Deixe-Me Entrar – Crítica

Deixe-Me Entrar
(Let Me In – EUA – 2010)
Direção: Matt Reeves
Roteiro: Matt Reeves, baseado no roteiro original de John Ajvide Lindqvis.
Elenco: Kodi Smit-McPhee, Chloe Moretz, Richard Jenkins, Cara Buono, Elias Koteas.

Via de regra, remakes de filmes de língua estrangeira produzidos pouco tempo após o lançamento do original acabam por pecar em qualidade e conteúdo em relação ao produto genuíno. Há casos em que tentam (e fracassam) inovar na história – o ótimo argentino Nove Rainhas gerou o horrível 171 – e outros em que procura-se manter exatamente a mesma estrutura, o que o torna a experiência vazia e repetitiva – [REC] e Quarentena. Sendo assim, era de se esperar que o remake de Deixe Ela Entrar, longa sueco de 2008 que conta a história de amor entre um pré-adolescente e uma vampira mirim, caísse num desses erros clássicos das adaptações sem legenda. Porém o mais estranho é que por mais que isso aconteça, acaba sendo o seu maior trunfo.

Mantendo a mesma estrutura do anterior – apenas realocando geograficamente -, temos aqui a gélida paisagem de Los Alamos, Novo México, aonde o jovem Owen (Kodi Smit-McPhee), um garoto deslocado e solitário, é constantemente agredido pelos colegas de classe. É então que ele conhece Abby (Chloe Moretz, um talento nato e estrela em ascensão), sua nova e estranha vizinha. À medida que o tempo passa, a amizade dos dois vai ficando mais forte, sem que Owen desconfie que Abby é na verdade uma vampira, que alimenta-se do sangue das vítimas que seu guardião (Richard Jenkins) consegue para ela. Ao mesmo tempo, um policial (Elias Koteas) passa a investigar as estranhas mortes que estão ocorrendo no local.

Sem se preocupar em atrair um público maior para a nova incursão (atitude corajosa e digna de respeito), o diretor e roteirista Matt Reeves (Coverfield) mantém a abordagem intimista do longa sueco (focando-se na relação dos personagens, ao invés da ação), o que torna o seu filme menos atraente ao padrões hollywoodianos. As poucas vezes em que decide inovar é onde Reeves comete seus maiores erros, como ao mostrar a garota se transformando fisicamente quando bebe sangue; ou ao fazer uso de desnecessários efeitos visuais durante os ataques da mesma, ignorando aquilo que foi uma das maiores qualidades do original: a sutileza. E se, ao mostrar uma foto da vampira com o seu mentor ainda jovem, o diretor quisesse criar uma tridimensionalidade na relação do casal – o que poderia indicar um futuro nada glamuroso para os dois -, isso logo é abandonado para que o roteiro se mantenha fiel ao material adaptado.

E é nessa fidelidade que Reeves sente-se a vontade para mostrar o seu talento. O cineasta amplia aqui a solidão de Owen, investindo em takes do menino sozinho em quadro e mostrando sua mãe sempre fora de foco, uma sombra sem rosto, enquanto o pai só aparece – por telefone – para piorar ainda mais a situação do garoto, justamente quando o mesmo procurava conselhos e conforto. Ao mesmo tempo, Matt investe em outra relação paternal que não havia sido tão bem explorada no anterior: a de Abby e seu guardião. Se, a principio, vemos Jenkins como uma pessoa cansada e amargurado pela culpa, aos poucos, o ator consegue demonstrar, de maneira sutil, sua preocupação com a “filha” – dando conselhos, mostrando-se preocupado; pequenos atos que culminam na tocante despedida dos dois.

Ainda que peque pela já mencionada falta de originalidade (e não pela falta de criatividade), Deixe-me Entrar merece destaque pelo talento dos envolvidos e a qualidade do produto que, ao contrário dos demais, não é só mais um caça-níquel de verão, mas uma história de amor impossível, contada de maneira sensível, bela e emocionante. E isso funciona em qualquer língua.

Trailer:

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  1. Cara, porque simplesmente não comenta o filme original, que é uma verdadeira pérola, ao invés de ficar inventando subterfúgios para a cretinice de um estúdio e de um cineasta que fazem remake de um filme que foi lançado há tão pouco tempo. Crtiticas como essa validam a atitude meramente comercial, eclusivista e xenófoba do cinema americano em não permitir o sucesso comercial de filmes de outros países. O crítico, como intelectual, deve exercer atividade mental mais profunda do que meramente aceitar uma babaquice dessas. Neste caso, seria relegar o filme americano ao lugar que lhe pertence, o lixo do cinema, para onde merecem ir todos os oportunistas.

  2. como de costume o programa não passa na radio  e vcs não avisam a 1/2 Dz de fãs de vcs. obrigado pipoca

  3. Pessoal do pipoca faz uns dias que vocês não postam nada , estou preocupado , mandem noticias.

    • Olá, André! Nosso site, por algum motivo bizarro, foi movido para a quarentena do Uolhost pois alegaram que ele está consumindo o servidor deles. Enfim, estamos correndo atrás pra voltar a  normalidade o mais rápido possível. Temos textos e colunas sensacionais para postar nos próximos dias. Obrigado pela preocupação. Abs

  4. Bom filme, o original sueco. Quanto ao remake é apenas um remake, não achei nada demais…

  5. Cara, o filme original é um baita filme, um filmaço. Esse sim, merecia uma crítica por aqui.

    Assim que soube que fariam um remake do mesmo, fique abismado. Porque, assim como disseram nos comentários, esse filme é uma pérola e não haveria motivos para um remake dele, senão o oportunismo comercial.

    No seu texto, mesmo que não admintindo, você comprova que fizeram um mero remake. O resultado ficou muito bom? Claro, o original é ótimo.

    • O original é bem melhor mas o remake (apesar de dispensável) tambem não é ruim.
      Obs: Relação de pai????
      O tal guardiao dela nada mais é que um antigo owen na vida dela não se esqueçam a Abby é uma vampira de verdade e não um vampiro de crepusculo.
      Ela vai usar o Owen até ele ficar velho e depois vai arrumar outro “amiguinho” uns 50 anos depois.
      Não existe relação de pai isso é viagem.

  6. Adorei o original!
    Ainda não vi o remake, mas é apenas um remake…

    Acho muito fofinho o “casal” do original!