Django, Não Siegfried. Comentário, Não crítica – Crítica

Aproveite a visita e leia também o texto do Alexandre Callari sobre o Django aqui: Django – Livre.

Se você está aqui por causa do Tarantino, também irá curtir este videocast do Pipoca: Videocast 134 – Vingança

Django – Unchained (2012), o novo filme de Tarantino está recebendo uma repercussão polêmica. Parte do palanque critica a questão racista do filme, já que a personagem de Jamie Foxx se trataria de um negro “esbranquiçado”, ou seja, um branco (no sentido que nos apresenta o que é ser branco – não submisso) em corpo de negro. Estes – os que presam pela parcimônia que amenize o impacto de temas e cenas explícitas para a manutenção de um ideal politicamente correto – afirmam que Djando é gratuito, desnecessário e divertido, mas fraco. Sangue em excesso somado a uma confusa edição que atrapalha o desenvolvimento do roteiro.

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Outra parte do palanque se trata daquela que ambicionava por muito tempo o retorno de Tarantino aos cinemas desde Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds – 2009), e vem criticando a não manutenção do diretor de seu “estilo”. A “reclamação” não pauta-se no saudosismo por gangsters, shotguns e metralhadoras, mas sim do desenvolvimento dinâmico que proporcionava um delay entre os acontecimentos do filme e a compreensão do espectador sobre o que está acontecendo na trama. Os diálogos aleatórios, compridos e afiados, que seguravam a trama, mas aceleravam o enredo, como uma ponte, rumo ao próximo tiroteio sanguinolento. Estes seguidores estranharam o ritmo lento e ostensivo de Django, com as novas filmagens panorâmicas e desenvolvimento continuo dos personagens – já que nas outras obras do diretor, seus personagens são o que são, e desenvolvem-se muito pouco durante o enredo.

Neste palanque há também aqueles que apesar de terem eventualmente assistido Kill Bill e Pulp Fiction não são muito ligados no que é ou deve ser um filme do Tarantino. Estes se divertem durante o filme, se entediam, não entendem muito bem por que as cabeças explodem com tanta frequência, e por fim sentem certo impacto que precisa de segunda reflexão para ser nomeado. Estas são as figuras mais interessantes deste palanque em certo aspecto. Não no sentido do famoso chavão: “ignorância é uma benção”, por não serem ignorantes. Muito menos pela crença de que exista nestas pessoas uma “sabedoria do senso comum” – ingenuidade – que os intelectuais e os “Nerds” haveriam perdido por aí. Aqui emerge a impressão de que este filme é simplesmente forte.

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Django está mais próximo de Bastardos Inglórios do que de Cães de Aluguel, Jackie Brown e Pulp Fiction. Vingança e violência ainda são os temas centrais do filme e Tarantino mantem-se fiel ao seu próprio estilo. Porém Django destoasse da filmografia de Tarantino no que concerne ao humor. Que fique claro há muito humor nos diálogos entre Jules e Vincent Vega, ou no sotaque amarrado do tenente Aldo Reine. Tarantino sempre abusa na violência do humor negro em diálogos e atuações complexos. Mas há algo diferente em Django, pois seu humor chega ser burlesco – “clownico”. Freud afirmava que o humor enquanto artifício da linguagem é uma das vias de acesso ao inconsciente – individual, social e cultural -, pois os conteúdos presentes em uma piada passaram pelos processos psíquicos de “desfiguração” do conteúdo original, assim como nos sonhos. Isto significa apenas que ao invés de sermos claros e concisos com diretas duras e ásperas para nossos interlocutores, podemos “disfarçar” o que seria mal recebido pela censura externa com humor e falar mesmo assim.

Django precisou desta distorção. Quando liberto, Django é oferecida a ele a escolha de qual roupa usar em sua primeira “caçada”. O “ex-escravo” decide assim usar uma roupa vitoriana azul cintilante, espalhafatosa e com o detalhe de um sapatinho de fivela. Esta cena no filme é muito cômica, há muito humor, porém há algo de “rir do bobo” nesta cena. A expressão adunca de Jamie Foxx empresta para o quadro uma rigidez que escancara a surrealidade da cena. Django “escolhe” apresentar-se desta maneira, por tanto, podemos rir, entretanto se o personagem fosse obrigado a usar uma roupa como essa, seria humilhante e a cena não seria cômica. A graça depende da liberdade?

O filme é tem como tema de fundo a escravidão, mas por que precisou de tanta roupagem cômica em comparação com Bastardos Inglórios, que se passa durante a Segunda Guerra Mundial – tema tão pesado quanto à escravidão? Parece que o tema escravidão volta na atualidade como emergente de alguma questão que tenta se formular para o homem contemporâneo. Esta indicação já fora salientada por aqueles sensíveis à representação do que se trata a nova onda explosiva de sucesso dos zumbis, mais uma vez. Outros menos sensíveis poderiam perceber a tendência no lançamento e tema escolhido para o filme Lincoln (2012), ou então no tema escolhido para o novo jogo Assassin’s Creed III – sendo que deveria estar mais do que claro que as empresas de jogos eletrônicos podem ser consideradas como os grandes novos indicadores de tendências. Ou na “crise” americana – só para os americanos – chamada: Obama.

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Zumbis, escravidão e Tarantino. O diretor de Grindhouse (2007) insiste em nos afirmar durante o filme que Django trata-se da versão negra de Siegfried, herói mítico nórdico personagem central da ópera “O Anel dos Nibelungos”. Tarantino inclusive faz algumas reverências ao herói nórdico com constantes cenas de Jamie Foxx filmado de costas com grandes cicatrizes expostas, indicando a vulnerabilidade do herói negro, assim como Siegfried, que no mito, após banhar-se no sangue do dragão Fafnir, torna sua própria pele invulnerável. Exceção apenas de um ponto em suas costas em que o sangue não tocou a pele, por haver uma folha colada no suor do herói. Django também é banhado em sangue, sangue branco, após realizar uma chacina contra seus inimigos. Tarantino faz as referências, pois há até uma Brunhilde. Mas como se sabe, “O Anel dos Nibelungos” é uma tragédia Nórdica – recheada de humor vulgar (natural deste tipo de mitologia) e a história de Siegfried e Brunhilde acaba fatalmente em pessimismo. Siegfried é traído e assassinado, Brunhilde se joga a cavalo dentro da pira funerária de seu amado e também morre – aí está a tragédia do mito: Siegfried à salva de um anel em chamas, mas ambos morrem consumidos pelo fogo.

A afirmação de Marx que os fatos e personagens sempre ocorrem duas vezes na história à primeira vez como tragédia e a segunda como farsa – na realidade o início da afirmação é de Hegel e Marx a completou – também é válida para a fantasia e cinema. Django somente poderia ser o retorno em farsa de Siegfried, o que se mostra como verdade no filme, posto que Django – Livre não é uma tragédia. Por que então não se propor que Django é a rencenação da história de outro herói: Neil, o americano desavisado e vulnerável que vai para o Haiti em busca de ascensão social no filme Zumbi Branco (White Zombie, 1962). Temos Madeleine, a esposa de Neil que é transformada por Legendre aristocrata europeu em zumbi/escrava-sexual. Em Django Calvin Candie é um aristocrata que se faz (farsa) de europeu dono da escrava Brunhilde. Até Dr. Shultz têm sua contraparte em Zumbi Branco em Dr. Bruner, o estrangeiro que auxilia Neil a reconquistar sua esposa das mãos do malévolo aristocrata utilizando o seu dom do “saber”. A relação entre Dr.Shultz e Django é a costureira do herói que será Django. Ao contrário do que insinua Tarantino, Jamie Foxx interpreta com muita precisão um herói da razão. Um verdadeiro cavaleiro negro – fora de Gothan. Odisseu revivido, mas sem uma Odisseia. O que traz algum sentido e alguma direção para a proposta de Django – Livre é a cena pós-créditos – que particularmente, não vi – em que há um indício de continuação, ou não?

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Tarantino é malicioso e insinua que Django tem uma espécie de “corpo fechado”, quando após o tiroteio dentro da sede de Candie em uma tomada de câmera lenta nos mostra que duas balas não atravessaram o corpo de Django, parando em seu peito. Uma cena bem subliminar, que indica algo de Siegfried no cavaleiro negro. Eis que presenciamos um mistério sobre o que Tarantino quis passar ao espectador – e não se enganem, Tarantino não dá nó em pingo d’água. Será que a pista é o vislumbre de Candie sobre o Hércules negro?

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  1. Sem sacanagem… não entendi porra nenhuma kkkkkkkkk

    Tudo bem que eu ainda não vi o filme. Vo assistir, e depois eu volto pra ler de novo,

  2. Não entendi porra nenhuma (2)

    Também não assisti o filme
    mas vou assistir
    apesar de não ser fã do Tarantino.

  3. Por favor, independente se o filme é ruim ou bom, gostaria de saber quem é a mulher que aparece em algumas cenas (só aparecem os olhos), se eu não me engano em 2 ou 3 cenas do filme, por exemplo, sua primeira cena foi a dos cahorros “comendo” o escravo (…), no final do filme tem uma cena tbm que intriga essa mulher olhando a foto de duas crianças… Qual relevancia dela na história? Será que terá continuação?

    • Oi Anne,

      Fiquei com a impressão dela ser uma personagem intrigante não desenvolvida. Tal como a Gogo Yurabi de Kill Bill.

      O uso dela foi realmente estranho no filme, o que levou a muita gente acreditar que ela se trata de um easteregg retroativo que terá link com outro filme do Tarantino ou em um possível Django 2.

      Valeu Pelo comentário.

      Abraço

    • Segundo dizem, essa personagem era muito melhor desenvolvida no roteiro original, mas sua história foi cortada da versão final, apesar de o personagem permanecer no filme. Algumas cenas chegaram a ser feitas explicando um pouco mais desse personagem, mas quando Tarantino percebeu que seu filme já estava com 2 horas e 40 minutos, resolveu descartar todas as cenas envolvendo a personagem. Diz a lenda que mais de 40 min. ficaram na sala de edição.

      Mas, pelo menos, já foi anunciada uma hq baseada no roteiro original, que muito provavelmente vai explorar mais essa personagem, e esses 40 min. descartados na última versão do filme.

  4. Não conhecia a lenda de Siegfried, nem o filme White Zombie. Talvez se o filme pendesse para a tragédia ele se tornasse até melhor, talvez… Vou baixar o zombie branco de 1932.

    • J Fernandes

      Não se arrependerá de assistir o zumbi branco!… Alias, após vê-lo volte ao site e procure meu texto sobre ele, me diga o que achou!

      abraço!