Reckoning Day: Quem Bate Esquece, Quem Apanha… (Parte 1) – Café com Quadrinhos #19

Há um princípio da Física que enuncia: toda ação gera uma reação oposta de mesma proporção, ou não. É denominado de Terceira Lei de Newton.

É perfeitamente possível afirmar que esse famoso brocardo ultrapassa as fronteiras da instrução científica e adentra a esfera de formação humanística das leis e normas sociais. Desta feita, ocorrendo uma ação contrária a tais éditos, surge a necessidade imediata de uma reação repressiva – uma reprimenda adequada ao mal cometido, visando reorganizar o status quo que exista antes de tal conduta nefasta.

A falibilidade humana, meus caros leitores, é uma coisa lamentável. Tentamos reprimir estes atos lesivos da forma menos traumática possível para a sociedade e, embasando-se nos ditames legais, igualmente para o agressor. Mas alguns entendem que os limites Ex lege pouco ou nada importam nessas horas…

Somente uma coisa é imperativa: retribuição. Violenta retribuição. Ou, simplesmente, acerto de contas.

Eis o adjetivo que o termo inglês Reckoning comporta, vindo bem a calhar no propósito mortal de vários personagens da ficção.

Afinal, as histórias de vingança – toda fúria exposta como resposta ao mal cometido – são um dos gêneros mais explorados na plataforma midiática moderna, dos filmes aos romances, dos games aos quadrinhos. Os motivos? Os mais abrangentes possíveis.

Com esta pequena introdução, inauguramos mais um caloroso debate nesta saborosa coluna, em três partes, com alguns alucinantes “bateu-levou”. É chegada a hora do troco! Cuidado com eventuais spoilers.

E agradeçam ao MEGADETH por isso, hein? (Música absolutamente recomendável).

1. Frank Castle (Justiceiro) e seu terrível plano…

Em uma época (talvez) mais sensível ao gênero, nos idos anos 1970, surgiu um personagem fictício que não economizou balas, sangue e mortes nas páginas dos quadrinhos. Estamos falando do conhecido vigilante Frank Castle, anti-herói da Marvel, denominado de O Justiceiro.

O ex-fuzileiro naval Francis Castiglione tornou-se um mortal perseguidor de criminosos após o violento assassinato de toda sua família, durante um piquenique no Central Park, em Nova Iorque. Utilizando-se do seu intelecto rápido, conhecimentos táticos de combate e guerrilha, além de um vastíssimo arsenal de armas de fogo (ou quaisquer outras espécies), o Justiceiro declarou uma verdadeira e interminável guerra como um exército de um homem só. De fato, é muito trabalho para alguém solitário… Mas ele tem a vida toda.

A conta de mafiosos, estupradores, gangsteres, delinquentes, sádicos, psicopatas e vilões que já passaram dessa para melhor só faz crescer. “Trabalho em andamento”, como diria o saudoso Dolph Lundgren.

Mas, apesar de tantos anos enchendo a terra com a podridão da humanidade, a pergunta que não quer calar: e eles? Os responsáveis diretos pela sua desgraça, o estopim de todo esse barril que continua a explodir para todos os lados? Como Castle fez para se vingar de cada um dos mafiosos que lhe trouxeram dor, agonia e ódio sem precedentes?

Em que pese outras versões, creio que a melhor resposta encontra-se na fenomenal “A Cela”, história em quadrinhos especial publicada por aqui em Justiceiro Anual #01 (Panini, 2006).

Meus amigos, eu já devo ter mencionado tal conto algumas vezes antes, em outras colunas, reiterando a qualidade da obra, mas volto a repetir: considero a melhor história do Ennis em TODA a sua fase Max. Algumas outras chegam perto – beeem perto mesmo – mas não superam essa macabra narrativa de Frank Castle dentro da prisão da Ilha Ryker, pondo em prática um plano triste e sádico para pegar todo o grupo de assassinos, juntos depois de tanto tempo.

Nada de matar um, depois o outro. Sem essa: é preciso pegar o bando completo, com tratamento especial para cada um. É quando a merda começa, é sacudida, pega no ventilador e vai bater longe…

Já vimos incansáveis vezes o Justiceiro cuspindo raiva a cada puxada no gatilho, mas aqui, por favor, nada se comparava até então. E olhe que em NENHUM momento o filha da puta deixa transparecer outra feição, senão a mesma cara fechada de rancor e desprezo no limite máximo do ser humano.

Isso graças àquele traço sujo, escuro e úmido do desenhista Lewis Larosa. Como poucos que já trabalharam com o “camisa de caveira”, o cara consegue trazer às páginas de um gibi uma amostra do clima pesado de uma prisão controlada internamente pelos detentos, expondo o clima constante de tensão, incerteza e medo.

Garth Ennis é figura carimbada pelos seus trabalhos de humor negro, esculhambação com o gênero heróico e coisas do tipo. Mas, quando quer, sabe criar uma verdadeira história de prender o leitor, mostrando a gravidade e a que ponto as atitudes de um homem obcecado podem levá-lo.

Leitura EXTREMAMENTE recomendada.

2. Os livros do destino

Talvez o maior vilão do universo Marvel, certamente um dos mais perigosos.

A trajetória do jovem cigano Victor Von Doom até ocupar o trono da Latvéria foi marcada por uma vida dura na infância nômade e pobre, passando pela adolescência de descobertas científicas e obscuras, até chegar ao jovem adulto de gênio brilhante e desejo incansável em desbravar caminhos extraterrenos para libertar a alma atormentada da própria mãe, aprisionada nas profundezas abissais do inferno.

Nesse ínterim, o intento incansável em governar o seu país, a sua gente, por quaisquer meios necessários.

Tudo isso foi mostrado na história cujo título abre esse tópico, presente no encadernado Universo Marvel Anual #02 (Panini, 2008). A história de vida do Doutor Destino, suas primeiras tragédias, triunfos e tormentos.

Li muitos comentários negativos sobre a obra, não raras vezes considerada insossa e arrastada. Em algumas partes, até venho a concordar com tal ponto de vista. Porém, no geral, creio que foi uma origem satisfatória, mesmo podendo ter sido bem melhor escrita e com narrativa mais bem estruturada e econômica.

É sempre interessante ver o outro lado da moeda, a visão dos futuros vilões sobre seus motivos torpes.

Uma verdadeira introspecção alheia através do crescimento e surgimento de toda vilania que algum simples garoto cigano, judeu ou suburbano possa vir a gerar – onde, em boa parte das vezes, resulta numa espécie de vingança generalizada. Dessa vez, Von Doom culpou meio mundo pelos acontecimentos pregressos, mas manteve-se incansável mesmo depois de ter se tornado o regente de sua terra natal.

O conflito anual com a entidade demoníaca, pela libertação da alma materna, foi uma boa sacada pra explicar certos temores do povo latveriano.

Finalizando essa primeira parte, fiquem com essa excelente montagem com todo o payback que um certo personagem, que será um dos temas da nossa próxima e eletrizante coluna, tem direito.

Nos vemos em 15 dias!

E a vencedora do concurso “SE O MUNDO ACABAR EM 2012, QUAL SERIA A FORMA MAIS CRIATIVA DISSO ACONTECER?”: Aline Mangaraviti, cuja resposta, de fato, foi a mais criativa dentre todas as outras presentes nos comentários da coluna anterior.

Confiram o que a moça respondeu: “Problemas com viagens no tempo, guerras nucleares, epidemias mundiais, meteoros gigantes… não. nada disso. o fim do ser humano será o próprio ser humano. com a inversão dos polos magnéticos terrestres em 2012 a corrente elétrica em nossos neurônios será aumentada e modificada. o ser humano irá adquirir a tão sonhada telecinese. capazes de ler os pensamentos uns dos outros não teremos mais o privilégio da mentira. A sociedade irá entrar em colapso. o ser humano, ser social, q sempre dependeu um do outro pra sobreviver irá se isolar para não enfrentar a verdade apresentada a ele cada vez q se vê diante de um semelhante. Aos poucos morreremos por não poder mais conviver com outros de nossa espécie.”

Parabéns, Aline! Envie seus dados para mim ou para o pessoal do Pipoca e Nanquim, com endereço completo. Valeu!

 

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  1. ^^ Muito obrigada André!! Estou super feliz de ter ganhado! Já mandei meus dados pro e-mail do P&N, ok?! ah! vê se vc consegue aí dele vim autografado… XD hehehehe ia ser o máximo…! hehehehe