Conselho de Elrond, Sociedade do Anel e Grupos Centrados na Tarefa

Existe coisa mais polêmica do que falar de O Senhor dos Anéis ou Guerra nas Estrelas em um site, blog ou afim que tem como público alvo Nerds??? Galera muita calma nessa hora, vamos lembrar que temos uma sequencia vindo por aí e que cada vez mais começaram a falar sobre as obras de Tolkien de novo. O filme O Hobbit – uma Jornada Inesperada estreia no Brasil dia 14/12 e estamos todos ansiosos para voltar a Terra-Média. Assim, pensando em fazer um “esquenta” resolvi escreve esse texto para falar não necessariamente sobre O Hobbit, mas para dividir uma leitura psicológica sobre eventos do Senhor dos Anéis. Este texto, portanto, trabalhará com a teoria de grupos pensada pelo Psicanalista Argentino Pichon Rivière. Os grupos: Conselho de Elrond e Sociedade do Anel serão argumentados como representações interessantes de dinâmicas que ocorrem em grupos para a Psicanálise. Quem gostar do tema aproveite e visite o  Podcast 04 – Senhor dos Anéis das antigas e o recente Videocast 142 – RPG

Primeiro um pouco sobre o autor (mil perdões para aqueles que já conhecem sua biografia). J.R.R. Tolkien é atualmente uma das grandes referências da literatura fantástica no mundo. Escritor inglês nascido em 1892 ganhou destaque no cenário literário mundial quando publicou em 1937 o livro O Hobbit. O enredo consistia em uma aventura fantástica recheada de criaturas mitológicas como, por exemplo: Orcs, Elfos, Trolls, Magos, Anões, Dragões e Hobbits. A inspiração de Tolkien advinha da literatura nórdica e literatura inglesa, temas de Sociedades que o escritor frequentava – funcionavam como grupos de estudos universitários – sendo que um dos que mais ficou famoso foi a Coalbiters, grupo que contava com a participação de C. S. Lewis, criador da famosa epopeia As Crônicas de Nárnia.

As obras de Tolkien foram reconhecidas, principalmente nos anos 1960 como clássicos da literatura inglesa, principalmente por cumprirem o objetivo maior do escritor: Inventar uma literatura folclórico-mitológica inglesa – literatura essa que, segundo afirmavam as Sociedades de qual participava, praticamente não existia. A nonologia O Senhor dos Anéis (The Lord of The Rings, 1954-55) ganhou bastante destaque na cultura mundial, pois era constantemente referenciada em letra de músicas por bandas como Led Zeppelin e Blind Guardian. Porém, foi em 2001 que a obra de Tolkien alcançou o apogeu de seu sucesso, transformando-se em um ícone indispensável da cultura cult, através dos filmes homônimos dirigidos por Peter Jackson. Por tanto, se você está lendo isso e não faz ideia do que seja O Hobbit ou O Senhor dos Anéis, por favor, VÁ AGORA ASSISTIR OS FILMES E LER OS LIVROS, quando acabar volte e termine o texto.

Uma das coisas mais legais – dentre várias – que Tolkien inseriu em sua epopeia é sem dúvida o elemento que dá o nome da primeira parte da trilogia – inicialmente eram nove livros que foram copilados em três volumes. A Sociedade do Anel trata-se de um grupo que dá certo na perspectiva psicológica, pois estava centrado em sua tarefa. Para Pichon Rivière a eficiência de um grupo está em sua capacidade de manter-se focado na tarefa a que o grupo se propõe. Espera-se que o grupo desfoque e fique resistente frente à tarefa, mas para “dar certo” o grupo precisa sempre reencontrar o seu caminho para a centralidade na tarefa. Na história, a Sociedade do Anel inaugura-se no início do segundo livro em um evento chamado Conselho de Elrond, em um lugar paradisíaco chamado Valfenda. Lá se reuniram representantes de várias raças fantásticas: Anões, Elfos, Elfos da Floresta, Homens, Hobbits e Magos. Este conselho coordenado pelo anfitrião, Elrond tinha como objetivo discutir o destino do Um Anel – anel poderoso criado pelo senhor das trevas Sauron e que apenas pode ser controlado por seu dono. Então o que temos neste conselho é algo como uma reunião de guerra, em que um de seus integrantes está em posse da arma mais poderosa do exército inimigo, só que além de não conseguir utilizá-la, quanto mais o grupo mantêm a posse desta arma mais prejuízos ela traz para o grupo.

Na cena os integrantes do conselho sentam-se envolta de uma “mesa” onde está o anel. A tarefa deste grupo é o lidar com o Anel e é o que fazem, ou ao menos tentam, pois este anel exerce algum tipo de poder sobre a mente de quem o deseja, tal como o Anel dos Nibelungos da Ópera de Richard Wagner: O Anel dos Nibelungos. O anel é o representante do desejo em sua forma mais obscura. A vida em grupo traz a questão do manejamento dos desejos narcísicos, ou seja, pessoais em oposição ao desejo do grupo. A vida em sociedade não aceita que cada indivíduo faça o que bem entender de seus desejos, pelo contrário a vida em grupo exige a abdicação de certas regalias para que possamos viver bem organizados. Nietzsche exemplifica esta questão do grupo de maneira interessante, quando diz que somos “porcos-espinhos na neve”, ao mesmo tempo queremos ficar juntos para ter o acalento do grupo, mas se ficamos próximos demais nos espetamos. O Anel representa a sedução, o desejo de cada integrante do grupo, desejo este que os afasta da possibilidade de viver em uma horizontalidade com os demais integrantes do grupo. O Um Anel representa um vácuo de desejo que tende a todo o momento sugar o grupo para a autodestruição.

Desta maneira, temos um grupo e temos uma tarefa: pensar o destino do Anel. A horizontalidade deste grupo é a que todos estão ameaçados pelo inimigo Sauron, portanto, desejam destruí-lo. Mas o Anel tem o poder – e ele parece ter vida própria mesmo – de trazer à tona em cada discurso a verticalidade de cada sujeito a discursar. A fala de Elrond está pautada em sua necessidade de tirar o Anel de seu território. No caso, Elrond estava prestes a “deixar o mundo” junto com sua linhagem de Elfos, mas a presença do Anel em Valfenda o fez ter de atrasar sua partida. Após sua partida, a guerra com Sauron deixaria de ser seu problema e de seus familiares, pois há muito tempo atrás o próprio Elrond já havia estabelecido sua guerra contra o senhor sinistro.

Os Anões e os Elfos da floresta presentes no conselho mostram-se extremamente resistentes ao trabalho em conjunto, devido às históricas divergências políticas entre estas raças. Os homens são representados pelo personagem Boromir, que traz para questão detalhes sobre o front de batalha, nos limites entre o reino dos homens – Gondor – e o reino do Sauron – Mordor. O discurso de Boromir mostra-se como o mais egoísta do conselho, pois relata que o Anel deveria ser uma recompensa pelos anos de proteção oferecidos pelos homens que enfrentam diariamente as investidas de Sauron para dentro do território dos “aliados”. Este discurso egoísta aparece como disfarçado de benevolência perante aqueles que protegem a Terra-Média. Segundo Boromir, de posse do Anel o reino dos homens poderia acabar com o exército negro de uma vez por todas. As proposições de Boromir fazem com que todo o conselho entre em crise e comece um debate acalorado e desrespeitoso dentro da resistência frente à tarefa de decidir o destino do Anel. Cada um começa a falar dos motivos pessoais pelo qual deveria possuir o Anel, já que os outros não seriam dignos de tê-lo. A verticalidade e o narcisismo tomam os integrantes do conselho que entram em um momento de pré-tarefa, ou seja, evitam o duro e angustiante fardo de centrar o grupo na tarefa. Assim, o grupo fez-se massa e alienou-se no desejo do Anel de destruí-los.

A questão que se põe é que a única maneira de destruir o anel é leva-lo por dentro do reino de Sauron e jogá-lo no fogo onde foi inicialmente forjado – tarefa que ninguém deseja realizar, muito menos deixar outros realizarem. Frodo, um Hobbit, traz o grupo de volta para a tarefa quando diz: “Levarei o Anel […] embora não conheça o caminho.”. Frodo faz um traço importante no grupo para trazê-lo de volta a tarefa: “desverticaliza-se”, se coloca em uma posição de “não saber”. Abandona seu narcisismo e se incumbe da tarefa do grupo, não por acreditar ser o melhor para a missão e nem por pessoalmente precisar que a solução resolva-se, mas sim por saber que nada sabe. A posição de Frodo neste debate assemelha-se a de Sócrates em O Banquete de Platão. Quando o pensador é convocado a fazer seu elogio a Eros – o Amor, opta por trazer o discurso de outra pessoa no seu lugar, traz o saber de Diotima, uma mulher que havia sido negada no banquete, pois Sócrates “Sabe que nada sabe”. O Anel assim é o depósito de toda a angústia deste Conselho de Elrond. Mesmo assim, Frodo decide ser o portador da angústia do grupo – é o que Pichon chama de Porta-voz.

Uma ótima representação de um grupo centrado na tarefa como propõe Pichon Rivière é a Sociedade do Anel. Quando Frodo assume para si a tarefa de levar o Um Anel até a Montanha da Perdição, os companheiros do Conselho de Elrond decidem por acompanhá-lo. Legolas um Elfo da floresta, Gimli um Anão, Aragorn e Boromir Homens, Gandalf um mago e Sam, Merry e Pipin – Hobbits. No filme de Peter Jackson o momento de união desta comitiva mostra-se de maneira interessante. Aragorn oferece a Frodo sua espada, Legolas o arco, Gimli o machado e Boromir sua proteção (escudo). Há uma resignação de quem “são” e o que representam. Não se tratam mais de raças diferentes, mas sim de “meros instrumentos” que juntos favorecem a realização da tarefa. Assim, neste momento há uma atenuação da verticalização que os dominava no Conselho de Elrond e todos se identificam com o grupo na horizontalidade.

O grupo intitulado a Sociedade do Anel tem a tarefa de auxiliar Frodo em sua jornada para destruir o Anel. O êxito desta tarefa mostra-se como impossível, como o próprio Boromir afirma: “Ninguém simplesmente entra em Mordor”. De imediato o cumprimento da tarefa mostra-se impossível. Pichon indica a impossibilidade de manter-se o grupo centrado na tarefa. O que os mantém unidos como grupo? O que os faz manter-se focados em uma tarefa impossível? A proposta possível é a de que há um deslocamento da tarefa. A tarefa de destruir o anel passa a ser somente de Frodo, o que o torna completamente responsável por ela e o faz sofrer todo o peso desta demanda. A Sociedade do Anel assume assim a tarefa de auxiliar Frodo na realização de sua tarefa. O grupo reconhece assim o vazio existente na centralidade deste grupo, pois não há indicativo nenhum de que Frodo será bem sucedido, mas o grupo suporta esta angústia e confia no pequeno Hobbit. Aragorn e os outros dão um “salto” neste vazio, um salto de confiança que é o que mantém este grupo unido – mesmo estando a léguas de distância. O salto só torna-se possível a partir do momento em que se é “tecida” uma rede de vínculos afetivos no grupo. Esta rede oferece um suporte de segurança para o grupo, indicando que “tentaremos realizar esta tarefa juntos, caso falhemos, falharemos juntos” – assim o vínculo sempre é um ganho.

Boromir sucumbido à verticalidade de querer ajudar seus conterrâneos tenta tomar o Anel de Frodo, o que faz com o que o grupo sofra uma cisão e ocasiona a morte de Boromir. Ao tentar se apoderar do Anel o cavalheiro sacrifica os vínculos estabelecidos entre o grupo e a única maneira de retornar o grupo para a centralidade da tarefa – proteger o Frodo – é através do sacrifício do próprio narcisismo. A morte de Boromir é mais significativa ao grupo do que a sua própria presença, a ausência de um integrante traz de volta ao grupo a existência de um vazio como centralidade da Sociedade. O que parecia estar superado com o deslocamento de uma tarefa para outra, retorna em ato como fatalidade e exige dos integrantes um posicionamento ético frente à tarefa. Neste momento o grupo divide-se em três: Frodo e Sam dirigem-se para Mordor; Merry e Pipin são capturados e são levados para Isengard; e Aragorn, Legolas e Gimli decidem por salvar seus Merry e Pipin.

Inicialmente a opção de Aragorn e os outros pode indicar uma desistência da tarefa de proteger Frodo. Porém, as últimas palavras de Boromir indicam o que pauta a decisão de Aragorn. Boromir afirma em seu último suspiro: “Eu não consegui deixá-lo ir”. O grupo exige perdas, principalmente perdas severas aos pequenos narcisismos. Este ponto talvez seja o que mais atraia a atenção do grande público para estas histórias que contam sobre como os grandes grupos de aventureiros passam por suas desventuras nas relações interpessoais grupais. De Jasão e os Argonautas, Os Vingadores até o Big Brother Brasil a premissa é a mesma: assistir aos processos grupais de um lugar protegido e ser expectador de como os entraves entre o narcisismo e a união grupal se dão. É fascinante por que é extremamente familiar a qualquer pessoa – abdicar-se de suas vontades para uma boa convivência grupal para Freud é esta questão é universal.

Assim, Aragorn compreende que a melhor maneira de proteger Frodo, é separando-se dele. No enredo isso se dá por que Aragorn e os outros utilizam disto como um estratagema para atrair a atenção de Sauron – enquanto o inimigo preocupa-se com esta distração, Frodo encontra um caminho livre. A cena mais representativa talvez seja no final da história quando Frodo finalmente chega a Mordor, mas lá encontra um acampamento de milhares de Orcs. Neste momento Frodo e Sam deparam-se mais uma vez com a angústia perante o vazio grupal. Reconhecem-se como individualmente fracos para enfrentar tamanha tarefa. O que se segue é que paralelamente a isto, Aragorn e os outros fazem uma investida ao reino de Sauron de maneira que o exército acampado a frente de Frodo precisa se deslocar rumo à batalha e Frodo encontra o caminho livre. Gosto desta imagem paradoxal: quando Frodo encontra o campo CHEIO de inimigos depara-se como VAZIO que sua tarefa impõe e quando o campo ESVAZIA-SE o animo retorna e a execução de sua tarefa torna-se possível mais uma vez.

A Sociedade do Anel sabe que esta investida rumo ao exército de Sauron não surtará resultados, mas a comitiva acredita que Frodo terá uma chance melhor se isto acontecer. O interessante é que a Sociedade decide por este sacrifício – todos sabem que iriam perecer frente a este ataque – mesmo sem receber nenhuma notícia de Frodo desde a cisão do grupo. A Sociedade neste momento funciona como um grupo de comandos com ações extremamente cronometradas. Para Pichon o grupo centrado na tarefa poderia dividir-se e mesmo cumprir com a execução da tarefa, desde que cada confie que o seu antecessor e seu sucessor irão cumprir com sua parte do plano. Gandalf e os outros simplesmente confiam que Frodo ainda está vivo e centrado na tarefa. Isto significa que o grupo mantem-se neste salto de fé que apenas é sustentado pelo próprio grupo. Apesar de diversos eventos ocorrerem entre a formação da Sociedade do Anel e esta batalha final a centralidade da tarefa não se perde, pois o grito de guerra puxado por Aragorn na hora da disparada sacrificial em direção a um inimigo invencível é: “Por Frodo!”. Interessantemente Frodo retorna a posição de Sócrates no Banquete, pois também não consegue destruir o Anel. Cabe à criatura Gollum realizar a tarefa. Acredito que isto apenas nos indique que Frodo precisou manter-se nesta posição de não preencher o vazio grupal até o final, deixa que outro o realize para ele. O papel de Frodo é o de Portador da angústia grupal – “ferida esta que nunca cicatrizará”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Eles deviam gritar “POR SAM!”, pois este sim é o herói mais nobre que já vi.

    Belo artigo.

    • Hahaha Boa Diego,

      Eu sempre penso na Sam carregando o Frodo…. e este carregando o Anel… em suma quem carregou o anel foi o Sam… De uma maneira, com esse comentário você fura meu texto, de outra você me dá suporte para a posição socrática do Frodo, pois nem subir a montanha ele sobe.

      Belo comentário paradoxal!! Obrigado por ele!

  2. Oi Diego, é a Carol da turma de psicologia que já se formou, muito boa a análise sobre Pichon, Parabéns pelo trabalho. Um pena que você não analisa o filme a partir da psicologia analítica e de Joseph Campbell também teria muitas contribuições interessantes.

    • OI Carol!!

      Que bom que você gostou do texto!!!

      Com ctzzz o Campbell teria três ou quatro palavrinhas – ou livros- para falar sobre o Senhor dos Anéis.

      Abraço e volte mais ao site você vai gostar do conteúdo!!