A Invenção De Hugo Cabret – Crítica

A Invenção De Hugo Cabret (Hugo – 2011 – EUA)
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: John Logan, com base no livro de Brian Selznick.
Elenco: Asa Butterfield, Chloë Grace Moretz, Ben Kingsley, Sacha Baron Cohen, Emily Mortimer, Ray Winstone, Christopher Lee, Richard Griffiths, Frances de la Tour, Michael Stuhlbarg, Helen McCrory e Jude Law.

Quando surgiu a primeira notícia de que Martin Scorsese (Taxi Driver) faria um filme infantil em 3D, muitos (e me incluo nessa lista) encararam tal informação com desconfiança e receio. Dono de uma linguagem própria e comumente abordando temas pesados e violentos, o cineasta não parecia se encaixar em uma aventura juvenil – ainda mais em terceira dimensão. Entretanto, há outro lado de Scorsese que nem todos conhecem: fundador da The Film Foundation – organização responsável pela restauração de filmes antigos -, Martin é não só um expert no assunto, como é também um verdadeiro amante da sétima arte.

E bastam apenas alguns minutos de projeção de A Invenção de Hugo Cabret para que percebamos que o intuito do diretor aqui é fazer uma verdadeira homenagem ao cinema. Sendo assim, o fato do protagonista ser uma criança (que descobre o prazer do cinema) e do longa ser rodado em 3D (tecnologia mais recente dessa arte, contrastando com as primordiais mostradas ao longo do filme) são elementos narrativos que se encaixam perfeitamente.

Na trama, o pequeno Hugo (Asa Butterfield) é um jovem órfão que vive em uma estação de trem na Paris do começo do século 20. Escondendo-se do temido guarda da estação (Sacha Baron Cohen), o menino tenta finalizar o conserto de um automato – uma espécie de robô sentado numa poltrona com uma caneta na mão -, obra essa que ele havia iniciado quando ainda vivia com seu pai (Jude Law). Para realizar o conserto, Hugo utiliza peças roubadas da loja do recluso George (Ben Kingsley). Porém, quando é pego em flagrante pelo dono da loja, Hugo é obrigado a trabalhar para George até pagar sua dívida. Com o tempo, o garoto acaba fazendo amizade com a enteada de seu chefe (Chloë Grace Moretz) e os dois chegam cada vez mais próximos de descobrir o segredo do passado atormentado daquele homem.

Demonstrando completo domínio da nova linguagem, Scorsese utiliza o 3D não como um arroubo estético (como muitos ainda fazem), mas como uma maneira de contar histórias. Com uma apresentação inicial completamente sem falas, o diretor passeia com sua câmera pelo belíssimo cenário principal, aproveitando cada detalhe do caprichado design de produção feito por Dante Ferretti (Ilha do Medo). Reparem, por exemplo, como o cineasta opta por filmar diversos planos em plongee, “diminuindo” assim seu protagonista, perdido em meio a cenários imensos.

E somente alguém como Scorsese conseguiria atrair tantos atores talentosos, muitas vezes para fazer apenas pequenas participações – como é o caso de Ray Winstone, Jude Law, e do veterano Christopher Lee (cada um com pouquíssimo tempo de cena, e ainda assim conseguindo desenvolver muito bem seus papéis). Porém, quem carrega o longa é o trio principal, formado por Asa Butterfield, com seus gigantes e expressivos olhos azuis; Chloë Grace Moretz, com sua atitude impulsiva e fome de aventuras; e, principalmente, Sir Ben Kingsley, carregando todos os traumas de seu personagem em uma atuação contida e emocionante. Quem merece destaque também é Sacha Baron Cohen, que, com seu jeito tímido e atrapalhado, é responsável por alguns dos momentos mais engraçados.

Vale lembrar que, ainda que utilize certo humor infantil – com pessoas escorregando e piadas com animais –, Hugo não é um “filme pra crianças”, já que, além de emocionante (principalmente em seu terceiro ato), o longa requer um extenso conhecimento prévio de história do cinema para completa apreciação de tudo que está sendo mostrado na tela. Afinal, trata-se de uma trama passada na Paris dos anos 30, época em que o Cinema já havia se estabelecido como forma de arte – e não uma moda passageira, como os irmãos Lumière, seus criadores, acreditavam.

Assim como Woody Allen fez com seu Meia-Noite em Paris, Martin Scorsese também consegue entregar um filme complexo, e ainda assim agradável para todos os públicos – além de visualmente espetacular. Para uma parcela dos espectadores, trata-se de um ótimo programa. Porém, pra quem sabe o que é o Cinematógrafo e já assistiu Viagem à Lua (1902), torna-se uma experiência nostálgica e imperdível.

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  1. Boa Daniel Medeiros, fico muito confortado em saber que existem pessoas que dão maior relevância ao discurso fílmico. Tenho horror aos “arrombos estéticos” que transbordam os cinemas como uma praga!

    Boa crítica parabens!

  2. Otima critica! Ja iria assistir hoje, mas vendo a tua opniao, vou com mais animaçao ainda. Valeu!

  3. Excelente Crítica!
    Ontem assisti ao filme, e fiquei tão emocionada quanto encantada. Não sabia se chorava pela história, pela referencia ao cinema, ou pelo fato de eu ter me apaixonado por Meliés durante meu TCC. A melhor parte foi ter ido sem ler sinopse ou critica anterior, fui porque tinha Scorcese na direção de um filme infantil, e isso era argumento suficiente para mim.
    Concordo plenamente que uma criança não compreenderia nem metade do que estaria sendo apresentado naquele filme, no entanto não podemos negar que Scorcese apresentou com maestria o desespero da vinda de um trem, e o nervoso de um protagonista pendurado num relógio como ninguém, sensações que as crianças de hoje não teriam em filmes enfeitados e sem conteúdo, coisas que somente as crianças de um século atrás poderiam sentir. Aplaudo de pé essa obra, que me fez reencontrar o cinema como se o conhecesse pela primeira vez (de novo)!

    Ps- baixar esse filme na internet NUNCA será a mesma coisa que ir vê-lo no cinema.

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