A influência das HQs em Tropa de Elite

Tropa de Elite, o já clássico filme de José Padilha, consciente ou inconscientemente, transforma a matéria-prima real que o inspirou, numa super-realidade. O trio de policiais do Bope que conduzem o enredo são facilmente identificáveis com arquétipos da cultura pop. Nascimento, Neto e Matias estão distantes do homem comum, não são policiais por acaso, como poderiam ser vendedores de carros usados ou açougueiros. Não, para eles o trabalho policial não é apenas um trabalho, é um destino inescapável. Um destino que os define, fazendo-os se destacarem na tropa. Suas trajetórias possuem certo tom épico superficial, típico das histórias em quadrinhos para adultos. A rigor, em suas roupas pretas e posturas de vigilantes, são tão tridimensionais quanto o formato bidimensional dos quadrinhos permite. Os três são facilmente identificáveis como O Justiceiro, conforme o símbolo da caveira, os métodos violentos e a descrença na justiça institucional, denúncia. Separadamente, Nascimento é Batman, Neto é Robin e Matias é o Homem-Aranha.

O capitão Nascimento, na ótima interpretação de Wagner Moura, é um psicopata depressivo e moralista, imbuído de um senso de justiça muito particular, que acredita exercer papel decisivo em uma guerra urbana. Batman. O quartel-general do Bope lembra a bat-caverna, no que tem de sombrio, futurista e repleto de aparelhos de ginástica. Não por acaso, a seqüência do treinamento dos candidatos ao Bope é uma mistura de Batman Begins com A Força do Destino e Nascido Para Matar. Sua narração em off é típica de heróis atormentados. Clichê em diversas mídias, desde que Frank Miller escreveu e desenhou o genial O Cavaleiro das Trevas, nos anos de 1980.

Significativamente, Nascimento é a figura paterna para Neto, interpretado por Caio Junqueira. Talentoso com uma arma nas mãos, Neto é recrutado para combater do lado do “bem”, na condição de herdeiro natural do capuz de seu mentor. Adota a Caveira, emblema do Bope, como se adotasse o símbolo do morcego. Acaba pagando o preço por seu entusiasmo juvenil. Morre nas mãos do “vilão” maior da história. Robin. O clímax do filme ocorre justamente quando a vingança se realiza.

André Matias, interpretado com dedicação pelo estreante André Ramiro, é o personagem mais complexo dentre os três. É inteligente e sabe que o caminho para o sucesso está nos estudos. Quer ter uma vida comum, tranqüila. De origem humilde, entra para a polícia como forma de conseguir ascensão social, como um degrau para alcançar seus verdadeiros objetivos. Porém, uma vez dentro do Bope descobre que “grandes poderes geram grandes responsabilidades”. A revelação de sua “identidade secreta” coincide com a perda de uma pessoa querida, em uma tragédia da qual foi o culpado indireto. Matias vê-se diante de um dilema. Acaba por abdicar de seus desejos, sacrifica sua vida particular em prol de um bem maior: o combate ao crime. Homem-Aranha. A cena em que interrompe uma passeata pela paz nas ruas do Rio de Janeiro, para espancar um manifestante que lhe deve satisfações, é um dos pontos altos do filme.

O filme tende a transformar-se em bandeira. Muitos policiais se identificaram com os super-heróis de Tropa de Elite. Vibram com seus atos violentos porque, afinal, os fins justificam os meios. Enxergam neles defensores da ordem, contra o caos da criminalidade. Neste ponto suas naturezas de arquétipos revelam todo seu poder de convencimento. Fazem o espectador esquecer que mesmo em uma guerra existem leis (a Convenção de Genebra existe). Tal entusiasmo encontra eco na classe média, encantada com a violência gráfica, tipo vídeo clipe, do filme. Ironicamente, a mesma classe média cujos filhos escutam entusiasmados as músicas de denúncia social dos Racionais e congêneres.

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Ademir Luiz é doutor em História. Professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG). Autor do romance “Hirudo Medicinallis”. Correio eletrônico: [email protected]

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  1. Ademir achei muito bacana esse seu cruzamento de informações, ficou muito bom… Mas só tem uma coisa errada, o Matias tá mais pra Miles Morales (o novo Cabeça de Teia) do que o Peter Parker xD.

  2. e interessante a mudança do perfil dos heróis modernos, Capitão Nascimento,Dexter,  Jack Bauer, etc, representam as pessoas decepcionadas com a lei que tem vontade de fazer justiça com as próprias mãos o que ha 20 anos seriam considerados vilões.

  3. Ademir, muito interessante a sua teoria. Vou encaminhar para o Padilha ler e ver se é isso mesmo?! =D

  4. Esse Ademir é prepotente e arrogante, um grande falso moralista que vive dando lições de morais nos outros e se acha a pessoa mas correta do mundo ou seja um ser humano perfeito mas é um completo babaca.

  5. Esse Ademir ainda vem dar lições estupidas de morais nos outros com esses discursórios falsos demagogos para proteger bandidos e fique sabendo que eu sou jovem e filho de policial e meu pai e eu adoramos tropa de Elite um filme fantástico que expõe toda a corrupção e ineficiência do estado e do sistema em lidar com as pragas que são os políticos e os bandidos que infestam nosso país. Há e mesmo eu sendo da atual geração de jovens na qual você se referiu como a “classe media” eu nunca me interessei por rap e odeio Racionais MC’s um bando de bandidos travestidos de músicos que incentivam a criminalidade.

  6. Para pilantra como você só quem merece chance são bandidos, eles merecem tudo. Bandido bom é bandido morto, mas para esquerdalha como você quem deve ser morto são os trabalhadores que contribuem para o “sistema capetalista” se manter. Vai beijar presidiário na bunda nas suas visitas íntimas seu mané.