A Invasora – Um Filme Tenso

Inspirado pelo podcast sobre Filmes Tensos e Assustadores! Decidi por resgatar esse antigo comentário sobre o filme A Invasora (2009) que escrevi no ano passado. Espero que gostem. Contém alguns spoilers, portanto é mais recomendado a quem já viu o filme. Indico também, para quem se interessar mais sobre o assunto, uma pesquisa que realizei sobre filmes de terror e psicanálise (leia aqui).

O título original deste filme, em francês, é À L’ intérieur, que traduzido para o português seria algo como “Dentro”. Realmente o filme fala de quem está dentro e quem está fora. Poderíamos falar sobre estar dentro ou fora da casa que é invadida. Também poderíamos falar sobre quem está dentro ou fora da “heroína” do filme – a saber, o bebê. Mas acredito que o filme nos apresenta outra narrativa, mais obscura e intrigante em seu subenredo – o discurso feminino.

Inicia-se com um acidente de carro, em que Sarah sobrevive, ao contrário de seu marido. O representante do discurso masculino é brutalmente extirpado do filme sem antes nos oferecer alguma luz sobre o que se passa neste recorte oferecido no filme. O masculino está dai para o fim fadado a nunca mais trazer nada de relevante ao discurso fílmico. Estará lá um homem apenas para nos salientar a incapacidade presente dentro da racionalidade de se entender o universo feminino. Dinâmica claramente apontada durante o exame, quatro meses após o acidente, realizado por um médico que não consegue com palavras conquistar uma manifestação amigável de Sarah. Ele não fala a “língua” dela; ela está presa em outro mundo.

Ao perder a figura de seu companheiro, Sarah foi libertada do mundo simbólico, podendo agora permanecer na simbiose materna imaginária, que nunca foi “cortada” por algum representante externo, o que a posiciona no universo irracional da psicopatia. O contrário também pode ser verdadeiro, pois existe um tempo necessário para que se viva este tipo de simbiose mãe-filho e caso ela seja precipitadamente “cortada”, o desfecho pode ser o mesmo – psicopatologia.

Não poderia ser diferente, Sarah ‘deseja’ ficar sozinha no natal, pois ela está completa. O desejo, que sempre significa “não ter” algo que se anseia, nesta mulher está satisfeito, pois ela deseja apenas ficar com seu bebê; e só. É a própria realização desta vontade e a incapacidade de se desejar que a faz sentir um vazio relacionado ao vácuo produzido pelo “não-desejo”. A “mulher” que está a perseguir Sarah compartilha com a vítima de seu registro feminino de imaginário. Ambas são detentoras da fotografia (imagem) que ninguém pode enxergar. Uma por saber o que a imagem representa e a outra por não saber. Uma por saber o que falta, e a outra por não saber. “A mulher” traja o negativo da mãe fotógrafa neste filme, é o seu perfeito oposto – a mãe vazia – sem a imagem de um filho.

Enquanto o mundo racional dos homens desmorona em Paris, durante as revoluções, é dentro de casa que o mundo emocional das mulheres desmorona entre a imagem cheia e a imagem vazia. O filme se desenvolve para nos mostrar em seu clímax que cada uma das mulheres representa ou a figura cheia ou a vazia, e elas se sentem iguais, desde que se “chocaram” no acidente. Elas vivem o mesmo mundo, compartilham de cadeira cativa, a salvo do buraco negro sugador de homens do universo feminino.

Todos os homens que adentram a casa são sugados, por não poderem “enxergar” o que está acontecendo. A lógica masculina acaba impossibilitada de se comunicar com a lógica feminina. Todos os homens que decidem interromper o “ritual lilithico” acabam cegos – com os olhos perfurados, arrancados a tiro ou simplesmente no escuro. A cada sacrifício realizado em prol da grande deusa, as mães parecem ficar mais fortes e invencíveis. Consoante à impossibilidade de “enxergar” o mundo feminino, as mulheres do filme acabam que por impossibilitadas de “falar” e descrever o que este mundo significa. Tanto a mãe de Sarah quanto ela acabam por ter ferimentos nas gargantas.

O bebê dentro de Sarah é a esperança de que uma nova ordem seja restaurada, pois é um menino, que ainda está no imaginário, sem nome, quando o tiver entrará no simbólico masculino e escapará a perversão – isso se tudo desse certo, mas não o dá. Este bebê natalino, não é luz da razão prevalecendo sobre a insanidade, ele nasce sem nome de uma mãe sem face, irreconhecível e impossível de se descrever, uma mãe imaginária, não uma mãe real, nem simbólica.

Algumas alusões ao natal e ao nascimento de Jesus podem ser feitas, por exemplo, os três policiais como três reis magos trazendo “presentes” para o bebê. Assim como a presença de um pai que não é pai. Notei também que o número da casa era 666, talvez por uma não referência a Jesus, já que não é o filho do pai que ali nascerá e sim o filho da mãe, de Lilith como a rainha dos demônios. Talvez…

É um bom filme, se abre a este tipo de reflexão porque possui um subenredo muito bem articulado. Além disso, trata-se de um bom filme “gore”, ele não chega a incomodar tanto quanto o Filme Sérvio, ou Centopéia Humana 2, mas garanto, ele é bem sanguinolento e apresenta imagens fortes, principalmente para quem já se sente por fora do universo feminino.

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  1. Não gostei, é realmente bem pesado e com um final horrivel. Eu não me imcomodaria com o sangue mostrado no filme, mas o final foi realmente pessimo. Em resumo, a maldade prevalesse no final.

    • Eu entendo o que você diz Glorinha… Temos que pensar também que é um filme francês… os estilos acabam sendo bem diferentes. Inclusive de narrativa e proposta!

  2. Exceletne resenha Diego. Kara, fiquei muito curioso pela sua pesquisa sobre Filmes de Horror. É possível enviá-la ao meu e-mail para que eu possa lê-la?
    Obrigado.

  3. Acabei de ver, e é ótimo… Só não entendi porque aquele policial atacou a Sarah no final do filme

  4. Olá Diego! Interessante sua análise do filme. Nunca veria dessa forma, eu estava tentando fazer outra leitura do filme: sobre como um trauma pode provocar um instinto assassino em alguém.
    Vc já fez alguma análise parecida de “Martyrs”? Esse sim me deixou com a pulga atrás da orelha…muito mais tenso que “A Invasora”, fiquei dias pensando nele…

  5. Realmente, o filme tem imagens fortíssimas. Assisti sem saber q tinha essas imagens. Nossa, as cenas me deixaram, pensativas e pavorosa!

    Não é ruim o filme! Mas tem q ter estômago para ver! Rs.

  6. Esta nova safra de filmes de terror franceses estão impecáveis: assustam e, ao mesmo tempo, abrem espaço para reflexões que perpassam tanto os detalhes da trama quanto a mensagem a ser captada pelo filme em questão. Quando li acima, sobre a referência “lilithiana”, imediatamente me veio à mente que as mulheres do filme, principalmente quando se encontram na casa, apresentam um quê de Medusa, isto é, não há espaço para a “invasão” masculina, fazendo com que eles se tornem “pedra” com mais do que um olhar. Pensei que as vítimas da Medusa tornam-se pedra e, até que o feitiço se desfaça, permanecem como mortos; o mesmo acontece aqui: a presença masculina é uma intervenção que não presta nenhum serviço à demanda feminina neste filme.