Dança com Samurais

O longa O Último Samurai é um filme que se leva a sério, e portanto deve ser julgado como tal. A imprensa yanke o apelidou de “o filme do Oscar de Tom Cruise”. É de se supor que obras feitas para agradar a academia de artes e ciências cinematográficas norte-americana sejam tecnicamente bem realizados e academicamente bem comportados. O Último Samurai é a duas coisas. Contudo, é também de se esperar que filmes que almejem ganhar o Oscar sejam artisticamente marcantes, que tenham seus elementos dramáticos bem equilibrados, que sejam melhores no todo do que nas partes. Infelizmente, O Último Samurai não é nada disto. Este longa é talvez o mais supervalorizado, pueril e previsível dos últimos tempos. Enquanto obra-de-arte é estéril, não diz nada.

Suas qualidades são todas técnicas. A fotografia é deslumbrante, a direção de arte é a melhor que o dinheiro pode pagar, mesmo as interpretações são competentes: Tom Cruise já provou ser um ator acima da média, não excelente, mas com certeza bom. Porém, justamente nos dois aspectos mais importantes para a realização de um filme, O Último Samurai peca pela pouca ousadia: a direção de Edward Zwick é excessivamente melosa e o roteiro é o obvio ululante. Parece uma daquelas novelas na qual se consegue facilmente prever o que vai acontecer com trinta capítulos de antecedência. As situações são esquemáticas, repetições de outras já vistas milhares de vezes. O que não seria um problema por si só. Afinal, como escreveu Umberto Eco, em um seu livro de ensaios Viagem na Irrealidade Cotidiana, Casablanca é um clássico e funciona na tela porque “dois clichês provocam o riso. Cem clichês comovem”. Porém, O Último Samurai exagerou na dose. É uma coleção de clichês mal costurados.

Acima de tudo trata-se da tentativa de reproduzir o sucesso de um outro filme, não por acaso vencedor de uma penca de Oscar: Dança com Lobos. As linhas gerais são as mesmas. O espírito é o mesmo. Até o personagem principal, de certo modo, é o mesmo. Senão vejamos. Ambos contam a história de um oficial da Guerra de Secessão com instintos alto-destrutivos que decide ir para o fim do mundo (a fronteira americana ou o Japão) para fugir de uma civilização que o condecorou como herói, mas na qual não se encaixa. Em seu alto exílio entra em contato com uma cultura milenar que inicialmente considera inferior, bárbara (a cultura indígena ou a japonesa), mas que lentamente o conquista por suas perspectivas de justiça, amizade, honra e comunhão com a natureza. Ganha o respeito dos novos amigos lutando ao lado deles em defesa de sua aldeia (contra os moicanos ou contra os ninjas). Salva da morte certa uma criança (o indiozinho que seria esmagado pelo búfalo ou o japonesinho perseguido pelo ninja). Por fim torna-se um membro honorário da tribo (vira um branco com nome indígena ou um branco com armadura de samurai) e acaba traindo seu antigo povo e companheiros de armas (a cavalaria em ambos os casos) lutando sua última batalha ao lado da cultura que adotou e lhe deu paz de espírito. Bingo!

O problema é que enquanto Kevin Costner deu a Dança com Lobos um caráter épico à moda antiga, narrando sua história com força e estilo, Zwick escolheu o caminho fácil do melodrama. Aliás, uma constante em sua carreira. Depois de fazer um belíssimo filme de guerra com final trágico, Tempo de Glória, o diretor se especializou em produzir dramalhões chorosos cujo único objetivo parece ser mostrar o quanto um determinado astro é bonito e fotogênico. Lendas da Paixão, uma espécie de álbum de fotografias de Brad Pitt, é isto. O Último Samurai, com Cruise no lugar do mais talentoso e alto Pitt, tem mais pretensões, mas não fica muito longe disto. Basta ver a personalidade dos protagonistas dos dois filmes. Mais bidimensionais, impossível. Ambos estão acima do bem e do mal de tão perfeitos que são. Ao contrário do “gente como a gente” tenente John Dunbar que Costner interpretou em Dança com Lobos, o capital samurai Nathan Algren de Cruise e o rebelde sem causa Tristan de Pitt, não passam pela enredo, o enredo passa por eles. A impressão que se tem é que tudo foi orquestrada para que seus destinos se cumprissem. Suas crises de amargura e melancolia ganham closes e mais closes, seus pesadelos são planejados para parecerem terríveis, suas angustias existenciais parecem ser mais importantes do que a morte dos figurantes que caem como moscas a seu redor. As vidas de todos os outros personagens só se justificam para que eles tenham com quem dialogar e mostrar para a platéia o quanto são seres humanos complexos. Até as incomodas trilhas sonoras dos dois longas parecem obedecer a seus caprichos. A cada um de seus atos a música ecoa como quem grita, “platéia, agora, se emocione”.

Em O Último Samurai cenas do tipo “Cruise / Algren mostra o quanto é fodão”, se sucedem em uma quantidade enorme. Algumas são constrangedoras. Basta lembrar de duas. Por exemplo, quando o capital americano exige que um soldado japonês em treinamento tente atirar nele, estando a menos de dez metros do alvo. Naquelas condições, mesmo com o atirador nervoso e despreparado, ser atingido era uma possibilidade bastante provável. Mais do que coragem ou instinto destrutivo, para mim esta atitude pareceu ser uma grande estupidez. Pior ainda é a seqüência em que um grupo de samurais avança contra um batalhão moderno e recebem uma saraivada de balas de uma bateria de metralhadoras. Todos são atingidos mortalmente, mesmo o samurai líder, Katsumoto, interpretado pelo ótimo Ken Watanabe. A exceção, óbvio, é Algren. Mesmo diante de uma chuva de balas, sendo um alvo preferencial, o personagem de Cruise só recebe dois tirinhos nos lugares de sempre: no ombro e na perna. Nada que o impeça de sobreviver e alcançar a redenção final que se espera de todo herói trágico que se presa. Redenção esta cuja natureza coroa o clichê maior do filme: acaba sendo na cama da esposa do samurai que Algren matou e acabou por herdar a armadura e o afeto dos filhos. A cena do beijo entre os dois é digna de vaias, de tão batida.

Contudo, não há nada no filme que supere a imbecilidade do encontro final do protagonista com o imperador japonês, quando em meio a uma reunião importantíssima Algren vai levar a espada de Katsumoto, morto em combate, ao fraco soberano do país. Primeiro porque é anacrônica historicamente. Aconteceu na verdade justamente o contrário. A Era do Xogunato acabou de fato, o Japão se abriu ao Ocidente e passou por um rápido processo de modernização. Não por acaso os kamikazes da Segunda Guerra Mundial eram em sua maioria pertencentes a famílias com tradição samurai. Não atacaram os aliados com espadas e sim com aviões, menos de setenta anos depois do período em que se passa o filme. Em segundo lugar o tal imperador, com cara de “japa” da Praça é Nossa, tinha que esperar meio mundo morrer para tomar uma iniciativa, e justamente por influência de um bárbaro ocidental. Improvável.

O que é mais lamentável em O Último Samurai é seu maniqueísmo. Nele a cultura Ocidental é má, enquanto a Oriental é boa e ponto final. Em Dança com Lobos, Dunbar por mais envolvido que estivesse nunca deixou de ser um branco vivendo entre vermelhos, usando armas e roupas de brancos. Seu encantamento com o estilo de vida dos Sioux, não faz dele necessariamente um sioux. É mais um amigo, um aliado. Tanto que ao final do filme ele se vai da tribo,em fuga. Algren ao contrário torna-se, como se isso fosse possível, cem por cento samurai. Até se oferece para tirar sua própria vida, segundo a vontade do imperador. Ato extremo até mesmo para um samurai legitimo. Sabemos que nem mesmo o último xogum, chamado Tokugawa, cometeu o suicídio ritual, o seppuko, para defender sua honra na derrota. Preferiu pedir perdão ao monarca e ir viver sossegado fabricando bicicletas.

Em uma visão ainda mais aprofundada deste arquétipo do homem branco ocidental que encontra outra cultura e a abraça, temos o genial Lawrence da Arábia, de David Lean. Nele o protagonista desterrado, no caso o célebre arqueólogo, militar e escritor T. E. Lawrence, interpretado magnificamente por Peter O`toole, chega a ser declarado sheik honorário e historicamente de fato liderou tribos de beduínos contra os turcos, durante a Primeira Guerra Mundial, mas nunca deixou de se sentir superior diante dos árabes. Manteve sempre sua saudável empáfia britânica. Seu encantamento diante da grandiosidade do deserto não retirou, substituiu, simplesmente as lembranças de Oxford, onde estudou. Em resumo, Lawrence não se converteu ao islamismo, ao passo que não é difícil imaginar o cristão Algren orando para Buda, em posição de lótus, tentando alcançar o nirvana.

Enfim, ganhar fortunas desprestigiando a própria cultura é mesmo uma tradição de Hollywood. Nada de revolveres ao estilo cowboy, isto é “bad”. Costner já mostrou que o bom é atirar com o arco e flecha dos índios, Cruise que bacana mesmo é segurar as espadas japoneses, O`toole que não é tão ruim assim empunhar uma cimitarra. Acho que só falta mesmo se fazer um filme em que um americano melancólico com os destinos do capitalismo liberal entra em contato com os valorosos guerreiros talebans do Afeganistão e descubra que só se pode encontrar a paz vivendo como na Idade Média, sem música ou álcool, adorando Alá, combatendo os pagãos sem tomar banho ou fazer a barba e se apaixonando por uma mulher que nunca viu o rosto, porque ela usa uma burca. Pensando bem acho que este seria um filme baseado em uma história real. E o final é trágico.

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    • o filme é otimo o cenario é otimo a filosofia é otima embora anjam cliches ; isto nao desvaloriza o filme ; pois mostra um americano sem principios , sem esperanças sem motivos para lutar enconrando um motivo para viver; encontrando numa filosofia quase estinta ; um motivo para lutar e se tornar novamente um gerreiro. um servo ; qalguem que faça diferença no mundo moderno

  1. Muito bom! Ri litros com sua resenha, concordo plenamente! Odeio clichês, e esse filme é apenas uma enorme sequência deles, claro que, “tecnicamente” muito bem executado!

  2. Esse filme têm clichês, mas a vida é assim. No japão os EUA tinham chegado com uma frota lá e dito, “abram as portas, o comércio, ou vamos fazer isso na bala.”

    O Xogum, que coordenava o feudalismo japonês, junto com a casta dos Samurais, se viu forçado a renunciar o seu poder ao imperador, que era decorativo havia alguns séculos, pois ele se aliou aos EUA.

    E foi o Imperador que acabou com os samurais e o feudalismo e se abriu para o Capitalismo. No filme da para ver que os samurais não querem deixar de existir mas respeitam o imperador, e queriam morrer com honra para respeitar seu nome.

    Ta certo que na vida real não foi assim como eles terminaram, houve até rebeliões para voltar o sistema de casta feudal, mas mesmo assim, não foi romântico como no filme.

    O filme foi clichê. Poderia ter sido bem melhor. Mas achei legal pk contou um pouco da história do japão. Ótima Análise.

  3. Realmente depos que assistor o filme me lembrou muito dannça com lobos, pensei que so eu tinha notado isso

  4. o filme é otimo o cenario é otimo a filosofia é otima embora anjam cliches ; isto nao desvaloriza o filme ; pois mostra um americano sem principios , sem esperanças sem motivos para lutar enconrando um motivo para viver; encontrando numa filosofia quase estinta ; um motivo para lutar e se tornar novamente um gerreiro. um servo ; qalguem que faça diferença no mundo moderno