Guerra Mundial Z – Crítica

Bem, quero começar dizendo que Guerra Mundial Z é um filme bem bacana. Justifica ser o filme de terror mais caro da história? Não. Mas justifica o ingresso. É uma boa diversão, que oscila entre o terror e a aventura, de ritmo frenético, direção competente e com a presença magnética de Brad Pitt – sem dúvida o trunfo do filme.

Pra quem não sabe, o longa é baseado no livro homônimo de Max Brooks, um dos grandes nomes da cena zumbi norte-americana, e um dos responsáveis por este subgênero ter alcançado seu status atual nos últimos anos. Só que, para prevenir os incautos, o livro de Brooks não é um romance linear como sugere a história do filme; ele é uma compilação de “casos” que, juntos, constituem um todo coeso e constroem esse universo apocalíptico. É um recurso antigo, imortalizado no clássico Drácula, de Bram Stoker, que precisa ser muito bem feito para funcionar – ou a leitura corre o risco de se tornar maçante. No caso de Brooks, o que o salvou foi sua inventividade. Ao criar relatos baseados em testemunhos de sobreviventes, memorandos do governo, e-mails, relatórios oficiais, etc., ele conseguiu tratar essa pandemia de forma global (o que nunca tinha sido feito antes; pelo menos não com esta escala e competência) e prender a atenção do leitor. Assim, o que o filme fez foi conduzir uma história linear que seja reconhecível para o público telespectador, de forma muito parecida com a maneira com que o longa Eu, Robô adaptou os contos clássicos de Isimov: ele se mantém fiel à regra, mas toma algumas liberdades.

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As filmagens foram conturbadas, isso também todo mundo sabe. O filme atrasou, tiveram brigas nos bastidores e o final teve de ser totalmente recriado. Aparentemente, na primeira versão, Pitt se transformava em uma máquina de matar zumbis. Talvez até funcionasse como entretenimento, mas por mais que o final atual seja um anticlímax, ele é corajoso e funcional. Não vamos falar de “finais”, mas deixar claro que o custo do filme cresceu bastante por causa desses problemas, o que era um risco enorme.

Filmes de terror costumam ser rentáveis justamente por custarem pouco. Não é um público amplo e esse gênero de filme raramente chega em bilheterias na casa dos $100 milhões. Por isso, todo mundo vislumbrava que os $190 milhões gastos na produção de Guerra Mundial Z levariam muita gente à falência. Ledo engano – o que confirma a força da onda dos zumbis. O filme estreou acima das expectativas nos EUA e continua fazendo boa carreira no mundo (tanto que uma sequência já recebeu sinal verde). E o mérito, além de Pitt, é do próprio filme, que realmente funciona.

Se Guerra Mundial Z tem um problema, é que a sua primeira meia-hora é tão tensa e opressora, tão frenética e assustadora, que todo o resto do filme não consegue superá-la. O diretor Marc Foster (responsável por 007 – Quantum of Solace, o mais fraco da nova safra) não perde muito tempo e vai direto ao ponto. De forma parecida com Madrugada dos Mortos, ele usa os créditos para situar o telespectador de que algo está acontecendo, misturando imagens reais com outras falsas, mas que parecem reais, e trechos de noticiários que vão coordenando o andamento dos fatos da história. Claro, ele não faz isso com a mesma agressividade que Zack Snyder fez em Madrugada…, mas funciona bem. A seguir, ele apresenta a família de Gerry Lane (Brad Pitt), brevemente, em uma cena cotidiana. Vemos que Gerry ama a sua família e blá-blá-blá, mas o diálogo serve mesmo para sua filha fazer um comentário sobre o antigo serviço do pai. Não fica muito claro o que ele era ou fazia, só o que percebemos é que ele era fodão.

Corta para a cena do engarrafamento mostrada no trailer. O filme deve estar com uns cinco ou dez minutos apenas, mas aí o bicho começa a pegar. E a sequência da tomada da cidade é algo nunca visto antes em nenhum filme de terror. Realmente a casa cai e o espectador gruda na poltrona. É evidente que o diretor Foster não consegue manter esse ritmo depois e as cenas seguintes carecem de uma mão mais firme. O desembarque na Coreia poderia ter sido bem mais tenso (noite, chuva pesada, lugar hostil, nada disso consegue contribuir para que o coração dispare) e as cenas em Israel são visualmente arrebatadoras (algumas também aparecem no trailer), mas, embora jamais tenhamos visto zumbis tão raivosos no cinema, tudo passa a sensação de uma grande aventura – e não de um filme de terror. Guerra Mundial Z nas mãos de um diretor capaz de construir melhor o suspense e a tensão, teria sido de trancar o cofre de qualquer um. Da forma como foi feito, vira diversão.

O que não é ruim. Não há porque não sair satisfeito, já que o filme não finge ser o que não é (um dos principais problemas, só para citar um exemplo recente, de Mama, um filme que é “vendido” como terror, mas que na verdade é uma fábula de fantasia).

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A sequência final em que Pitt precisa invadir a Ala B de uma instalação poderia ter sido mais poderosa em termos de tensão, mas ela acaba fornecendo uma solução adequada – embora como eu já tenha dito, anticlimática – para o longa. É aqui que temos chance de ver os zumbis mais de perto e por isso, algumas críticas foram levantadas (com razão). O filme não se decide se trata as criaturas como mortos-vivos ou infectados. Para os fãs desse subgênero, parece que o diretor fica meio em cima do muro (algo que talvez o público em geral não sinta). Foster não se decide como fizeram Zack Snyder, no já citado Madrugada dos Mortos, ou Danny Boyle, em Extermínio. Assim, não sabemos muito bem como definir essa ameaça e, nesse caso, fica bem claro que não foi uma nova abordagem das criaturas, feita de caso pensado. No início temos a sensação de que se trata de um filme de contaminação – o que o próprio filme tenta desmentir ao longo da sua segunda metade inteira. Se parar para pensar muito, o resultado é um tropeço.

Mas tudo bem, para qualquer abordagem inapropriada do diretor ou falha de roteiro, tem sempre Brad Pitt para compensar. Sim, pois ele é a alma do filme e, sem sua presença, Guerra Mundial Z não funcionaria.

Pitt é um caso a ser estudado. Ele faz parte da constelação de astros de Hollywood do mais alto escalão, contudo, não é um deles. Ele nunca teve megassucessos de bilheteria (tanto que Guerra Mundial Z acabou de se tornar a sua melhor abertura, superando Sr. e Sra. Smith), sempre ficou com um pé no cinema independente, estrelou muitos longas bons que não fizeram sucesso (Inimigo Oculto, Sete Anos no Tibete, Encontro Marcado, etc.) e, quando foi apontado como sex symbol, bem no início da carreira, após os papéis em Lendas da Paixão, Entrevista com o Vampiro e a ponta em Thelma & Louise que o lançou, tratou de apagar essa imagem ao fazer filmes cascas-grossas como Seven – os Sete Pecados Capitais, Clube da Luta e Os 12 Macacos. E ele fez tudo isso mantendo sua reputação intacta e ascendendo cada vez mais dentro da esfera de Hollywood. O que teria destruído a carreira de outros, tornou-se sua força.

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Nos anos 1990, a lógica do cinema dizia que atores eram a força motriz das bilheterias. Nomes como Bruce Willis, Sylvester Stallone, Tom Hanks, Jim Carrey, Tom Cruise, entre outros, eram garantia de cifras altas. Na entrada dos anos 2000, essa lógica se inverteu e tivemos o início da era das grandes franquias, em que não necessariamente o ator atraía o público, mas sim um contexto maior. Isso foi um assassino de carreiras para muitos superastros dos anos 1990, mas não para Pitt, que jamais fez parte dessa lógica. Ele dá credibilidade ao filme, mesmo quando todos os demais personagens são subaproveitados (o que inclui sua família, os militares, as pessoas que o acompanham, etc.).

No frigir dos ovos, o saldo é positivo. Um grande êxito para o subgênero zumbi e um passo importante para filmes de terror. Mal sabia Romero o tamanho do gigante que ele criaria…

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  1. Bom, fui assistir ele ontem e gostei do que vi. É um filme de zumbi bastante tenso.

    Mas por ser um filme de zumbi, faltou um pouco de sangue (gore) ali. Como na cena (inspirada em Walking Dead?!) em que o braço da mulher é cortado para evitar a contaminação dela.

    Não gostei muito de alguns zumbis que eles mostraram de perto também não. Como o doutor lá do laboratório que não parava de ranger os dentes bizarramente, em uma cena que era para ser séria.

    Mas no geral, achei o filme muito bom. Graças ao Brad Pitt sem dúvida alguma. O cara é muito carismático e leva o filme nas costas facilmente. E a sacada para “acabar” com os zumbis, foi muito foda.

  2. Gostei de sua análise. Realmente, o filme é um meio-termo entre terror e aventura. O fato de não haver muito sangue para mim é ponto positivo, pois o filme não precisou apelar para se tornar interessante. Na verdade, as apresentações da película na mídia não sugerem ser um filme de horror, muito menos de zumbis. Foi por isso que o assisti, pois detesto esse gênero. Existem cenas que, de maneira muito sutil, lembram citações bíblicas ( apesar de nunca aparecer o nome de Deus nas falas). Jerusalém sitiada recorda o Apocalipse. Quando o personagem de Pitt descobre que pessoas doentes são imunes vai de encontro a 2Cor 12,10 – Quando me sinto fraco, então é que sou forte- e na cena que ele precisa deixar a família para combater a pandemia, veio em minha mente Jesus que diz que todo aquele que deixar a família por Ele receberá 100 vezes mais(Mt19,29)

  3. O filme é bem feito, no entanto peca quando dá ao Zumbi, criatura extremamente agressiva e pouco inteligente, a incrível capacidade de identificar que uma pessoa está infectada, sem que a mesma apresente qualquer sinal de que está doente! Isso é quase paranormal! dificilmente um zumbi (morto-vivo) se preocuparia em avaliar as condições de saúde de suas vítimas. De qualquer modo o filme cumpri sua missão de entretenimento.

    • Bom, pela sua análise, percebe que você saca pouco de filmes e do gênero. Acontece que o zumbi pode “farejar” o semelhante, seja pelo cheiro ou algum sentido extra, para isso, conferir o ‘Guia de Sobrevivência a Zumbis”, bem como ‘The Walking Dead”, em que o Rick consegue se disfarçar entre os zumbis quando usou sangue e carne contaminada em suas roupas. Fosse assim, instinto por instinto, os zumbis viveriam a se devorar e não haveria história.

      • MAs eu pensei isso também. Sei que poderia citar farejamento, mas os bichos passam correndo do lado do Brad. Daria tempo de avaliar alguma coisa? Também os zumbis paracem mais fortes e rápidos que os humanos saudaveis.

  4. Não é um filme ruim, tudo muito dinâmico, muita ação e um sentido diferente do que pensamos sobre zumbies. Porém, o filme foi muito bem recomendado a mim e por eu esperar muito mais acabei me decepcionando um pouco.

  5. Humanizaram Brad Pitt enquanto endemoninharam os zumbis.
    A história foi bem construída em cima dos relatos do livro e a crítica à super população como pano de fundo colocam os filmes trash de zumbis numa super produção e com um astro no comando, e Pitt está muito bem. O filme não dá espaço para heroísmo forçado e torna o caos global, e os motivos que levam o protagonista de um lugar a outro são convincentes. Pena que com o orçamento alto e os problemas na produção (o final foi todo refilmado) deixaram o filme com a classificação etária baixa, é lastimável ver um filme de horror sem sangue e cenas pesadas de impacto físico, optaram pela sugestão e tensão nas correrias. Todo o escopo exagerado e zumbis em computação gráfica deixam o filme diferente de grandes clássicos do gênero como os filmes do Romero, Snyder e Boyle. E coitado do Matthew Fox, depois das mudanças seu personagem que era essencial na outra versão teve que se contentar com uma ponta no resgate em cinema do prédio. O saldo é positivo e abre novas portas para grandes produções do gênero, e o caminho apontado no final de Guerra Mundial Z vão deixar as continuações ainda mais interessantes.

    3#5

  6. Geralmente não gosto muito de filmes zumbis…mas esse em particular…amei,efeitos espetaculares…