Brinquedo Assassino – Ade Due Damballa…

Chicago, 1988.

Durante a madrugada, o detetive Mike Norris perseguia o serial killer Charles Lee Ray, o estrangulador de Lake Shore. Gravemente ferido à bala, o assassino refugia-se numa loja de brinquedos, no centro da cidade, na desesperada tentativa de despistar o persistente policial. Pouco adianta. À beira da morte e sem saída, resolve conjurar um antigo encantamento vodu e transfere sua alma para um boneco de plástico. No mesmo instante, um raio rasga o telhado do lugar e destrói tudo em volta.

No dia seguinte, Andy Barclay, um inocente garoto de oito anos, ganha de aniversário o presente que todo menino da sua idade sonha em ter na época – o sucesso dentre todos os brinquedos do momento, o multifuncional boneco Good Guy.

Motivo de felicidade geral para ele e sua mãe, Karen, uma esforçada balconista assalariada que não tinha condições de custear um brinquedo tão caro, mas que viu a oportunidade perfeita quando comprou barato de um refugo deles, após uma loja popular do ramo ser destruída horas antes.

O boneco que Andy possui se chama Chucky – conhecido apelido de Lee Ray.

Bom, eis a introdução de um dos mais populares filmes de terror já produzidos. Um clássico na mente dos telespectadores brasileiros, e motivo de angustiantes horas do mais puro pavor para as crianças da época (inclusive eu), o diabólico boneco Chucky é, até hoje, lembrado pela geração anos 80 como um ícone do pavor.

Logo se tornou uma franquia, infelizmente com vertiginosa queda de qualidade de um filme para o outro: os dois últimos (por favor) é melhor ignorar; o segundo e o terceiro filmes são clássicos e merecem carinhosas recordações, apesar do mote já plenamente comercial (ah, e pra quem ainda não sabe: o segundo filme, de 1990, tem um final alternativo onde Chucky começa a renascer na fábrica e esboça um sorriso maligno, encaixando-se perfeitamente no prefácio do terceiro filme).

Pois bem, o presente artigo debate alguns interessantes aspectos do primeiro longa-metragem, genuinamente de terror, angustiante do início ao fim.

O diretor Tom Holland (também um dos roteiristas, ao lado de Don Mancini e John Lafia) já vinha com uma boa produção de temática semelhante no currículo, pois se tratava do filme A Hora do Espanto (Fright Night, no original, 1985) – a história de um vampiro que se muda para um bairro suburbano, despertando curiosidade e apreensão em seu vizinho, Charley Brewster, devidos aos estranhos fatos que ocorrem do outro lado da cerca.

O desmorto antagonista foi interpretado por Chris Sarandon, que faz o papel do policial investigador em Brinquedo Assassino (Child’s Play, no original, 1988).

Os motivos que fizeram esse filme superar as próprias expectativas dos criadores foram muitos. Quem imaginaria que uma bizarra história envolvendo um boneco possuído fosse fazer tanto alarde, afinal de contas? Resposta: foi devido ao fato de trabalharem certos mitos implícitos na nossa cultura, que ainda hoje dão medo.

O fato de bonecos, estátuas, pinturas, bustos – bem como demais objetos inanimados – ganharem vida e passarem a sensação de estarem nos observando, ou coisa pior, é palco para a imaginação mais criativa alçar voos a torto e a direito. Nesse caso, uma adaptação moderna, sombria e macabra levemente baseada no conceito do boneco de madeira Pinóquio (do romance homônimo escrito por Carlos Collodi, 1883).

Mas o grande às da manga foi na fisionomia do vilão.

Em sua forma natural, Chucky é um boneco divertido como muitos, com seus apetrechos bacanas, as roupas coloridas, o rosto sardento e os cabelos vermelhos que denotam um ar jovial, alegre, para agradar os eventuais consumidores mirins. Sem contar o forte apelo de amizade exteriorizado na voz gravada, que sempre responde a indagação do dono: “Hi, I am Chucky, and I’m your friend till the end. Hidey-ho, há há há!”.

A coisa fica feia mesmo é na sua outra versão, transformando-se numa máscara malévola de puro ódio.

E o mais interessante, somente percebido (com maior nitidez) após assistir ao curto documentário Chucky – Building a Nightmare: durante o filme, as feições do boneco se tornam piores, mais grotescas e humanas, explicando o processo de metamorfose que a alma de Lee Ray e o corpo de plástico estão passando, fundindo-se cada vez mais.

Percebam como as olheiras ficam salientes, os dentes arquejantes podres, os olhos aquosos, as sobrancelhas desgrenhadas, a pele ficando mais pálida e a feição gradativamente horrenda. Essa versão/versões, sim, foram de arrepiar a nuca e embrulhar o estômago de qualquer criança de 0 a 10 anos que viu o primeiro filme.

As articulações do boneco, em muitas partes, são perfeitas. Lógico, afinal usaram um dublê anão de nome Ed Gale (que fez também Howard – The Duck) onde, travestido de Chucky, criava a ilusão de flexibilidade dura com movimentos genuinamente humanos, nas tomadas de câmera mais ao longe ou em cortes estrategicamente editados.

Durante a trama, isso vai se mostrando aos poucos, segurando a surpresa até o momento ideal: na primeira morte, somente o vulto do boneco aparece correndo. E mais nada.

Em seguida, prestes a matar seu antigo comparsa de crimes, que havia abandando Charles ferido à própria sorte no dia em que foi perseguido pelo detetive Norris, a câmera segue a visão do vilão mirim e mostra somente seu braço em ação, com uma abafada e estridente risada logo após (por sinal, a voz do ator Brad Dourif é perfeita para o papel, sensacional).

O ápice do susto é quando a mãe de Andy (Karen) retorna com o boneco para seu apartamento vazio, à noite, após deixar involuntariamente o filho internado devido às suas “desvairadas” declarações sobre Chucky estar vivo.

Vendo que Chucky falava e se movia SEM AS PILHAS, Karen irrompe no susto e examina cuidadosamente o brinquedo, até que ocorre a primeira manifestação do boneco possuído. Essa cena em si merecia um Oscar dos melhores momentos de puro suspense com trilha sonora perturbadora, se fosse possível.

Durante a trama, o pobre menino é constantemente perseguido pelo psicopata de plástico, quer precisa transferir sua alma para ele antes que fique irremediavelmente preso no corpo do boneco. É um dramático jogo de gato e rato, cada um lutando pela sua vida.

Apesar do final meio absurdo, com o corpo aleijão de Chucky ainda dando todo aquele trabalho, tudo termina de forma intimidadora, com a cabeça chamuscada do boneco fitando Andy com seu único olho esbranquiçado.  Um trauma para o resto da vida.

Enfim, a película conseguiu grande sucesso, tanto lá fora como por aqui mesmo.

Afinal, quem não se lembra das famosas lendas urbanas do boneco do Fofão, que escondia objetos cabalísticos dentro do corpo, ou da boneca da Xuxa, que se movia e dançava estranhamente quando tocavam, de trás pra frente, certas músicas em voga da apresentadora global? Tudo catapultado pelo filme em análise.

Seguindo a esteira do tema, outros filmes foram lançados com bonecos demoníacos. O próprio Pinóquio ganhou sua versão macabra, em Pinóquio – O perverso (1996), que adotou uma ideia não utilizada no roteiro original deste primeiro filme do Chucky.

Conforme uma entrevista do escritor Don Mancini, segundo dizem, um suposto script brincava com o conceito de que o próprio Andy poderia ser o assassino por trás de tudo, usando do boneco como fachada. Será que o boneco estaria realmente possuído? Ou apenas seria um álibi para o verdadeiro vilão de tudo, dizendo-se comandado por um inofensivo brinquedo?

Lembrei-me do Scarface, vilão do Batman. De repente, desde que bem trabalhada, poderia ter sido uma boa sacada…

Chucky até ganhou uma “prima”, no triste pastiche na forma do filme Dolly Dearest (A Boneca Assassina, de 1992), cuja única coisa que se salva é o visual da boneca endiabrada. Só e somente só.

Não demorou e a franquia foi adaptada em romances (só existem versões do 2º e 3º filmes) e também nos quadrinhos – entre eles, uma quadrinização do segundo filme com arte de Darick Robertson (Justiceiro, The Boys); um especial crossover com Hack/Slash, pela Devil’s Due Publishing, que mostra seu ressurgimento após o quinto filme da franquia; e a minissérie Chucky, escrita por Brian Pulido, dando sequência às horrendas aventuras do boneco assassino, quando ele reencontra o casal Jade e Jesse (de A noiva de Chucky).

Por fim, seguindo na interminável onda dos remakes, vale lembrar as notícias esporádicas sobre uma refilmagem deste primeiro filme, que rolam desde 2008, e já confirmadas pelo próprio Brad Dourif durante uma convenção americana. Segundo informam, a história mostraria mais do passado de Charles Lee Ray, retratando como adquiriu os macabros conhecimentos de magia negra que lhe salvaram a vida naquela fatídica noite em Chicago.

Alguns trailers falsos andam circulando pela internet, mas nada oficial. Por enquanto.

No mais, recomendo a edição em DVD ou Blu-Ray comemorativa dos 20 anos de aniversário de Brinquedo Assassino, recheado de ótimos extras sobre a fábula desse atormentador brinquedo “Cara Legal”.

E você? Do you wanna play?

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André Craveiro é advogado, portador de veia cinéfila, excelente palato musical e apurado interesse por livros de qualidade (romances, poemas, doutrina, filosofia, contos, entre outros) e histórias em quadrinhos. Colaborador assíduo do Universo HQ e do Pipoca & Nanquim, é apaixonado pela cultura pop em geral, mas não sabe nada de Star Trek… Afinal, o que significa aquele gesto simbólico na forma de um “V” duplo, feito com a mão?

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  1. Esse é o filme que mais me aterrorizou na minha infância, acho que na te todosque nasceram na época! =D

    Uma vez, eu até destruí o meu boneco do Fofão, pensando que ele virara o Chucky…hahaha

  2. Nossa! Muito boa essa matéria com o Chucky! Só não sabia dessas lendas urbanas envolvendo Fofão e Xuxa…rsrsrs…. Parabéns!

  3. esse filme é muit foda. as execráveis continuações, apesar de contribuirem para jogar o boneco no imaginário popular, destruíram o aspecto aterrorizante e criaram uma franquia mais terrir do que qualquer outra coisa. Mas esse filme é irretocável. Um clássico!

  4. Quem poderia esquecer este marco dos filmes de terror
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  8. Você sabe o que ele fala em francês na hora do processo de passagem da alma dele pro boneco? Original e tradução?