Chamem-me de gênio, por favor!

Terrence Malick, diretor do recém-lançado Árvore da Vida, não freqüenta festas. Essa atitude pode dizer muito sobre uma pessoa e, talvez, muito mais sobre um artista. Pauline Kael, decana da crítica cinematográfica norte-americana, desconfiava daqueles que chamam cinema de arte porque sua vasta experiência na indústria lhe mostrou que “escritores ficam em casa e trabalham; diretores de cinema vão em festas”.  Portanto, se Malick não freqüenta festas, nem colunas sociais, nem se deixa fotografar, nada mais natural que concluir que essa atitude reservada, quase monástica no ato de retirar-se do mundo, seria um indicativo de que ele é um raro cineasta sério, e, por conseguinte, um artista na acepção da palavra. Literalmente, um gênio.

Não se trata de nada novo. O escritor J. D. Salinger, autor do lendário romance O Apanhador no Campo de Centeio, é o mestre maior da fuga. Marlon Brando passou décadas recluso, super-alimentando o corpo e a lenda. Howard Hughes glamourizou sua insanidade ao isolar-se em uma cobertura de Las Vegas. A esfinge nórdica Greta Garbo pediu para ser esquecida. No Brasil, o ex-presidente João Figueiredo imitou Garbo. O vampiro curitibano Dalton Trevisan e o mestre do crime Ruben Fonseca também especializaram-se em cultivar o anonimato. De todos os auto-exilados no palácio da fama, o modelo de Malick parece ser Stanley Kubrick. Poucas aparições, poucos filmes, muito mistério.

O crítico de cinema ganhador do Pulitzer, Roger Ebert escreveu que “como Cinzas do Paraíso deixou tão boa impressão, o fato do desaparecimento do diretor se tornou um mito de proporções ‘salingerianas’”. Porém, para muitos, diferente de Salinger, Brando & companhia, a reclusão de Malick é planejada demais, encenada demais, alardeada demais. Sua fuga dos holofotes seria uma muito bem pensada estratégia de marketing pessoal para transformar um diretor de inegável talento em gênio.

Não é difícil dar certo, pois, segundo o escritor Gore Vidal, “o senhor Salinger produz obras de ficção que, por um período, foram consideradas mais sérias do que o devido por causa do modo absolutamente admirável que vive o autor”.

Quando A Árvore da Vida ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2011, um abafado coro de descontentes passou a especular sobre as razões do triunfo. Primeiro, aventou-se que o excepcional Melancolia, de Lars Von Trier, perdeu força em função das polêmicas declarações proto-nazistas de seu diretor. Segundo, que o presidente do júri, Robert De Niro, seria amigo do premiado. Maledicências? Em todo caso, ao contrário do que comumente se pensa, é muito mais fácil direcionar as premiações de um festival do que, por exemplo, do Oscar, que envolve uma eleição secreta e fechada, com milhares de eleitores. Terceiro, que a lenda erigida em torno do fugidio Malick obscurece o julgamento de suas obras. Em outras palavras, questioná-las seria sinônimo de tacanhice. Negar seu estatuto de gênio equivaleria a esbofetear um messias. Afinal, sempre se lembra que Chaplin, Welles ou mesmo Kubrick foram pouco reconhecidos, em termos de premiações, em vida.

O que há de verdade nisso? Difícil definir com precisão. O fato é que Malick é um homem pretensioso. Isso não necessariamente depõe contra ele ou sua obra. A pretensão, se bem canalizada, pode ser um poderoso combustível. Sem dúvida, Tolstoi foi pretensioso ou planejar Guerra e Paz, assim como Proust ao iniciar a narrativa de Em Busca do Tempo Perdido, que só foi terminar sete livros depois. O conceito inicial de A Árvore da Vida, que pretende enfocar do Big Bang ao Fim dos Tempos a partir da trajetória de uma família texana, estando entre o macro e o micro, é ao mesmo tempo um tema fantástico e um não-tema. Equilibra-se entre a potencialidade do sublime e o perigo do pastiche. De fato, os espectadores mais cínicos podem justificar que essa história já foi contada no cinema antes, no belo documentário sobre a vida e a obra do astrofísico Stephen Hawking, Uma Breve História do Tempo, dirigido por Errol Morris, em 1991. Podem inclusive alegar que o filme de Morris é mais compreensível e comovente que o colosso de Malick; ou mesmo que Hawking é mais simpático e expressivo que o taciturno Jack O’Brien, personagem de Sean Penn.

E sintomático que a pretensão de Malick alimente a pretensão de seus espectadores modelo. Em praticamente todos os comentários acerca de A Árvore da Vida o resenhista se lembra de destacar que assistiu ao filme numa sessão na qual o público comum (essa arraia miúda acéfala!) saiu reclamando e xingando, dizendo-se enganada pelo nome de Brad Pitt no cartaz; enquanto ele mesmo, ilustrado, sofisticado, cosmopolita, aberto, erudito e cool que é, adorou a obra-prima de nascença. Vale lembrar que ao fim de sua exibição em Cannes, a platéia ficou dividida. O longa longuíssimo foi igualmente vaiado e aplaudido. Em tese, o público de Cannes seria o mais ilustrado, sofisticado, cosmopolita, aberto, erudito e cool do mundo. Nesse sentido, simplesmente condenar quem não gostou do filme como bárbaro é conceder-lhe o status de evangelho, de revelação transcendente inquestionável. Algo que nenhuma obra de arte ou livro adotado como sagrado, por brilhante ou inspirador que seja, é.

Cena do filme A Árvore da Vida

Os apóstolos de Malick costumam relembrar sua passagem como aluno de Harvard e professor de filosofia do MIT enquanto prova pró-genialidade. Títulos como esses costumam impressionar a primeira vista, mas não são argumentos indestrutíveis. Quem viu o risível documentário Quem Somos Nós?, uma patacoada pseudo-científica sobre física quântica, baseado no Best-Seller O Segredo, deve ter reparado nos altos galardões acadêmicos ostentados pelos charlatões que deram depoimentos nele. Todo acadêmico consciente sabe que, na prática, uma cátedra é apenas um emprego. O que você é não depende necessariamente dela. Vide o célebre exemplo do arqueólogo doutor Henry Jones Júnior. A força dos primeiros, e melhores, filmes de Malick, Terra de Ninguém (1973) e Cinzas do Paraíso (1978), sem dúvida, utilizaram-se dos conhecimentos do professor de filosofia do MIT, mas não foram feitos apenas por eles. Ademais, boa parte dos maiores cineastas da história tiveram pouca educação formal.

Filmes como A Árvore da Vida precisam passar pela prova do tempo para se estabelecerem como geniais, farsas, exercícios de estilo ou elefantes brancos. Apenas para exemplificar, 2001 – Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick, ou Solaris, de Andrei Tarkovsky passaram, o tempo confirmou-os como obras-primas. Por outro lado, Koyaanisqatsi, produzido por Coppola, ou Império dos Sonhos, de David Lynch, tornaram-se meras curiosidades Cult. O que dizer dos pouco vistos filmes produzidos por Andy Warhol?

2001 é lento, difícil, complexo, pesado, finamente executado e se provou cheio de conteúdo, para além da forma rebuscada. Foi, inclusive, um grande sucesso de bilheteria. Mas se Malick deseja emular Kubrick no estilo de vida, sua opção pela obscuridade narrativa coloca-o em outra esfera estética. Kubrick fazia filmes de arte para as massas, Malick faz para os cinéfilos eruditos e para a crescente população PIMBA (pseudo-intelectual-metido-a-besta). No livro, De Olhos Bem Abertos, o roteirista Frederick Raphael escreveu que Kubrick “parece ser um pouco mais humano – comercial – do que esperei que fosse um grande diretor de cinema. Gosta de estrelas porque sabem o que fazem e porque lotam os cinemas. (…) ele é, começo a suspeitar, um diretor de cinema que por acaso é um gênio e não um gênio que por acaso é um diretor de cinema”. Talvez a frase sirva também para Malick.

Se Terra de Ninguém tinha os jovens Martin Sheen e Sissy Spacek e Cinzas do Paraíso contava com Richard Gere e Sam Shepard, em seu retorno às telas, depois de vinte anos ausente, com Além da Linha Vermelha (1998), Malick encheu a tela de astros: Sean Penn, George Clooney, John Cusack, Jim Caviezel, Nick Nolte e muitos outros. Leonardo DiCaprio e Mickey Rourke gravaram, mas foram eliminados no corte final. Sem ressentimentos, o importante era trabalhar ao lado da lenda viva que retornava.

Em termos de estilo, Malick não cultiva a precisão matemática de Kubrick. Não planeja e ensaia a exaustão, filmando e re-filmando cenas milimetricamente marcadas. Seu método é o da procura incansável, na base do improviso, acerto e erro. Filma muito, muitíssimo, seguindo, acossando, seus atores com a câmera, fazendo-os emergirem no processo, captando suas reações, para depois selecioná-las na mesa de edição. Consta que filmou cerca de 300 km de negativo para produzir O Novo Mundo (2005), que recebeu três cortes diferentes. Essa técnica é perceptível nas cenas sem falas ou ações diretas, muito comuns em seus filmes, onde os interpretes basicamente interagem entre si, com o cenário ou com a locação. Andam e olham, olham e andam. Sem rumo.

Grandes diretores costumam possuir marcas visuais. Basta alguns minutos para espectadores treinados saberem de quem se trata. Sem dúvida, o estilo de Malick é reconhecível. Mas, diferente de Kubrick, que costumava reconstruir-se dentro de seu estilo, ele opta pela releitura de si mesmo. Cacoetes visuais se repetem em Além da Linha Vermelha, O Novo Mundo e A Árvore da Vida. Seus personagens sempre nadam observados por câmera submarina, seus personagens sempre caminham tropegamente por campos de mato alto, o sol sempre aparece por entre galhos, sempre são mostrados insetos ou animais pequenos se arrastando na grama, os acidentes naturais ou edificações sempre são filmados de baixo para cima, sempre há cortes bruscos na condução da narrativa etc, etc, etc.

Parece-me que, embora Kubrick seja o modelo a ser alcançado, temática e visualmente, é possível que Malick se aproxime mais da teatralidade contemplativa de Tarkovsky. Alguma influência existe, embora o mestre russo seja mais técnico ao guiar o filme e mais maduro ao abordar suas inquietações metafísicas. O silêncio de Deus em Tarkovsky provém do materialismo russo: crise de fé numa terra infestada de igrejas. Em Malick, encontramos a dubiedade de um artista que sabe que a ciência é incontestável, mas que hesita em desagradar os criacionistas. Seu Gênese é uma obra aberta.

Roberto De Niro afirmou que não foi fácil a escolha de A Árvore da Vida para a Palma de Ouro, mas, para ele, o filme “tinha o tamanho, a importância, a intenção, o que quer que você fale, parecia se adequar ao prêmio”. De fato, o filme possui lindas passagens, a trilha sonora é belíssima e a fotografia das cenas no Texas deslumbrante. Contra ele fica a enervante sensação de que Malick, às vezes, passa do tom. Deixa o filme sair de seu controle, tamanho o desejo de ser profundo e complexo. É obvio demais em ser um diretor brilhante que luta desesperadamente para ser reconhecido como gênio, optando pelo escorregadio caminho do hermetismo.

Fora isso, é possível criticar a aparência de documentário escolar das seqüências sobre o cosmos: algo entre uma coleção de slides de data-show retirado do Google e uma produção da National Geographic. O CG dos dinossauros é fraco, inexplicavelmente inferior aos de Jurassic Park, do já distante ano de 1992.  Hoje, se uma produção de Hollywood vai mostrar um dinossauro, não se espera menos que perfeição.

Porém o grande pecado do filme é mesmo insistir monotonamente em alguns de seus temas. Por exemplo: ao invés de construir uma ou duas seqüências fortes e elaboradas mostrando o excesso de disciplina e rudeza do personagem de Brad Pitt para com seus filhos, o roteiro as fragmenta em repetitivas pequenas situações, retirando-lhes a força individual. Há muitas pequenas grandes cenas, poucas cenas grandemente estarrecedoras. Talvez o objetivo fosse dar a sensação de cotidianidade. É possível, considerando que, segundo a lenda, Malick está desenvolvendo o roteiro desde fins da década de 1970. Se for mesmo isso, das duas uma: ou Malick não seguiu o texto a risca, modificando-o no set ou na edição, ou pelo contrário, o diretor esmerou-se em mostrar que a vida é apenas uma sucessão de dias terrivelmente monótonos rumo à morte. Fica a pergunta: é preciso ser gênio para assumir o papel de profeta de um Armageddon, pessoal e universal, desde sempre anunciado? Não basta ser um bom contador de histórias? Talvez o melhor seja esquecer tudo isso e ir numa festa. Afinal, o Brooklyn não está se expandindo. Por enquanto.

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Ademir Luiz é doutor em História. Professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG). Autor do romance “Hirudo Medicinallis”. Correio eletrônico: [email protected]

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  1. Bom texto Ademir. estou seco para assistir A Árvore da Vida, pois sou grande fã de Malick. Além da Linha Vermelha é um de meus longas preferidos e acho que é um dos poucos filmes que pode ser chamado de um “poema filmado”. Novo Mundo comete vários pecados e é, de certo modo, até mais pretencioso que Linha Vermelha. Ainda assim, fica acima da média do que vemos por aí.

    Em seu texto, você cita uma frase de um cara que diz que a reclusão de Malick é pensada, mecanizada. Isso faz pouco sentido, já que há um hiato de quase 20 anos entre Cinzas e Linha vermelha. Ninguém faz uma reclusão dessas, certo? o fato é mais simples, ele era diretor, resolveu fazer outra coisa após 2 filmes de sucesso, e voltou a dirigir anos depois. Pelo menos é assim que entendo sua carreira.

    Grande abraço.

  2. Ok. No que tange ao isolamento do diretor, o texto apenas mostrou que há, de fato, uma guerra entre introvertidos e extrovertidos nesse planeta. E que os últimos são completamente intolerantes em relação aos primeiros.
    Sobre o filme, nada posso falar, uma vez que não o assisti. Mas posso discordar sobre a relevância que 2001 ganhou com o tempo (discordar de quase todo mundo, na verdade). Os melhores de Kubrick são anteriores a esse arroubo pretensioso…