergar” exatamente o que aconteceu.
O inovador diretor fora quem trouxe o termo suspense para o cinema, além disso, foi quem adicionou as questões familiares aos enredos de terror. Também sempre soube trabalhar o humor, o que faz de Disque M para Matar, um filme leve e até divertido em alguns momentos. Instiga-nos, em nossa capacidade de tentar se livrar da culpa – o que de tão angustiante torna-se cômico na nossa natureza defensiva. Ainda nos frustra na nossa incapacidade racional, pois a obsessão por se safar de nossa culpa acaba por nos incriminar – Tony está tão obsecado por seu plano que dá cordas demais no relógio, fazendo-o parar, levando o plano a dar errado. Também é Tony que por mais duas vezes tenta limpar sua “ficha” levando a se entregar – oferecendo a “chave” para a resposta da trama.
É um ótimo filme e recomendo para qualquer pessoa, inclusive para compra, pois vale a penar ver e rever. Digno de nota a famosa aparição do diretor em seus filmes, desta vez acontece na fotografia de Tony no colégio.









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Muito bom o texto! Hitchcock é mestre dos mestres! Parabéns ao autor e ao pipoca. Que venham mais textos sobre os mestres e clássicos!
Abraços!
Valeu André!!!
Gosto bastante dos “mestres”!!
Seguirei o conselho cara!!!
Obrigado!!
Não é de se espantar a reputação cinematográfica e o fino toque que imprimia às plateias ao conceber suas obras audiovisuais quando se fala de Hitchcock como cineasta. Creio que para mim ficou subentendido em seu texto que nem ao menos uma enciclopédia daria conta de expor as minúcias, a grandeza do cinema hithcockiano, uma vez que ele se desvela pelos detalhes que são colocados a todo instante e se inscrevem como elementos pertinentes e relevantes ao que é mostrado e ao que se oculta temporariamente. Tal ação permite que o espectador não seja apenas um observador passivo, contudo vá juntando as peças, tal como um típico detetive que consegue resolver o caso ao final. Há este diálogo presente entre os filmes e a plateia que poucos diretores conseguiram traduzir em uma experiência que transcenda a duração do filme. Ainda acrescentando algumas pequenas informações, cineastas franceses do grupo da Nouvelle Vague consideram Hitchcock como um dos pioneiros a construir um verdadeiro cinema de autor, o qual seria emulado por esta geração de cineastas e que enocntra ressonâncias até mesmo nos dia de hoje. Por fim, gostaria de agradecer pelo prazer de mais uma vez ter a oportunidade de revisitar outra obra-prima do cinema, porque, em tempos em que 3D envolve pagar mais para entrar no cinema e assistir a filmes que pouco ou nada contribuem para esta tecnologia ser mais do que um mero passatempo, é bom poder olhar para o passado e refletir que não se precisa abraçar as inovações técnicas para se contar uma boa história.
Luiz,
Sempre me empolgo muito com seus comentários! São combustíveis para novas publicações com certeza!
Não tenho o que acrescentar!
Obrigado!