Guerreiro – Crítica

Sim! Aparentemente bons filmes sobre lutadores nunca serão suficientes. O recente Guerreiro invade este respeitável panteão de vencedores, campeões e touros indomáveis sem ao menos pedir licença. Ele mete o pé na porta e encara a todos nos olhos!

A história gira em torno dos irmãos Brendan e Tommy Conlon, que foram torturados pela vida e separados por diferentes caminhos. Quando jovens, ambos foram treinados como lutadores pelo pai, um ex-soldado e alcoólatra que, muitos anos depois, é odiado pelos filhos e esquecido por quase todos. Em recuperação, ele busca dia após dia se reerguer e demonstrar que ainda pode oferecer algo mais do que a violência e ignorância do passado.

O irmão Brendan parece ser o mais estabilizado, só que o cargo de professor de física não paga bem (fato!), por isso sua mulher precisa trabalhar em dois empregos (como ele), e mesmo assim – em tempos de crise – não é o suficiente. O cara precisa de dinheiro, ou será mais um na enorme e crescente família americana de sem tetos. Voltar a lutar se torna o único caminho, principalmente diante da possibilidade de ganhar um gordo prêmio no mais fodásticos torneio de MMA (o torneio apresentado não existe de verdade, no entanto, se faz muito real!). Sendo novamente treinado pelo famoso amigo Frank Campana, Brendan entrará na competição como o azarão, ou seja, aquele que facilmente pode surpreender.

Do outro lado temos Tommy, este sim um individuo perturbado, mas ironicamente o guerreiro perfeito. Depois de acompanhar a deterioração da saúde da mãe, serviu o exército americano, onde salvou vidas anonimamente (simples assim!). Quando retorna para iniciar um novo contato com o pai, começa a treinar em uma antiga academia que frequentava. Lá, dá uma bela surra em um lutador de renome, sendo filmado e se tornando viral no YouTube. Ele também se inscreve para o torneio, começa a treinar sério com o pai e chega para a competição envolto por ares lendários.

O diretor Gavin O’Connor (que aparece no filme como organizador do evento) sabe do que está falando. Sua curta carreira passa por caminhos diferentes, como a obra Livre Para Amar – que ganhou prêmios em Sundance e no Globo de Ouro de 1999 – e o conhecido Desafio no Gelo, da Disney. Já como produtor ele se envolveu de corpo e alma com o excelente documentário da HBO The Smashing Machine, que tinha como foco a vida do lutador aposentado Mark Kerr, campeão por duas vezes do World Vale Tudo Championship e do UFC. Kerr, logo no início de sua carreira, venceu uma luta com a mão quebrada, uma verdadeira inspiração.

Com este background de respeito – sobre uma modalidade de luta nunca antes abordada de forma enfática em Hollywood – Connor dá vida a um roteiro exemplar, que se destaca pela carga dramática aplicada, pelo sentimento pulsante de coragem e redenção, pela construção de heróis, mitos, guerreiros com histórias incríveis, de atitudes emblemáticas. É a glorificação do homem comum, daquele que prossegue na vida lutando violentamente, nunca desistindo. Existe um clima de “Bloodsport” em Guerreiro, a fantasia do torneio máximo de luta, até mesmo um vilão russo está presente, sendo o próprio terror soviético no octógono. Mas novamente, é o drama arrasador que une a todos com perfeição, o realismo documental de Connor capta tudo de maneira brutal e intensa, mesmo a história sendo incrivelmente improvável, ele consegue quebrar exageros com facilidade, pois os personagens principais são muito bons, e o universo está retratado com fidelidade e respeito.

O destaque entre os atores é Nick Nolte, que faz o ex-alcoólotra Paddy. Nolte já sofreu com os males da bebida e entrega aqui humildade acima de tudo. Verdadeiramente comovente. Sua interpretação foi indicada ao Oscar 2012 na categoria “ator coadjuvante”. E depois de O Reino Animal, Joel Edgerton emplaca outro contundente papel, agora como Brendan Conlon. Seu professor de física é o mais puro espírito da determinação, suas chances são mínimas, mas sua motivação é insuperável. Destacando o valor da luta no solo (ponto forte de nosso Jiu-Jitsu), ele se torna uma espécie de super herói, honrado e inquebrável (na verdade é ele quem quebra). Já Tom Hardy (de Bronson) novamente surge insano. Tommy é vilão. Apesar de existir um ser humano lá dentro, ele faz de tudo para mantê-lo preso, enterrado. Seu animalismo explosivo na hora do combate é contagiante, sua história épica é de longe a melhor, sua personalidade como lutador é marcante e invejável. Ele é o anti-herói americano perfeito. Sua motivação parece ser vingança, mas existe muita honra por trás de seus socos.

Apesar de ligeiramente óbvio em alguns momentos, o roteiro de Guerreiro é definitivamente seu ponto forte, pois mesmo seguindo por caminhos já trilhados, mesmo não sendo possível fugir muito desta espécie de esteriótipo da luta, sua instigante história consegue surpreender e principalmente emocionar. Além de prestar uma homenagem aos filmes do gênero, a obra ressalta o valor das Mixed Martial Arts, ajudando também a consolidar o esporte como algo digno e de caráter extremamente popular nos dias de hoje. Vemos uma competição apresentada honestamente, lutada por profissionais e conquistada por guerreiros. Toda a produção envolvida, os narradores e comentaristas, tudo respira veracidade.

E não têm jeito, filmes de luta quando bem conduzidos são sempre emocionantes… pois no final esta é a forma perfeita de um ser mostrar superioridade sobre o outro, de maneira justa e sem hipocrisias. E ao som da nona de Beethoven tudo termina. Simplesmente imperdível.

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