Carrie, a estranha (1976) – Crítica

Carrie, a estranha (Carrie, 1976)

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Há um filme francês muito intrigante chamado A Professora de Piano (La Pianist, 2001). Ele conta a história de uma mulher chamada Érika, professora de música em um conservatório musical em Viena. É uma professora árida e hostil, que inibi qualquer manifestação emocional frente às pessoas. Ela vive com sua mãe em um apartamento, mantendo com a progenitora uma relação extremamente estranha de passividade, controle e agressividade. Como se ainda não fosse o suficiente, Érika também tem o estranho hobby de frequentar cabines de cinema pornô para cheirar papeis higiênicos usados – sujos de sêmen – enquanto assiste aos filmes, o que para ela mostra-se muito excitante.

Quem assiste A Professora de Piano, é confrontado com muitas cenas aflitivas e incomodas. Em um dado momento do filme Érika ao se masturbar, utiliza de uma gilete para cortar sua genitália durante o processo. Quando termina, Érika com um perfeccionismo peculiar limpa os vestígios de sangue no banheiro. Esta cena é muito interessante por remontar uma versão feminina da obsessão por limpeza de Norman Bates, após assassinar Marion em Psicose (Psycho, 1960). Entretanto, há algo mais interessante nesta cena e é a sua semelhança a uma das cenas iniciais de Carrie, a estranha (Carrie, 1976).

Após um breve prólogo, que apenas serve para nos situar do ambiente escolar e da já estabelecida exclusão de Carrie dos grupos populares da escola, vemos a verdadeira cena de abertura do filme. Nesta cena, em uma filmagem em câmera lenta, entramos no vestiário feminino de estudantes adolescentes e somos familiarizados com este universo utópico e inocente. A imagem remonta à literatura clássica e suas ninfas gregas a brincar nuas durante um banho coletivo. E lá está Carrie, no chuveiro, sozinha, banhando-se. Há de fato certa inocência em seu banho, mas que quando somado a um teor erótico subliminar, acaba por amplificar a sexualidade da cena. Este erotismo fica muito claro quando a vemos lavar suas coxas e provavelmente suas partes íntimas. É tudo muito sensual na cena, os movimentos, a música, a câmera lenta e o foco da filmagem. Esta excessiva sensualidade insinua uma possível masturbação de Carrie no banho, o que leva para o acidente: ela menstrua. O que era apenas um banho demoradamente inocente transforma-se em uma cena de horror quando, assim como Éirka, Carrie passa a sangrar por todo o banheiro.

Esta cena inicial é de alguma maneira, retomada na famosa cena do baile de formatura, quando Carrie é eleita rainha do baile. Quando sobe ao palco, com seu príncipe encantado e é aplaudida por todos, temos toda a montagem mais uma vez. Música, câmera lenta, sensualidade. Entretanto desta vez, sabemos que o sangue retornara, não durante o banho, mas como banho. Carrie é banhada por um balde cheio de sangue de porco, preparado em uma pegadinha. A partir dai, sabemos como o filme desenrola: Carrie deixa sua fúria telepata tomá-la, assassinando todos os seus colegas de escola em um baile de fogo.

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Agora o que Érika e Carrie poderiam estar representando em seus dramas particulares? A resposta talvez seja a apontada pela mãe de Carrie, quando lê para sua filha a história bíblica de Eva. Segundo a mãe, Eva criada a partir de uma costela de Adão pecou ao copular com seu parceiro. Assim, Deus decide por puni-la lhe concebendo a maldição do sangramento. Sexo é a resposta.

Ambos os filmes tem o sexo como eixo central da trama. Com Érika a questão fica mais óbvia, apesar de nem um pouco simples. Há na professora toda uma mistura do sexo com a dor e humilhação que indicam para o comportamento sádico-masoquista da personagem. A um jogo entre prazer e desprazer que por fim dilui ambos em uma espécie de “des-prazer” único. Em Carrie, esta questão está mais disfarçada. Desde a cena inicial no vestiário, o filme brinca de esconde-esconde com o espectador. Toda cena tem um cunho sexual, tímido, mas sempre presente. Hora com mais clareza como quando Chris e Billy – John Travolta, só para lembrar – estão discutindo no carro, hora totalmente subliminar, como por exemplo, quando Tommy aceita a proposta de Sue: levar Carrie ao baile. Ficamos pensando: qual é a outra parte do trato? Tommy aceita levar a garota mais estranha do colégio ao baile para ganhar o que? O olhar atrevido e sensual de Sue diz muito, sem dizer nada.

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Talvez a figura centralizadora da questão no filme seja a mãe de Carrie. Margaret é o seu nome. Trata-se de uma católica fervorosa, que visita a vizinhança levando suas preces de casa em casa. Pelo filme nos é retratada como uma fanática, que tortura Carrie, obrigando-a redimir-se de seus pecados – não cometidos, vale lembrar – em um pequeno armário de vassouras, rezando para uma sinistra imagem de Jesus. A paranoia de Margaret apresenta-se totalmente relacionada com o pecado original: o sexo. Sua reação à primeira menstruação de Carrie é extremamente desproporcional. Ao contar a historia de seu casamento para a filha percebemos o seu drama. Ela fora casada por anos, sem nunca ceder às tentações da carne. Por diversos anos dividiu a cama com seu marido seu nunca tocá-lo indevidamente. Porém, certa noite, quando embriagado seu marido a “tomou”. Esta expressão utilizada por Margaret parece receber certa entonação de violação. Entretanto, a própria revela ter gostado do ato. Guardemos esta informação.

A teoria pulsional freudiana parece encontrar nestas personagens uma boa metáfora para uma lição que Freud apresentou ao avançar sobra sua teoria em 1920. Ao escrever um texto chamado “Além do Princípio do Prazer”, Freud revisou sua teoria pulsional, que até então descrevia que o psiquismo humano era movido por duas pulsões conflitantes: a pulsão sexual e a pulsão do ego. Define-se por pulsão sexual uma pressão interna inconsciente que visa descarregar sua energia (libidinal) tensionada em outros objetos externos ao sujeito. Ou seja, de uma maneira mais ampla do termo é o desejo sexual. A amplitude do termo está relacionada com a extrapolação do foco genital do termo. Assim, desejo sexual não significa somente vontade de fazer sexo, mas quaisquer comportamentos de ligamento a um objeto externo. Já  pulsão do ego define-se por uma pressão interna inconsciente que visa descarregar energia (libidinal) tensionada no próprio sujeito, ou seja, internamente. A ideia de autopreservação parece esclarecer os objetivos desta pulsão.

O importante para nós é pensarmos o avanço freudiano. Em 1920 o autor propõe unificar estas pulsões em uma só chamada pulsão de vida. Esta por definição estaria relacionada com a sobrevivência da espécie e do indivíduo. Ou seja, um impulso inconsciente de fome estaria direcionado a satisfação em um objeto externo ao mesmo tempo em que visaria à autopreservação do sujeito. Em oposição à pulsão de vida, Freud teoriza uma força pulsional chamada pulsão de morte. Esta pulsão estaria relacionada à tendência do organismo de retornar a um estado anorgânico de tensão, em outras palavras: a morte. Em oposição à energia libidinal, o autor propõe a agressividade como energia motora desta pulsão. Assim, Freud divide o psiquismo em um constante conflito entre Eros e Thanatos.

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Com isso em mente, o importante é a dimensão freudiana de que mesmo que estas duas pulsões sejam forças opostas em sua definição poderiam muito bem atuar em conjunto no psiquismo. O exemplo mais comum se trata exatamente do comportamento masoquista, no qual as sensações de prazer e desprazer conseguem ser assimiladas conjuntamente.

A sexualidade manifesta-se para Carrie como algo paradoxalmente bom e mal, porém como fardo da feminilidade. A demonização do corpo feminino é personificada em seu próprio corpo. Essa mal é ao mesmo tempo repugnante e tentador. No fim, apresentasse como mortal. Carrie “morre” virgem, porém cede aos seus impulsos incontroláveis de “matar”. Para o desejo, não importa o caráter estritamente sexual do ato e sim a conquista de sua finalidade: a satisfação. A adolescente foi corrompida e o substituto da relação sexual que ela não alcançou está no assassinato da mãe. Sob o efeito de um impulso destrutivo – que aparece projetado inicialmente na mãe – Carrie manipula diversas facas para perfurarem o corpo de Margaret muitas vezes. Para aqueles que acham esta interpretação muito forçada, reparem na similaridade da morte performática da mãe e de um orgasmo. Ela morre em euforia, sorrindo. Também é este o fim de Érika, frente à frustração emocional, esfaqueia o próprio peito e manifesta para o espectador a certeza de que irá sangrar até morrer.

Carrie, a estranha

Este estigma da sexualidade feminina como um inevitável encontro do prazer com o desprazer sobrevive na fantasia social. A própria inexistência da função do clitóris em livros de anatomia também é uma manifestação deste estigma. É o único órgão humano que tem como função, apenas o prazer. Não há no homem um órgão análogo que possua apenas este tipo de função.

Neste sentido, Carrie parece ser uma representante dos movimentos feministas. Há uma importante alusão na ideia de vingança presente nos atos da garota. É como se sua feminilidade retornasse em uma espécie de inquisição ao contrário. Sua vingança assume a forma de uma fogueira imensa para aqueles que a perseguem. Este tipo figura feminina não é datada. Na realidade o fogo e o feminino estão articulados como essencialmente unidos em diversas mídias. Por curiosidade, na ontologia do Guerra dos Tronos, temos uma versão interessantíssima de Carrie a estranha na personagem Daenarys e em seus dragões. Assim como na personagem Melissandre e sua obsessão por queimar os inimigos.

É cômico pensar que um dos grandes avanços da espécie humana foi precisamente o domínio do fogo. A metáfora seria o domínio do feminino? Mas se foi Eva quem pecou e Adão era inocente, quem dominou quem?

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  1. Boa crítica! E parabéns por recuperar “Carrie – a estranha”, um ótimo filme relativamente esquecido. Esse filme é de uma época na qual o cinema popular / pipoca não era necessariamente dirigido para adolescentes, havendo uma nítida preocupação com o roteiro. As explosões existiam na tela, mas aconteciam por algum motivo coerente com a narrativa.

    • Caro Ademir,

      Concordo com você, o terror era levado a sério. Mesmo na cena trash as produções eram baseadas no prazer de fazer cinema.
      Mesmo os que tinham foco para adolescentes. A sensação é de que a dificuldade de se fazer filmes, que com o tempo foi atenuando-se, fazia com que os filmes fossem tratados com cuidado.

      Obrigado pelo comentário!

  2. Só um adendo: Há sim um órgão análogo a função do Clitóris da mulher no homem, que é a Glande do Pênis (que para os não íntimos da biologia, seria a “cabeça” deste).
    Clitóris e Glande tem a mesma origem embrionária e ambos tem grande sensibilidade (os homens que fizeram operação de fimose ou judeus não tem tanta sensibilidade na região, pela fricção da glande com a roupa intima) , sendo possível que mulheres que tomem Anabolizantes a base de Testosterona desenvolvam um “micro pênis” no local onde está o clitóris (pois este aumenta de tamanho).
    A crítica ficou maravilhosa!

    • Jirayajonny,

      Você está certo, o clitóris é considerado análogo ao pênis sim. Mas diferença é que o pênis (a glande sendo uma parte dele) é um órgão também com função de micção. Já o clitóris que é considerado um órgão diferente da vagina, possui somente função excitatória.

      Obrigado pelo elogio do comentário!

      Volte sempre!

    • Valeu BCorleone!

      O paralelo traçado está muito mais relacionado pelo fato de que recentemente assisti os dois filmes do que uma possível ligação material entre os dois.

      Entretanto, achei que essa vinculação no texto ficaria interessante.

      Que bom que você gostou,

      Obrigado pelo comentário.
      Abraço

  3. Sei que estou meio atrasado comentando sobre este texto rsrs porém algo importante em ser observado que eu reparei, foi no fim do filme quando a casa arde em chamas, e a câmera fica balançando enquanto Carrie repetia algo parecido com gemido de prazer, podendo ser uma metáfora para o sexo, e qnd ela finalmente experimenta esse ato natural, ela teria que morrer junto a esse “pecado”. Ah, e ótimo texto!!