UA-22867678-1
Banner Drive

Drive – Crítica

É muito interessante acompanhar a ascensão de um exímio cineasta. Depois de executar uma respeitável trilogia intitulada Pusher, o diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn chamou a atenção de todos com a insana história real de Bronson – o presidiário mais infame e brutal da Inglaterra –, e em O Guerreiro Silencioso (Valhalla Rising) explorou de forma assustadora a vida de homens perdidos em uma Europa montanhosa, que beirava o início das cruzadas e chafurdava na violência e ignorância. Uma realidade certamente distante.

Mas em Drive, o diretor atinge um nível de perfeccionismo que em suas outras obras não alcançou. Ele encontra o tempo certo, apresenta a trilha perfeita, escolha somente as palavras exatas e entrega de presente uma fita memorável, que o posiciona ao lado de grandes diretores de nossa geração. Sem exageros.

O filme conta a história de um jovem e habilidoso motorista que trabalha como dublê em cenas de velocidade. Mas, em suas horas vagas, exerce outro tipo de serviço onde a perícia ao volante é igualmente importante. Cercado por interesses escusos da máfia local, o piloto acaba pisando em alguns calos, fato que desengatilha uma cadeia de eventos que pode prejudicar todas as pessoas ao seu redor, inclusive sua nova amiga Irene, cujo filho Benicio tem pouco mais de 10 anos.

Como todo trabalho bem sucedido, podemos perceber em Drive o carinho, respeito e, principalmente, a atenção que o diretor tem aos mínimos detalhes de sua execução. A criatividade então surge como diferencial: cenas inteligentes, elaboradas de forma poética, iluminação fantástica e edição ao melhor estilo europeu. E o que falar da emblemática trilha sonora? Ela consegue fazer com que a sonoridade dos anos 80 emocione novamente, mesmo com suas linhas extremamente melosas, sintetizadas e irreais.

Refn apresenta traços de genialidade que obviamente são frutos da influência de mestres como Martin Scorsese, Tarantino, Kubrick e do conterrâneo Lars Von Trier. Na verdade, o slow motion utilizado pelo diretor, em certos momentos, nos remete as atuais obras de Trier, como Melancolia e o Anticristo.

O roteiro de Hossein Amini adapta o elogiado clássico noir homônimo de James Sallis. A forma mecânica com que o motorista se desenvolve no livro é transcrita de maneira exemplar no longa, fazendo do personagem um ser complexo e contraditório, altamente articulado mas, ao mesmo tempo, desprovido de emoções e pensamentos. Ele parece evitar se questionar sobre o que acontece ao seu redor, se focando somente em agir instintivamente, como se fosse apenas uma extensão de seu carro, um herói cheio de falhas e estranhezas.

“Much later, as he sat with his back against an inside wall of a Motel 6 just north of Phoenix, watching the pool of blood lap toward him, Driver would wonder whether he had made a terrible mistake. Later still, of course, there’d be no doubt. But for now Driver is, as they say, in the moment.”
- Trecho do livro Drive, de James Sallis.

E no papel do motorista sem nome temos Ryan Gosling. Sendo comprovadamente um bom ator, em Drive ele encarna, principalmente, o espírito de um cara eficiente em tudo que faz, com raciocínio rápido e apto a realizar atos de violência descomunal. Basicamente nenhuma informação de seu passado é oferecida, e poucas frases são proferidas pelo mesmo durante todo a projeção – poucas, mas contundentes. Lembrando em certos momentos um ser robótico, e em outras o Stallone “Cobra”, podemos até fazer um link do motorista com heróis de games desprovidos de alma, como Niko Belic, da franquia GTA (Rockstar), ou mesmo enxergar semelhanças do longa com a série Driver (Ubisoft).

Servindo como par romântico (pouco convencional) temos Carey Mulligan e sua adorável Irene. A atriz apresenta extrema sensibilidade com a personagem, fazendo dela o retrato perfeito da solidão e tristeza. No papel do vilão Nino, o impagável Ron Perlman chama atenção e entrega um dos melhores trabalhos de sua vida. Já Albert Brooks, como Bernie Rose, constrói um mafioso diferente de tudo que você já viu (sua interpretação lhe rendeu uma justa indicação ao Globo de Ouro). E fechando o time, temos ainda o mecânico Shannon, interpretado pelo eficiente Bryan Cranston, famoso pela série de TV Breaking Bad.

No final, Drive se mostra um neo-noir contemplativo. Nicolas Winding Refn explora a natureza humana de forma investigativa, transformando um olhar em mil palavras e valorizando estes momentos de maneira única. A obra consegue intercalar perfeitamente momentos de puro ódio com a beleza triste de um amor platônico, resumindo em apenas um beijo todo este significado. Refn merecidamente ganhou Cannes de melhor direção por Drive e deixou todos bem animados com o que pode vir a seguir. Filme obrigatório.

Divulgue nossa postagem

Sobre o autor

Ronaldo D ArcadiaJornalista guerrilheiro, entusiasta de games ligeiramente sangrentos. Já teve banda de Heavy Metal, hoje toca Beatles no violão. Ama a sétima arte de forma visceral, prefere dramas reais - pois acha que a vida em certos momentos é incrível demais para ser verdade. Já escreveu sobre cinema, música e jogos em alguns lugares, hoje é editor do site Crítica Daquele Filme... e precisa fazer mais exercícios.Ver todas as publicações de Ronaldo D Arcadia →

Deixe um comentário

  1. André ChapettaAndré Chapetta07-05-2012

    Belíssimo filme. Belíssima crítica.

  2. LuanLuan07-10-2012

    acc parceria?
    http://www.space-of-torrent.com
    media 1500 visualizações diarias
    add meu link e me avize
    msn:[email protected]

  3. Olha, vi o filme pela crítica.

    As vezes não gosto de filmes que os críticos gostam. Mas esse, sei lá, é diferente, parece um clássico antigo, tem um ar especial, é bem legal!!

    Um filme diferente, que quando vc entra nele, fica bem legal. Esse filme foi realmente bom.

  4. Ricardo correaRicardo correa02-19-2013

    Um filme cult desde nascido, com planos e camera sempre nos lugares algo improvaveis e sempre corretos. A atmosfera de claustrofobia e certeza de explosao crescentes entremeadas por tomadas languidas como tentando (e conseguindo!) captar com exatidao os sentimentos mudos dos personagens podem nao agradar a muitos ou dar a impressao que o filme acontece numa especie de universo paralelo , um tanto surreal.Mas trata-se apenas de uma escolha nao obvia de abordagem e penso muito bem colocada.Um filme digno, envolvente e fluido alem de muito bem orquestrado e interpretado!