Das Telas para os Quadrinhos

É bastante comum matérias que falam a respeito de filmes que foram inspirados em HQs, principalmente nos últimos tempos, em que isso tornou-se um subgênero bastante aclamado no cinema e na televisão; contudo raramente vemos alguém falando sobre quadrinhos que fizeram o caminho inverso, ou seja, nasceram originalmente em outra linguagem e foram mais tarde adaptados para a nona arte.

Isso, diga-se de passagem, é algo que sempre ocorreu. A Ebal, por exemplo, teve diversas revistas baseadas em seriados de sucesso, como a coleção Quem Foi?, que na década de 60 apresentou histórias de O Agente da U.N.C.L.E e Missão Impossível, entre outras. Exemplos famosos também incluem uma série longa do simpático collie, Lassie (que durou 78 edições, entre 1956 e 1962) e outra bastante curta com apenas 7 volumes, em 1975. O famoso pastor alemão Rin Tin Tin se deu ainda melhor, com 3 séries publicadas (sendo a primeira e de maior sucesso entre 1956 e 1962 (69 edições) e diversos almanaques.

O famoso seriado Bonanza foi outro que também ganhou os quadrinhos, porém antes de ser lançado pela Ebal (com relativo sucesso), apareceu nas bancas brasileiras pela editora O Cruzeiro entre 1967 e 1968, numa série que durou apenas 7 edições. Caso mais bizarro é o do cantor Roy Rogers, que acabou estrelando mais de cem filmes, uma longa série de televisão e transformou a si próprio em uma rentável franquia. A Ebal publicou quatro séries do personagem, sendo que a primeira durou 100 edições, entre 1952 e 1960. Ele também teve aparições menos significativas em outras revistas da editora e em publicações da RGE.

Na década de 70, o material que começou a ser produzido com base nos seriados de sucesso sofreu uma grande melhora em sua qualidade, principalmente com a entrada de grande editoras com a Marvel na jogada. A Casa das Ideias produziu, por exemplo, uma série sensacional baseada em um dos mais bem sucedidos seriados televisivos da época, Planeta dos Macacos. As histórias chegaram ao Brasil por meio da Bloch, que as lançou em revista própria entre 1975 e 1976 (17 edições) e um especial. A editora também trouxe para o Brasil O Homem de Seis Milhões de Dólares (também conhecida como O Homem Biônico), cujo seriado de enorme sucesso era por sua vez baseado no livro Cyborg, de Martin Caidin. A revista teve apenas 8 edições e foi descontinuada em 1978. No ano seguinte, a Ebal publicou 6 números de um almanaque no qual o Homem Biônico dividia as páginas com a protagonista de outra série famosa, A Mulher Biônica (recentemente repaginada para a TV, numa empreita que infelizmente naufragou). A publicação foi convenientemente chamada de Os Biônicos.

Também em 1978, a RGE tentou emplacar outra série produzida pela Marvel, O Homem do Fundo do Mar. Infelizmente, apesar do bom nível das aventuras, apenas dois almanaques foram lançados. O espião mais famoso da história, 007, também já foi publicado em diversas ocasiões, sendo a mais recente um belo álbum da editora Opera Graphica que adapta O Homem da Pistola de Ouro. Mas o que os fãs curtem mesmo são as capas canastronas estreladas por Sean Connery na série que a RGElançou na década de 60. Pouco tempo depois, a Ebal também lançou a Coleção 007 (4 edições) e a editora Saber também publicou 6 volumes com a criação seminal de Ian Fleming, com pouco sucesso.

Mas talvez a mais bem sucedida adaptação das telas para os quadrinhos seja Star Wars. A sensacional saga de George Lucas já foi continuada, recontada e adaptada para os quadrinhos em diversas ocasiões, mesmo muitos anos antes do diretor anunciar o lançamento da segunda trilogia. Star Wars começou a ser produzida também pela Marvel e no Brasil ela foi lançada aperiodicamente na revista O Incrível Hulk, da editora Abril, tendo estreado na edição #25. O argumento das histórias iniciais era da lenda Archie Goodwin, que começou adaptando O Império Contra Ataca e depois seguiu com material inédito de altíssimo nível. Mas essa não foi a primeira adaptação da série, pois o filme Star Wars já havia sido transposto para os quadrinhos pela própria Marvel quando do momento de seu lançamento, com texto de Roy Thomas e arte de Howard Chaykin. Essa edição foi lançado no Brasil pela Bloch, em formato gigante.

Não menos espetacular foi a estreia de Indiana Jones (no Brasil em Almanaque do Capitão América #74), o arqueólogo mais famoso de todos os tempos, numa aventura escrita e desenhada por John Byrne – então no auge de sua forma. A revista foi bem recebida e teve uma longa duração.

Ao longo dos anos, muito material de qualidade foi produzido, incluindo boas histórias de Arquivo X (trazido ao Brasil pela Myhtos), Jornada nas Estrelas (publicado por uma penca de editoras diferentes e com uma série muito boa lançada pela Abril que – pasmem – na década de 90 chegou a vender mais que o Batman), Hellraiser (histórias baseadas nos personagens do filme, publicadas pela Abril e depois Brainstore), Angel (sério, a HQ é boa, lançada pela Mythos), e mais recentemente Alias e Buffy (ambas da Panini).

Nem de perto esta lista está completa – inclusive por que a maior parte de tudo que já foi produzido jamais chegou ao Brasil, como as boas aventuras de Xena – A Princesa Guerreira – mas ao menos vale para nos lembrar da boa integração que quadrinhos sempre tiveram com diferentes linguagens e o tanto que eles já beberam em outras fontes, num processo que agora, vem sendo revertido.

 

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  1. Boa. Inclusive, muitos personagens aclamados que muitos pensam ter saído dos quadrinhos se originaram em outras mídias, como Conan, Os 3 Mosqueteiros, entre outros. O interessante é justamente curtir as histórias em suas diversas mídias, seja em livros, quadrinhos, cinema, música.. tudo é bem vindo.