A Transformação em Vader

‘O maior vilão de todos os tempos’, talvez. Com certeza um dos mais famosos. Darth Vader foi apresentado ao grande público pela primeira vez no filme Guerra nas Estrelas Episodio IV: Uma Nova Esperança (Star Wars Episode IV: A New Hope, EUA, 1977). A jornada de Anakin para se tornar Darth Vader é complexa principalmente pela profundidade do personagem, pois poucos personagens na história do cinema têm sua história revelada em seis diferentes filmes. Muitas questões atravessaram a vida deste personagem para transformá-lo, em sequencia cronológica, de herói para vilão e herói mais uma vez. Uma destas questões claramente exposta nos filmes de maneira a não ser negligenciada, em uma busca para entender essa transformação, foi sua relação com o poder. Darth Vader é, em sua mais simples caracterização, um personagem poderoso. Este poder (e sua busca por ele) regeu a vida de Anakin Skywalker de maneira que proporcionou para a psicologia uma exemplificação icônica de uma das possibilidades de relacionamento humano com o poder.

Em sua mais tenra idade Anakin Skywalker já era dotado de muita ambição. Filho de uma escrava, e consequentemente escravo, o jovem sonhava que um dia sairia voando em uma nave espacial para tornar-se um Jedi, voltar e libertar todos os escravos. Mas apesar de ser um jovem ‘diferente’, como sua mãe o descreve, ele nunca havia feito nada de pródigo. Sua ambição estava limitada em uma condição de ser escravo que lhe era imposta deixando o “sujeito a…” alguém, dentro de uma condição opressiva. Desta maneira se dá a primeira relação de Anakin com o poder. Neste cenário seu poder é limitado, Skywalker está subordinado à condição inerente herdada de sua mãe e por isso deseja ser mais poderoso para poder decidir entre ser livre e ser escravo por todos que estão na mesma condição. A mãe acredita que o jovem é altruísta e que não espera nada em retorno, mas podemos perceber que Ani espera a liberdade em retorno, como se ajudando os outros, em algum momento seria ajudado.

O tempo passa e o nosso herói desenvolve papel importante como general dentro das guerras clônicas. É atrevido, impulsivo e desleixado, por outro lado é criativo, confiante e habilidoso. Suas ações como general colocam o exército da República próximo à vitória. Em conjunto com suas habilidades, cresce também sua indiferença em relação à morte, por muitas vezes está convicto de que decidir pela vida de seus inimigos. Assim sua relação com os seus mestres Jedi torna-se cada vez mais delicada e tênue. Já sua relação com o chanceler anda “às mil maravilhas”, pois este insiste em bajular o jovem, agradando-o e sustento sua auto-imagem inflada. Ani permanece deslocado no meio desta “guerra fria” entre o Conselho e o chanceler. Mais uma vez nosso herói fica a “mercê de…”, por ambos os lados. Recebe o pedido de espionar os dois lados, funcionando como agente duplo, porém o jovem esperava este tipo de atitude do chanceler, mas não dos seus Mestres.

Durante um diálogo, Palpatine conta uma história para ele sobre um Sith que ao atingir o ápice de seu poder podia impedir as pessoas que amava de morrer. Vale ressaltar que Anakin já havia contato sobre seus pesadelos para o chanceler. Os pesadelos com Padmé se intensificam e o jovem começa a sonhar acordado com a morte da esposa. Anakin acredita ter encontrado um meio de salvá-la deste futuro. Sem uma análise mais profunda podemos nos precipitar e erroneamente constatar que a traição de Anakin foi devido a sua vontade de preservar a vida de sua esposa. Mas ao verificar os sentidos que o poder sobre a vida e morte tem perante toda a história de vida do personagem, tal constatação torna-se insuficiente. Temos que levar em conta a ânsia do jovem por poder, o poder de evitar as determinações incontroláveis da existência, por exemplo, a finitude. Acredita ter que possuir este seu dom, já que no fundo está colado na imagem de ser “o escolhido”. Ani sentia-se limitado pelas decisões do Conselho Jedi, enquanto o chanceler lhe oferece o “poder ilimitado”. O Jedi que nunca se satisfez com o seu estado e sua posição no mundo decide ter e ser mais.

Só há um sentido em sua vida agora, buscar poder. Torna-se paranóico, pois teme perder o poder que já tem, assim como perder a possibilidade de possuir mais. Em sua paranoia desconfia de sua esposa e quase a mata sufocada. Aqui constatamos que sua traição acontece por motivos egoístas e narcísicos. Anakin quer o poder para si, controlar sua condição e controlar o mundo a seu bel prazer. O pretexto de salvar Padmé perde o seu sentido, mostrando que suas ambições ultrapassam o altruísmo. Skywalker diz para sua esposa que eles poderão fazer as coisas como quiserem, afirma ser forte o suficiente para derrubar Sidious, e que juntos o casal poderá governar a galáxia. Aqui o jovem já se desorganiza todo, não sabe mais o que quer, está completamente cego e seduzido pelo poder. Obi-Wan Kenobi encarrega-se de impedir as ações malignas de seu aprendiz. Durante a épica batalha entre Skywalker e Kenobi um diálogo importante acontece, após sufocar Padmé, Vader diz:

Vader: Você a jogou contra mim!

Obi-Wan: Foi você mesmo que fez isso!

Vader: Não vai tirá-la de mim!

Obi-Wan: Sua raiva e cobiça pelo poder já fizeram isso! Permitiu que esse Lorde Sombrio fizesse sua cabeça, agora você se tornou aquilo que jurou destruir.

Vader: Sem sermões, Obi-Wan. Eu enxergo através das mentiras dos Jedis. Não temo o lado sombrio como você. Eu trouxe paz, liberdade, justiça e segurança ao meu novo Império.

Obi-Wan: Seu novo Império?

Vader: Não me obrigue a matar você.

Obi-Wan: Anakin, minha lealdade é para coma República. À democracia!

Vader: Se você não está comigo… então você é meu inimigo.

Obi-Wan: Somente um Sith é tão radical assim. Farei o que devo fazer.

Vader: Você vai tentar.

Vader está delirante, sua percepção de realidade totalmente deturpada torna-se uma ameaça. Acredita ser um herói e já possuir todo o poder que busca. Está tomado por ódio e seduzido pelo poder. Não percebe as consequências de seus atos e acredita apenas em suas versões de verdade. Não há mais o outro, a única coisa que importa é Vader. Após vencer a batalha e mortalmente ferir Vader, Kenobi se desespera:

Obi-Wan: Você era o escolhido! Devia destruir os Sith e não se juntar a eles! Trazer equilíbrio a Força e não deixá-la na escuridão!

Vader: Eu odeio você!

Obi-Wan; Você era meu irmão, Anakin. Eu amava você.

Vader é envolto em chamas e abandonado para morrer por seu antigo Mestre. Kenobi está frustrado, pois seu aprendiz se perdeu em sua destinação e por consequência seu treinamento falhou. Vader está totalmente impessoal e é só ódio. Acaba envolto por chamas, como se a cobiça e o ódio fossem uma chama que queima o ser até não restar mais nada. Pouco do homem que ali existia, ainda permanece. Quando seu corpo é reconstituído com anatomia robótica, Darth Vader está completo. Agora é mais máquina do que homem. O vilão apresenta um percurso de retorno à condição inicial, voltando a ser escravo, o que é contraditório ao seu projeto de vida inicial de libertar-se da condição de escravo. Torna-se escravo do Imperador, das máquinas que o mantém vivo e de sua culpa, por ter perdido sua mãe e esposa. Sente-se culpado por não ter este poder e por ter ido embora a deixando à mercê do destino. O mesmo sentimento de culpa transpõe-se para sua falha em relação ao seu projeto de vida: libertar todos os escravos, pois não tem este poder. Seu desejo por controlar a vida e a morte, e consequentemente o destino de todos, se transforma em desejo por controlar/escravizar os outros. Não foi o Jedi que deveria ser, não foi o escolhido, não tem o poder ilimitado. O escravo, agora escraviza, não liberta.


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  1. Eu, não considero Darth Vader um vilão, mas sim vítima das circunstancias, tudo de errado que poderia dar para ele aconteceu, abraçando o lado negro era uma forma de ter o controle de sua vida de um certo modo, Vader de um certo modo me lembra o Sinestro ou Magneto que tinham a mesma visão (mesmo subordinado como era), excelente postagem…

    • Concordo com você Paulo. Quando chamo o Vader de vilão me refiro à impressão causada pelo personagem quando apresentado ao público pela primeira vez. Na triologia original, a personagem é apresentada como vilão.

  2. Concordo com praticamente tudo que é falado no texto.
    Minha única ressalva é que eu acho que os filmes parecem não ser suficientes para mostrar toda essa profundidade do personagem.
    Muitas vezes essas dúvidas que cercam a mente dele são tomadas de forma muito rápida nas delas, deixando-as superficiais. Por vezes até o tornando um garoto mimado que nunca está contente com o que tem, sempre desejando mais.

    Acho que a falta de habilidade de George Lucas de dirigir personagens e de escrever bons diálogos não foi capaz de mostrar as dificuldades e os sofrimentos que ele passou na infância, para um telespectador casual.

    • Marcelo Seara, realmente tenho que admitir que roteiro, nunca foi o melhor de George Lucas. Isso é visível na necessidade de seis episódio, para que se caracterizasse uma personagem como Vader. O que ele o George Lucas tem de vantagem é a sua habilidade de edição e hambientação do roteiro (tanto a galaxia, quanto os jogos políticos). A escolha pelo personagem, foi tanto por sua fama, quanto por sua extensão filmográfica.
      Abraço!

  3. Anakin/Vader sempre esteve preso às circunstâncias. A questão da ambição de Anakin é que ele acreditava que seu potencial era maior do que as circunstâncias, e os seus companheiros na Ordem Jedi, lhe permitiam. Tanto é que o próprio Vader, na icônica cena de The Empire Strikes Back, ofereceu poder a Luke para depor o Imperador, visto que ele sempre esteve ciente que era uma mera peça nas maquinações de Palpatine.

    Uma coisa que a ficção (em obras iconicas que envolvem política) mostra é que o poder corrompe o homem de forma que ele sempre fará até o impossível para evitar que seu poder escorra por seus dedos, mesmo que saiba, no fundo, tudo o que ele é irá desaparecer. Um outro exemplo disso é a sociedade “pacífica” do filme Equilibrium. O lider supremo era um ícone, na sua própria visão e de seus copartidários, indispensável para a coesão social, e acabou se “imortalizando” para manter o status quo.

  4. Olá, Diego, boa tarde.

    Estarei sendo um pouco precipitado, pois ainda não li todo o conteúdo do P&N e apesar de frequentar o site há mais de um ano sempre passo longos tempos sem acessar e resolvi dar uma passada nesta semana e acabei me deparando com essa beleza de texto. E que sorte a minha! De longe é o melhor texto que já li aqui no P&N, meus parabéns.
    Eu gosto muito de psicologia e ainda mais quando a mesma transpõe o bom e velho Freud para algo mais contemporâneo. O seu texto me ganhou por isso e também por que foi muito bem trabalhado, com exceção de uma letra fora do lugar, a essência e o conteúdo estão excelentes. E olha que eu não sou fã de Star Wars, conheço a franquia, mas nunca parei para assistir. Após ler esse texto me deu até vontade de ver todos os filmes só para me enriquecer ainda mais com seu argumento.

    Espero poder ler mais conteúdo seu, cara. Obrigado por compartilhar o texto.
    Aquele abraço!

    • Caro Sérgio,

      Que honra ter satisfeito um apreciador da psicologia. Me sinto ainda mais gratificado em ter conseguido te incentivar a ver os filmes. É uma bela obra para um espectador atento.

      Continuo escrevendo aqui no site, mas caso você tenha o interesse, os textos sobre os filmes Método Perigoso e Browson também são meus.
      De qualquer maneira lhe indicaria qualquer texto do site, os organizadores do site possuem muito bom gosto!

      Abraço!

  5. Legal o post. Sem dúvida o Darth Vader é fodão. Alguém mais acha que o personagem Sasuke Uchiha, do anime/mangá Naruto, é uma quase-cópia do Lord Vader?

    • André, infelizmente não conheço esse personagem do naruto.
      Porém duas informações que talvez te agradem:
      1. A armadura de Vader foi inspirada em armaduras Samurais (assim como as vestimentas e posturas éticas e de batalha dos jedis em geral)
      2. George Lucas fora um grande estudioso de mitologias, inclusive as orientais. Talvez você goste de um documentário chamado o “Poder do Mito”. É uma entrevista com um dos maiores estudiosos de mitologia do ocidente chamado Joseph Cambell. Ele foi tutor do George Lucas e no filme ele comenta sobre várias influencias do diretor.

      Abraço!

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  7. oi!
    eu tive uma leitura um pouco diferente de Anakin. Apesar da sua ânsia por poder, também tinha um sério problema em lidar com perdas. Quando Anakin perde a mãe, foi o primeiro passo para aquele jedi poderoso se render para o lado sombrio. Depois ele teme perder a esposa… uma segunda dolorosa perda para Anakin. O imperador sabe que aquele jovem é poderoso e manipula seus sentimentos. Pois o imperador sabe que o conselho Jedi também tem desconfianças sobre Anakin… Para superar o medo da morte, o imperador o manipula para o lado sombrio… na Batalha de Mustafar Anakin caiu em solidão. Não havia ninguém que pudesse resgatá-lo em sua caminhada para o lado sombrio da força.. Palpatine o queria a seu lado. Já Kenobi queria mata-lo. A esposa pouco pode fazer, já que enfrentou a desconfiança de seu marido. Palpatine quando viu seu aprendiz morrendo eu tive a impressão de que ficou extremamente indiferente. Mas onde encontrar um outro discípulo tão poderoso como Anakin? Palpatine foi esperto: o tempo todo colocou Anakin em situação real de teste para que pudesse liberar os sentimentos sombrios, como raiva e ódio

  8. Faltaram algumas outras variáveis importantes, como o fato de ter começado seu treinamento muito tarde, tarde o suficiente para ter muito apego à sua mãe e se sentir atraído por Padme, por exemplo, de ter sido treinado por Obi-Wan quando este mal havia terminado seu próprio treinamento, o fato de o conselho não ter identificado em Palpatine uma ameaça e consequentemente ter deixado se aproximar de Anakin, etc… não acho que seja um mero exemplo do velho jargão de que o poder corrompe, tem muito mais coisa envolvida.

  9. Belo texto todos consideram vader como vilão até eu mesma mas esse texto mudou meu pensamento! sempre preferi o lado negro de star wars, darthoje vader não é vilão por que ele quis