Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte II – A Fantástica Saga Chega ao Fim

Colaboradora: Marília Toledo

J. K. Rowling conseguiu algo fantástico. Criou uma saga que parte de conceitos e arquétipos absolutamente recorrentes em toda a literatura infanto-juvenil, fez um apanhado de seres e lendas que são conhecidos e explorados há séculos por diversos escritores e concebeu uma trama que se pauta basicamente pelos dois binômios mais explorados de todas as histórias até hoje: bem versus mal e vida versus morte. Até aí você pode pensar “bom, então ela não fez nada demais”… Pois é, acho que é justamente aí que mora a grande genialidade da coisa. Rowling foi capaz de juntar tudo isso e transformar em algo inédito, criando uma história que foi capaz de apaixonar fãs desde a infância, acompanhando-os por sua adolescência e conduzindo-os à sua maturidade juntamente com seu fim.

A saga de Harry Potter foi muitas vezes criticada por ser apenas uma releitura de outras tantas obras, de fato, qualquer pessoa que se julgue entendida em literatura costuma afirmar que a história é mal escrita, é ingênua e infantil demais pra ser levada a sério e que Rowling não fez nada além de uma salada de referências míticas, como tantos outros já fizeram. Eu suspeito que essas pessoas nunca tenham lido um livro sequer, não que eu ache que J. K. Rowling mereça um Nobel de literatura, mas ela foi muito competente em criar uma saga que faz qualquer criança de 10 anos devorar um calhamaço de mais de 300 páginas (ou até 700) em poucos dias, sem nem parar pra comer direito. Na verdade Harry Potter parte mesmo de elementos manjados: o fascínio pela magia, a empatia por um personagem órfão e solitário, mas que sabe o valor de uma amizade e da coragem, a curiosidade de conhecer um mundo secreto que tem desde sapos de chocolate até dragões da Romênia. Mas apesar de partir de bases comuns das histórias infantis sua qualidade está justamente na complexa elaboração de detalhes e regras deste mundo secreto e de sempre mostrar que não existe ninguém completamente bom ou completamente mal (à exceção de Voldemort, esse é ruim dos pés à cabeça), todos os personagens têm seus conflitos.

A história se mostrou tão cativante que em meados de 1997, antes sequer de o livro ser publicado, de alguma forma o produtor inglês David Heyman conseguiu uma cópia manuscrita do primeiro livro e decidiu que aquilo deveria virar um filme. Algumas semanas depois a Warner já topou filmar Harry Potter e a Pedra Filosofal, antes mesmo de saber que os livros seriam um fenômeno literário. Os produtores tiveram uma grande sorte e uma grande visão de investir naquilo que posteriormente envolveria mais de 2000 profissionais da indústria cinematográfica britânica e teria um faturamento gigantesco.

Os primeiros filmes, Pedra Filosofal (2001) e Câmara Secreta (2002) foram fundamentais em sua tarefa de introduzir o público ao mundo mágico, tendo a difícil tarefa de ilustrar as histórias que os fãs conheciam de cor e salteado, mas também de cativar o público que não havia lido. Dirigidos por Chris Columbus isto foi relativamente bem feito: embora quase nenhum detalhe tenha passado batido e cenários, seres e magias fossem primorosamente realizados (com Rowling palpitando a todo o momento) os filmes eram claramente infantis, em parte pela própria fase da vida do protagonista, em parte pela direção de um profissional calejado em produções infantis como Esqueceram de Mim e Uma Babá Quase Perfeita.

No terceiro filme, com Alfonso Cuarón, as coisas começaram a ficar mais interessantes.  O diretor mexicano introduziu aspectos mais sóbrios nos filmes, deixando os dementadores, o Sinistro e a ameaça de Sirius Black darem o tom, fazendo com que a própria fotografia de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban fosse bastante distinta dos filmes anteriores, tendência esta que permaneceu nos filmes seguintes. Mike Newell foi o responsável pelo quarto filme de saga e também fez um bom trabalho de adaptação e a partir do quinto filme, Harry Potter e a Ordem da Fênix, temos David Yates como diretor, permanecendo até o final e tendo um trabalho muito consistente e competente ao transpor para a tela as histórias mais complexas e sombrias da saga, nas quais o protagonista se torna cada vez mais revoltado e confuso, nuances que Yates conseguiu transmitir sem tornar Harry um adolescente chato.

Se formos fazer um panorama geral da série é inevitável traçar um paralelo entre os livros e os filmes. Em primeiro lugar, há a triste, porém inevitável, exclusão de alguns ótimos trechos da história. Em Harry Potter e a Pedra Filosofal perde-se o sensacional desafio de lógica proposto por Snape para impedir a chegada à Pedra, em a Câmara Secreta, falta a festa de aniversário de morte de Nick Quase Sem Cabeça, no terceiro filme faz muita falta a história de quem eram os Marotos donos do Mapa. Além disso, não são mostradas a fundo (nem poderiam ser por uma questão de tempo) as relações entre Harry e Sirius ou Dobby, o que faz com que as aparições e mortes destes personagens sejam menos dramáticas, afinal de contas quem só assiste os filmes fica se perguntando “porque raios o Harry está chorando tanto por causa desse elfo morto?”.

Outro grande problema dos filmes são os protagonistas, Daniel, Rupert e Emma são atores fraquinhos, o Harry dos filmes é muito bisonho e fofinho perto do adolescente puto-da-vida-porque-todo-mundo-que-eu-gosto-morre dos livros. Emma Watson já admitiu que quando pedem pra ela representar que está brava ela tende a chorar porque não consegue (!) e por isso mesmo sua Hermione não demonstra toda a iniciativa que a personagem tem. Rupert Grint (Rony Weasley) cumpre seu papel de alívio cômico e melhora com o passar dos anos (assim como Daniel Radcliffe que melhorou bastante) sendo que o pior do elenco mirim é certamente Tom Felton, com sua eterna cara de que está sentindo um cheiro estranho, e os mais engraçados são os gêmeos Phelps no papel dos Weasley. Em compensação todo o resto do elenco é muito bom, não há o que criticar nas atuações de Robbie Coltrane, Alan Rickman (o melhor de todos certamente), Maggie Smith, Richard Harris e Michael Gambon, Gary Oldman e Ralph Fiennes, só para citar alguns, um verdadeiro dream-team do cinema britânico.

Alguns filmes pecam por grandes falhas no roteiro, como em Harry Potter e o Enigma do Príncipe (2009), que esquece de explicar um monte de coisas e todo mundo que não leu os livros fica se perguntando como é que o Harry sabe quais são as Horcruxes, por que elas são aqueles objetos e porque diabos o Harry nem tentou salvar o Dumbledore no final (ou você acha que ele ia ficar parado só vendo o que estavam fazendo com o velhinho?).

Certamente o pior problema que os filmes apresenta é por tratarem, em duas horas e meia, de eventos ocorridos em cerca de um ano, o que faz com que pareça incompreensível o fato de três adolescentes se tornarem experts o suficiente para derrotar uma dúzia de comensais da morte. A verdade é que no livro as coisas não acontecem exatamente da mesma maneira do cinema e os protagonistas têm muita sorte e correm muito pra conseguir escapar, mas, além disso, é mostrado o desenvolvimento de cada um deles e dos novos feitiços que aprendem ao longo do ano escolar, então não é de uma hora para outra que eles saem por aí desarmando caras maus.

Bom, agora falemos diretamente do final da saga! As Relíquias da Morte: Parte II foi um ótimo desfecho para a história, beneficiado pela sábia decisão de dividir o filme em duas partes, desta forma pouca coisa ficou de fora e as adaptações feitas na história foram, em minha opinião, extremamente necessárias e felizes. Sem querer dar spoiler pra ninguém, mas todo mundo já deve ter visto e estava no cartaz do filme, a grande sequência final se passa em Hogwarts, em cenas que tiraram o fôlego dos fãs. Neville Longbotton e Minerva McGonagall protagonizam alguns momentos fantásticos e chegam a arrancar aplausos da platéia do cinema (fui numa sessão em que a molecada realmente vibrava com as cenas finais) e há recursos visuais que tornam a batalha tão sensacional quanto se pode imaginar que seja uma guerra entre bruxos.

Grande parte dos furos do sexto filme é resolvida ao se mostrar os “sonhos” de Harry dentro da cabeça de Voldemort e há flashbacks que esclarecem todas as dúvidas acerca dos acontecimentos ao longo da saga. O diretor aqui deixa claro seu lado racional e trata friamente alguns momentos importantes que deixariam qualquer espectador com os olhos marejados, entretanto em outras cenas sabe dosar o sentimentalismo sem ignorar o impacto que algumas revelações importantes sobre o passado e o futuro de alguns personagens têm sobre os fãs. Daniel Radcliffe amadureceu visivelmente e consegue transmitir ao público o sofrimento e a raiva de um menino fadado a viver fugindo ou lutando, Ralph Fiennes está assustador e descontrolado em seu papel de vilão, em uma interpretação que assusta criancinhas pequenas desavisadas que forem assistir ao filme.

Em geral o desfecho é ótimo, à exceção de uma ou outra coisa que parece se resolver “fácil demais”, da mesma forma que acontece em todos os filmes e não nos livros, ou seja, novamente é um problema de falta de tempo. A descoberta das Horcruxes ainda perdidas e a sua posterior destruição se dão de maneira bastante rápida, entretanto proporcionando sequências fantásticas de efeitos visuais do início ao fim do filme, tendo seu momento do ápice na batalha noturna de Hogwarts que acontece enquanto Harry ainda procura por um dos fragmentos de alma de Lord Voldemort.

Este filme está longe de ser um filme para crianças, não há jogos de quadribol alegres em dias ensolarados, não há mais fascínio dos personagens pela magia, tudo agora se resume a uma atmosfera dominada pelo fascismo de um deformado vilão, capaz de tudo para destruir o último vestígio de esperança que ameaça sua supremacia racial. É revelada finalmente qual é a grande relação entre Harry e Voldemort, qual é o motivo pelo qual eles estão unidos pelo destino, embora lutando por lados opostos e a grande temática deste filme, assim como de toda a saga, é a morte em si. Rowling criou uma história na qual temos um protagonista que desde a infância se vê cercado pela morte de quem ama, tentando lidar com suas perdas e querendo entender sua sina, ao passo que o antagonista deseja driblar a morte a qualquer preço, sendo capaz de mutilar sua alma em pequenos pedaços para permanecer vivo. A história trata também do poder que o medo e que as histórias têm sobre as pessoas e como um mero nome pode ser capaz de manter viva a lembrança de um período de terror.

É um filme que vale a pena ver, mesmo que você tenha preconceito e não tenha acompanhado direito a saga é bacana correr atrás e assistir desde o começo porque os filmes conseguem ser divertidos, fantásticos e dramáticos e as histórias abrem as portas de um universo extraordinário, cativando qualquer um com suas excentricidades. Será uma pena se despedir desta história que acompanhou milhares de jovens desde sua infância e há sempre a expectativa de que a autora volte a escrever e a cativar mais e mais leitores mirins.

Por isso, pegue sua caixa de feijõezinhos de todos os sabores, sua cerveja amanteigada e aparate já no cinema!

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  1. Eu gosto muito de HP, e ainda não vi o filme, mas aquela sensação de que tudo vai acabar… Eu já to até vendo. >.<

    Enfim, falando curto e grosso, o Daniel é um ator muito ruim, ele melhorou, mas era péssimo, agora é ruim. Não querendo ser xiita, mas francamente, o Rupert e a Emma ainda fazem um papel mediano (ele melhor que ela), mas eu nunca me conformei em quão ruim é o Daniel Radcliffe como ator.

    Parabéns pela seu texto Marília Toledo e desculpe qualquer coisa. ^^

  2. Excelente texto. Realmente muito bom. Eu adorei o desfecho da saga no último filme, embora sempre fica aquela sensação de que poderia ter sido um pouco melhor, mas ainda sim o longa consegue ser épico e bastante emocionante. O mais difícil será quando a ficha cair, isso provavelmente quando o filme sair de cartaz (e olha que nem me considero fã dessa franquia).

    Eu ainda vou atrás dos livros, li somente os três últimos que peguei emprestado.

  3. A sua resenha confirma a minha opiniào de que,quase sempre,o cinema é uma arte inferior e limitada quando comparado com a literatura.O ponto positivo da série,assim como a péssima Saga Crepùsculo,é o de incentivar os jovens à leitura.O negativo é que,cada vez mais,eles se acostumam às obras medìocres e acabam se tornando leitores idem.

  4. A franquia de filmes do Potter fora DEMAIS, mas com certeza recomendo os livros para quem gostou vai gostar ainda mais.
    Mas só tenho que dizer uma coisa: ESSE DRACO MALFOY É FEIO PRA CACETE.

  5. Adorei seu review. Você pôs em palavras todos os meus pensamentos.
    Concordei com tudo. Só acho que deveria ter uma menção da Helena Bonham Carter (Bellatrix Lestrange) que também é uma ótima atriz =D