Logicomix: Diversão e Profundidade

LV268052_NAtualmente é bem comum – quase um clichê – em resenhas de Histórias em Quadrinhos aparecerem termos como “despretensioso” e “leve” para elogiar o potencial de diversão de uma obra. Na maioria das vezes os elogios são pertinentes, já que a maior fatia da indústria é focada no gênero dos super-heróis. Entretanto, vez ou outra, alguns temas que não fazem parte do mundo do entretenimento surgem quebrando modelos de criação artística sem se desculparem em serem ambiciosos ou ousados. Claro, nem tudo que perverte as características do gênero super-herói é profundo e rico, tampouco a ambição do autor garante a qualidade. Mas ocasionalmente, algumas HQs acertam em cheio nas doses de diversão e profundidade.  

A sinopse de Logicomix é esquisita. Na orelha da linda edição da Martins Fontes vem escrito: “Esta história em quadrinhos é baseada na vida do filósofo Bertrand Russell e sua apaixonada busca pela verdade. Assombrado por segredos de família e incapaz de reprimir sua curiosidade juvenil, Russell ficou obcecado por um objetivo prometeico: estabelecer os fundamentos lógicos de todos os princípios matemáticos.” E é exatamente este o tema do quadrinho; a vida e a investigação apaixonada de Russell nos campos da matemática, filosofia e lógica, visitando vários momentos da vida dele e de outros pensadores (Frege, Wittgenstein, Leibniz…) com foco na dualidade entre a razão e a loucura. Chato? Espere…

De todas as coisas que podem ser ditas sobre Logicomix, para mim, uma é a mais importante: Não é enfadonho. Para alguns o tema pode ser desinteressante, mas não podemos julgar esta HQ com base nesse preconceito. Aliás, nada deveria ser julgado assim, certo? Na verdade, a história é lenta por se tratar de uma biografia, mas não é nem um pouco tediosa. A paixão da investigação, a sombra da loucura e as mudanças dos personagens são enriquecidos pelos incríveis desenhos e pela coloração. A narrativa também não peca em provocar entusiasmo, utilizando a metalinguagem pra esclarecer o processo criativo tanto do Russell quanto dos autores de Logicomix. E faz algo ambicioso: lá pela metade da história o leitor já se acostumou em encarar os personagens como reais e próximos, cheios de neuroses e objetivos épicos. Acaba que nesse aspecto não é tão diferente de outros gêneros de história em quadrinhos.

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A narrativa se foca na eclosão da Segunda Guerra Mundial e culmina em uma palestra ministrada por Russell, passando por vários momentos da vida do pensador, e dos autores, navegando com elegância os momentos e pensamentos importantes para as questões sobre a lógica da realidade e a loucura.

Os desenhos e cores merecem um destaque especial. A escolha de estilo casa perfeitamente com a proposta, com um design clean, que nem engrandece nem diminui os personagens, usando muito bem o espaço negativo e recursos estilísticos pra diferenciar o presente do passado, o fato da imaginação, etc. As cenas que retratam a guerra, por exemplo, tem as bordas de páginas pintadas de preto, pra dar uma sensação mais opressiva. Por outro lado, quando Russell expõe suas teorias, o traço e cores mudam para um estilo mais caricato, meio Disney, pois aquelas teorias representavam uma conciliação de Russell com suas aflições de espírito. Claro, ao final da história as aflições permanecem bem mais que as soluções.

Para aqueles interessados em filosofia, matemática e lógica, Logicomix, de Apostolos Doxiadis e Christos H. Papadimitriou, é um prato pronto. Mas praqueles interessados em ler algo que é capaz de tornar um tema considerado chato em algo divertido e intrigante, que além de tudo sabe utilizar da linguagem da arte sequencial sem recair nos clichês do collant e capa, esta obra é o que você estava procurando.

Lógica e Loucura, essas duas que fazem parte da vida de todo mundo, que também fazem parte da história do pensamento ocidental, saíram dos livros convencionais e agora recheiam com a profundidade certa os quadrinhos. Recomendadíssimo.

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Tanatose – Conto

TANATOSE, ou O Caso dos Nove de Bombaim

Relatório do Dr. Gupta.

14 de março

Fui designado pelo governo para pesquisar um caso em Bombaim. Cheguei a Bombaim na sexta passada e tive acesso ao histórico do paciente. Sanjaya Singh, 19 anos, aproximadamente 69 kg. As fotos e relatório do rapaz apresentam um perfil saudável, exceto pelo hábito do tabagismo e um histórico de hipertensão. Nada cuja influência pudesse determinar um comportamento anômalo.

Os relatórios psiquiátricos são inconclusivos e vagos. O diagnóstico de demência parte muito mais de uma observação superficial do que de uma análise médica. O canibalismo praticado pelo caso estudado é deveras estranho. Não há qualquer ligação de Singh com seitas religiosas que utilizassem dessa prática asquerosa.

Amanhã terei o primeiro contato com o paciente e uma reunião com o grupo de médicos responsáveis. Pretendo, como chefe da equipe, designar novos psiquiatras e psicólogos para o caso.

15 de março

Designei 3 médicos psiquiatras e 2 psicólogos para tratar do caso. Reuni-me com a equipe e discutimos os detalhes importantes, traçamos diagnósticos possíveis e descartamos os improváveis. Após o horário de almoço sentarei com os hemogramas e finalmente poderei examinar Sanjaya.

19h00min. Estou cansado. Os relatórios inconclusivos e o labirinto de diagnósticos dos demais médicos não são à toa. A atual condição de saúde de Sanjaya me assusta. O pulso é baixíssimo. Qualquer pessoa nestas condições estaria desacordada. Mas Sanjaya estava desperto, respondia eventuais perguntas e vez ou outra era tomado por um acesso agressivo. A perda de consciência é constante, e quando em vigília parece não conseguir pensar direito. As tomografias também mostram uma atividade cerebral semelhante à de uma pessoa desmaiada. As mucosas do paciente estão secas e cheias de feridas. Os olhos são vidrados e pouco ele pisca. O paciente rejeita qualquer comida, aceitando apenas água. Entretanto, ele não consegue engoli-la, em um quadro clínico (neste aspecto) semelhante à hidrofobia. Apesar das mucosas extremamente secas e cobertas de feridas, a pele do paciente começa a apresentar uma fina camada oleosa. Uma espécie de secreção com cheiro forte. Uma amostra do tecido foi tomada para análises.

16 de março

Resolvi acompanhar mais diretamente o caso de Sanjaya. Estamos diante de algo completamente novo e desafiador. Minha equipe cunhou o termo Tanatose para se referir ao estado clínico de Sanjaya. Tanatos – deus da morte em grego. Este nome, apesar de lúgubre, representa boa parte das condições de saúde de Sanjaya. É assustador, mesmo para médicos experientes como os da equipe. Resolvi então acompanhar diariamente o caso. Às 06h07min da manhã recebi um telefonema do hospital. O paciente havia se livrado das amarras e corrido em direção a um dos enfermeiros. Muita sorte não ter se repetido a tragédia dos nove de Bombaim, que foram brutalmente canibalizados por Sanjaya. Quando cheguei hoje cedo ao hospital, ele estava agrilhoado, amordaçado e vigiado. Pareceu-me um exagero, mas nunca se sabe. Os exames de sangue conseguiram isolar um elemento estranho na corrente sanguínea. Não possui estrutura de DNA ou RNA que conhecemos, mas comporta-se exatamente como um vírus. 12 horas depois o vírus havia se transformado. 12 horas! Três dias em contato com o caso e já me deparo com um quebra cabeças insolúvel…

A pele de Sanjaya apresenta uma acelerada decomposição. A cobertura oleosa com cheiro forte começou a apresentar pústulas. O fluxo sanguíneo está fraquíssimo.

Uma pequena ferida na boca do paciente se alastrou por toda a língua. Suspeito que Sanjaya estivesse tentando devorar a própria língua. Apesar do estado de saúde extremamente frágil, o paciente demonstra uma força impressionante.

23 de Março

Na última semana o estado de Sanjaya estabilizou-se relativamente. Isto de forma alguma é uma coisa boa. Não dormiu, tendo desmaiado duas vezes na semana no período total de 06:23 horas. A agressividade intensificou-se e tive que afastar a equipe. Um enfermeiro foi atacado no acesso furioso de Sanjaya durante a madrugada de sábado. Sanjaya mordeu a parte lateral da coxa em proximidade ao joelho do enfermeiro (ver anexo), uma necrose alastrou-se pela região da mordida, ao que não restou outra medida senão a amputação imediata. A epiderme de Sanjaya está em estado de decomposição avançado, os pelos começaram a cair, a pulsação sanguínea é praticamente nula. As mucosas de todo o corpo estão ressecadas e cheias de feridas. As unhas todas caíram. O estado do rapaz pode ser descrito em três etapas:

1 – quando em abstinência – deus me perdoe – de sangue e carne, a agressividade se intensifica muito, a força e agilidade tornam-se incríveis e o paciente perde toda capacidade de raciocínio.

2 – após satisfazer o seu estado de abstinência, um profundo cansaço se abate sobre o paciente. Permanece incapaz de raciocínio lógico.

3 – ainda “alimentado”, o paciente passa por um período de vigília, quando apresenta uma limitadíssima capacidade de raciocínio. É como um cão furioso no máximo. Compreende alguns comandos, mas permanece em estado agressivo.

Os estudos irão prosseguir. Temo que não mais poderei continuar com os diários, já que os exames, observação e tratamentos têm tomado a maior parte de meu tempo. Os relatórios, entretanto, poderão resumir o estado de Sanjaya. É um caso delicado, assustador e extremamente perigoso. A possibilidade de uma cura ou tratamento está muito distante de nossa realidade ainda, mas não descansaremos enquanto esta moléstia não tiver um caminho para o tratamento médico apontado.

Por Pedro Ribeiro Nogueira

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Pedro Ribeiro Nogueira (@Pedro_RNogueira) é estudante de Filosofia e Direito. Aprecia e escreve HQs, ouve muito Rock’n’roll, pratica a desobediência civil e recusa-se terminantemente a dançar.Pedro Ribeiro Nogueira é estudante de Filosofia e Direito. Aprecia e escreve HQs, ouve muito Rock’n’roll, pratica a desobediência civil e recusa-se terminantemente a dançar.

Escalpo – Se não leu, leia!

 

Em 2010 eu fiquei sabendo que a revista Vertigo ia voltar a ser lançada, dessa vez pela Editora Panini. De imediato fiz cálculos pra adequar essa revista nos gastos mensais, por que todo mundo sabe que quase tudo que sai por esse selo é garantia de qualidade. Quando tive notícia que Lugar Nenhum, obra de Neil Gaiman (meu ídolo. E provavelmente seu também) ia estar no mix dessa revista, não tive dúvida.

Um ano depois, entretanto, não é Lugar Nenhum que ainda me faz comprar o título mensal. Na verdade, a história foi uma decepção, e já saiu do mix, dando lugar para Vampiro Americano.

Escalpo é a melhor história do mix, em minha opinião. Vikings (Northlanders, no original) é bem legal também, mas cheia de altos e baixos. Escalpo é uma daquelas raridades que só tem altos.

Bem vindo à ‘Rosa da Pradaria’, a reserva indígena com maior índice de alcoolismo dos EUA, onde são implantados laboratórios de meta-anfetamina sob determinação do chefe tribal, onde perambulam grávidas e prostitutas viciadas em crack, e onde assassinatos a agentes federais fazem parte da história local.

O cenário e os personagens de Escalpo subvertem o ditado popular “o poder corrompe”. Na verdade “as pessoas corrompem o poder”.

A história é centrada em Dashiel Cavalo Ruim, um Oglala Lakota que abandonou a reserva Rosa da Pradaria e voltou após 15 anos como um agente infiltrado.

Um pitbull sem coleira, Dashiel tem a missão de entregar ao FBI os casos de assassinato envolvendo direta ou indiretamente Lincoln Corvo Vermelho, o chefão mafioso que domina a reserva com mão de ferro. O disfarce de um policial sob ordens de Corvo Vermelho, então, veio a calhar, e deu a chance de Dashiel extravasar a fúria e conhecer outros personagens importantes para a trama.

Riqueza de personagens é o que não falta nessa história. Conhecemos Gina Cavalo Ruim (mãe de Dashiel), O Apanhador, Carol, Dino Urso Pobre e outros, não sendo nenhum um personagem unidimensional. O realismo é tal que quase nos convencemos que os eventos e diálogos nos quadrinhos poderiam de fato ter acontecido. A escrotidão dos personagens é a mesma das pessoas de verdade! É possível ficar com raiva ou pena deles.

Não há em Escalpo aquele personagem que seja o tempo todo bonzinho ou heróico ou o arquetípico vilão. Se por um lado temos Gina, uma defensora da herança nativa, nela temos também uma assassina. Dashiel é cativante e tem a dose de brutalidade pra agradar qualquer leitor, mas é também um cabeça-dura ignorante que dá raiva. Corvo Vermelho pode ser um mafioso sem piedade, mas no decorrer da história vemos um lado sensível dele que é espetacular.

Não dá pra falar desta obra sem entrar em mais detalhes, mas fica a minha recomendação. Essa é uma revista que vale à pena ser lida e relida, pois tem uma dose de genialidade única, porque não se parece com nada que você já leu. O roteiro de Jason Aaron merece os prêmios que ganhou, e a arte de R.M. Guéra dá vida à história com um realismo brutal.

Pra finalizar, vale frisar que Escalpo foi em parte inspirada em Leonard Peltier, um índio que foi condenado pelo assassinato de dois agentes do FBI, em um tiroteio em uma reserva indígena em 1975. Este evento resultou no documentário ‘Incidente em Oglaga’, de 1992, dirigido por Michael Apted e narrado por Robert Redford. O índio Leonard Peltier foi condenado, mas muitos acreditavam ser ele inocente.

Escalpo é um excelente trabalho, daquele tipo que estamos sempre ansiosos por ver, mas poucas vezes encontramos. Por favor, se não leram, leiam!

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Pedro Ribeiro Nogueira (@Pedro_RNogueira) é estudante de Filosofia e Direito. Aprecia e escreve HQs, ouve muito Rock’n’roll, pratica a desobediência civil e recusa-se terminantemente a dançar.Pedro Ribeiro Nogueira é estudante de Filosofia e Direito. Aprecia e escreve HQs, ouve muito Rock’n’roll, pratica a desobediência civil e recusa-se terminantemente a dançar.


A fantástica arte de Moebius

Colaborador: Pedro Ribeiro Nogueira (@Pedro_RNogueira)

Pegando o vácuo do último Videocast do Pipoca e Nanquim, sobre Mangás, me endireitei na cadeira, estalei os dedos e pus as idéias no lugar para falar sobre um artista fantástico e que deveria ser conhecido por TODOS fãs de quadrinho, o francês Jean Giraud, ou Moebius.

Antes de falarmos do cara, minhas singelas explicações: Moebius e os quadrinhos orientais não têm relação nenhuma não! Mas para apreciar Moebius (bem como os Mangás) o fã de comics e histórias de super-heróis comuns necessitam abrir com um pé-de-cabra a cabeça e aceitar os outros estilos. Eu sou um destes. Demorei muito para sair do meu estilo preferido (Vertigo) e começar a ler coisas diferentes. É como o Bruno falou no programa, existe esse preconceito bobo dentre os leitores de arte seqüencial. E se o Pipoca e Nanquim já fez uma viagem à terra do sol nascente, vamos até a cidade das luzes e conhecer um pouco desse francês!

Moebius é o pseudônimo de Jean Giraud. Em alguns trabalhos também aparece com a assinatura Gir. A fama de Moebius não se limitou à Europa, mas se espalhou por todo o mundo. Essa fama, entretanto, não é a mesma fama que outros artistas da arte seqüencial puderam ter. Talvez pelo preconceito dos fãs. Mas o mais provável é que o próprio estilo do cara o tenha limitado.

O traço limpo, detalhado e arredondado de Moebius não se encaixou bem com os quadrinhos de super-heróis, que é o carro chefe da indústria. Tampouco é suficientemente simples para influenciar desenhos animados e outras mídias.

O traço dele é único. Digno de galerias de arte.

De alguma forma misteriosa ele passa despercebido por muitos leitores. Mas basta bater o olho em algumas das obras do francês pra sentir o queixo atingir no chão. Dono de uma imaginação (auxiliada por viagens de LSD?? Creio que sim!) incrível, o artista domina os cenários com diversas imagens arrepiantes.

Psicodelia e futurismo são elementos óbvios, e Moebius lança mão de invenções e apresenta criaturas de outros mundos e idéias pra lá de malucas. Não é incomum passar horas observando apenas uma página dele.

Ao olhar para os cenários desérticos ou repletos de pessoas e ver criaturas que ele cria, eu começo a pensar que só podem ter influenciado George Lucas no design de Star Wars.

Bem, talvez eu esteja sendo irresponsável com esta última afirmação, mas certamente não peco ao dizer que a estética européia de desenho de Moebius, embora ele próprio muito pouco tenha passado pelos quadrinhos dos super-heróis, com certeza influenciou um dos artistas que mais aparece hoje em dia, Frank Quitely.

Olhe para o Allstar Superman, por exemplo, e me diga se você não percebe uma influência clara do Moebius ali. E se isso é pouco pra você, me diga: Já ouviu falar de Alien: O oitavo Passageiro? E quanto a Quinto Elemento (que conta com a presença do MELHOR ATOR de todos os tempos)? Segredos do Abismo, Tron e até Death Note, todos estes tiveram participação direta do design do francês.

Não bastasse isso, as histórias que já li do cara são todas muito boas. Minha sugestão: Incal e Little Nemo in Slumberland.

Tudo isso dito, pode ter alguém que não goste muito do estilo psicodélico do Moebius (embora eu ache isso impossível). Não tem problema, pois polivalente como ele é, já trabalhou em quadrinhos como Blueberry, um faroeste que prima pelo realismo. Os personagens, as feições, os cenários, tudo muito digno e bonito.

Vocês podem perceber que este post não é um tratado sobre a teórica artística do Moebius, onde se elaboram criticas e elogios ao estilo único dele. Na verdade, queria simplesmente apresentar pra vocês uma breve reflexão sobre essa arte impressionante. Eu não preciso dizer muito – a arte dele já trata de nos levar a outros mundos!

Se Moebius não manda bem pra caramba meu nome é Jamal e eu sou um dançarino de Lambada!

Deixo vocês com algumas páginas para serem contempladas. Boa viagem!

Agora me explica: como tem gente que gosta do Rob Liefeld?

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Pedro Ribeiro Nogueira é estudante de Filosofia e Direito. Aprecia e escreve HQs, ouve muito Rock’n’roll, pratica a desobediência civil e recusa-se terminantemente a dançar.

Gary Oldman nunca pisou na bola.

Colaborador: Pedro Ribeiro Nogueira (@pedrossauro)

Gary Oldman nunca pisou na bola.

Com esta frase já inicio esta matéria deixando evidente minha quase adoração ao ator inglês. E ela não podia ser mais correta, pois Leonard (Vou usar o primeiro nome dele, Leonard Gary Oldman porque nós somos muito chegados…) embora já tenha feito um ou outro filme que não chamou atenção do público ou crítica, jamais foi visto fazendo um papel risível ou questionável. Talvez possam surgir eventuais leitores que vão apontar o dedo para este (O Livro de Eli) ou aquele filme (Dois picaretas e um bebê) que não foram exatamente grandes obras cinematográficas. Demérito de Leonard? Nem pensar!

Já perceberam que este texto é muito parcial? Ótimo. Vejamos porque Leonard Gary Oldman é um dos maiores atores de cinema de todos os tempos:

Primeiro gostaria de ressaltar uma questão importantíssima, que é o fato de Leo quase nunca se encontrar no papel principal dos filmes que faz. Considero isso um detalhe importante, pois sem ofuscar os papéis de maior destaque nas tramas, o ator consegue somar em profundidade o time de atores. Já ouvi falar que numa música a guitarra e a voz são “o recheio do sanduíche”, enquanto que o baixo e a bateria são “o pão”, o que mantêm o todo coeso, firme, organizado. Esse é Oldman quando atua como Support Actor (Ator de Auxílio, coadjuvante). Ele não ofusca a principal estrela. Pelo contrário, a ajuda a ter mais brilho.

Gary Oldman em "Amor à Queima-Roupa" (1993)

O IMDB diz que os personagens dele são frequentemente psicóticos no limite de suas funções mentais. Também é dito que o ator é conhecido por interpretar papéis que exigem diferentes sotaques e alterações de aparência. Bem, acredito que quando alguém é conhecido por algo assim só pode ser por ou fazer isto de forma ridícula ou espetacular. E de fato ele é espetacular. Quando se observa o comportamento do transtornado vilão em O Profissional, pode-se ter uma idéia do mergulho psicológico que Oldman teve de fazer para buscar aquela ira e perturbação pra encarnar Stansfield. A já clássica cena em que grita para um dos capangas é digna de ser revista, bem como a cena em que o personagem toma uns remédios duvidosos. Fantástico. Perturbador. Excelente.

Outra coisa que muito me agrada nele é a capacidade de encarar papéis completamente diversos. Quem assistiu Drácula de Bram Stoker o viu em mais de um papel. Sim, mais de um personagem – transita do excêntrico senhor da noite, uma alma antiga e atormentada, para o cosmopolita sedutor e também para o guerreiro medieval. Lembrou de Bela Lugosi? Esqueça ele! Oldman dá um show incrível do que é um monstro de centenas de anos que se alimenta de sangue e sofre pela perda da amada. Na cena que segue vemos a abertura do filme, em que Dracula, ainda Voivode da Transilvânia, sela seu destino. Reparem na língua falada.

Acho que esse é provavelmente o melhor papel que já assisti dele. Mas Drácula sozinho não é suficiente pra explicar a genialidade do inglês. Se por um lado ele abraçou as trevas no filme do Coppola, em O Quinto Elemento nós vemos um verdadeiro desfile de samba no ano três mil e alguma coisa. Um amofadinha pernóstico e futurista: Zorg. Vejam vocês mesmos a cena que segue, e reparem no casaco furta-cor que ele usa e tentem não se lembrar de Jimmy Olsen em Allstar Superman.

Não preciso chamar mais atenção para a franquia de Chris Nolan para o Morcego, mas com certeza não foi dito o suficiente sobre o Comissário Gordon nesses dois filmes. Para ter idéia do nível da importância desse papel para os filmes, uma pergunta: Alguém se lembra dos comissários dos filmes anteriores? Se por um lado vemos em Harry Potter, O Profissional, Sid & Nancy e Drácula, Oldman encarnando personagens chamativos e excêntricos, quando chegou o momento de fazer um homem de família, lutando para sobreviver em uma cidade em que – convenhamos – ele é o único normal, não fez feio! Gordon nestes filmes é um exemplo da atuação secundária, mas que não deixa a desejar ao andamento do filme. A carga dramática da cena em que Duas-Caras obriga o comissário a mentir para seu filho, dizendo que tudo ia ficar bem é de se aplaudir de pé. (http://www.youtube.com/watch?v=lY7xhnJtlkE)

Bem, parcialidades à parte, esta é minha contribuição sobre um dos que considero nata de Hollywood. Não concorda? Não tem problema. Acho que a coisa mais interessante é analisar cada atuação, cada direção, cada detalhe de cada tipo de arte e assim poder eleger aquela que mais te emociona. Eu estou sempre ansioso para saber a banda favorita, o filme favorito, o melhor livro, etc. das pessoas, pois isso demonstra uma parte de como se pensa e como se sente, e o porquê dos pensamentos e sensações também.